Carta ao Autor Inédito e Desconhecido, por Nelson de Oliveira

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Carta ao Autor Inédito e Desconhecido, por Nelson de Oliveira

Mensagem por Brontops em Qua Set 09, 2009 6:07 pm

http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=2659

Caro amigo, tudo o que eu tenho a dizer é:



1. Organize um grupo de estudos.

2. Organize saraus.

3. Crie um site literário.

4. Publique uma revista.

5. Edite você mesmo o seu livro.

6. Funde uma editora.

7. Contrate um agente literário.

8. Participe da vida social literária.

9. Participe de todos os bons concursos literários.

10. Conquiste a simpatia de um escritor veterano.



Que sugestões são essas? O que significa tudo isso? Muito bem, eu vou explicar.

Você vem trabalhando solitariamente há muito tempo, escrevendo, revisando, reescrevendo, lendo, relendo, refletindo, aperfeiçoando sua prosa, ou sua poesia, aperfeiçoando-se, colecionando páginas e páginas de texto limpo e acabado.

Páginas e páginas que devagar foram compondo, de maneira meticulosa e disciplinada, o primeiro livro.

Depois de dois, três, quatro anos solitários trabalhando em silêncio nesse primeiro romance, ou nessa primeira coletânea de contos ou de poemas, você sente que agora é a hora, que este é o momento do passo seguinte: a publicação de seu livro de estréia.

Então você imprime várias cópias dessa primeira obra e as envia às principais editoras do país.

Durante duas semanas, confiante, você espera. Em breve um telefonema entusiasmado, de alguém assombrado com o seu talento, com a sua pujança criativa, dará continuidade à sua carreira literária recém-iniciada.

Os meses passam e nada acontece.

Tempos depois, de metade das editoras chegam as cartas de recusa. Cartas padronizadas, frias, indiferentes. A outra metade nem se dá ao trabalho de recusar.

Então você faz novas cópias de sua primeira obra-prima e as envia para outras editoras, de menor porte (há tantas por aí).

Os meses passam e nada acontece. Mas dessa vez, espicaçado pela insegurança, você não se mantém tão tranqüilo como antes. Durante a espera, a ansiedade vai crescendo e envenenando suas artérias, seu coração, seu sistema nervoso.

Tempos depois, de metade das editoras de médio porte chegam as antipáticas cartas de recusa.

Irritado, angustiado, despeitado, você agora mira nas editoras pequenas (há tantas por aí) e a história torna a se repetir.

O veneno que corrói suas entranhas foi ficando mais e mais agressivo em todos esses meses de espera. Afinal, durante esse longo tempo — um ano? —, quantos livros medíocres não foram lançados pelas editoras grandes, médias e pequenas?

Muitos!

Dezenas de romances e coletâneas aguados, escritos por gente sem talento.

Nesse longo ano de espera, segundo a pesquisa anual da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Sindicato Nacional de Editores de Livros (SNEL), no Brasil foram publicados perto de cinqüenta mil títulos, entre lançamentos e reedições.

Cinqüenta mil!

E o seu não está entre eles.

Você xinga, esperneia, amaldiçoa a vida e o mercado editorial. Malditos editores, malditos distribuidores, malditos livreiros.

Que fazer? Continuar enviando cópias? Escrever outro livro? Suicidar-se?

As grandes editoras recebem em média sessenta originais por mês. Algumas chegam a receber cem nos meses de pico. Por maior que seja a boa-vontade, a equipe editorial e os leitores profissionais ligados a ela não têm a menor condição de avaliar tanta prosa e tanta poesia. Principalmente porque o retorno é incerto: os bons originais são muito raros. Então toda essa papelada inédita vai direto para o topo da imensa slush pile (pilha de lama, no jargão editorial) e jamais será lida.

Mas você acredita no seu talento. Você é teimoso. A banalidade, a burrice geral e a massificação gritam o tempo todo: “Pare de escrever!”, mas você não pára.

Você acredita no que escreve e está convicto de que a sua vocação literária é genuína. Afinal a integridade dessa vocação já foi testada inúmeras vezes pelas mais diferentes forças. E soube superar todas as provas.

Inclusive as de uma oficina de criação literária.

Eu costumo receber pelo menos um e-mail por semana de um autor inédito e desconhecido pedindo que eu leia seu original e opine sobre sua arte. A maioria desses autores nunca folheou um livro meu, mas já leu meus artigos na imprensa e desconfia, sabe-se lá por quê, que eu tenho certo poder de convencimento junto aos editores.

A dura rotina é essa. Eu costumo receber um e-mail por semana de um autor inédito e desconhecido pedindo que eu leia seu original e o encaminhe a um editor, com uma emocionada e vibrante carta de recomendação.

Mas como eu poderia ler o seu original, se levo uma vida atribulada, comparecendo pontualmente ao local de trabalho (sim, sou assalariado, como você), dando aulas, coordenando oficinas, participando de debates e mesas-redondas, escrevendo artigos e resenhas? Eu não tenho disponibilidade para ler um original por semana. O pouco tempo que me resta, eu procuro empregar na minha própria literatura. Ou na leitura dos livros que eu quero muito conhecer.

Diante do repetido pedido desses angustiados escritores inéditos, e por isso desconhecidos, a minha resposta é sempre a mesma: “Infelizmente não dá”.

Também uma vez por semana eu recebo um e-mail de um autor inédito e desconhecido reclamando da mediocridade do nosso mercado editorial. “Já enviei meu romance a dezenas de editoras, e até agora nada”, ele esbraveja. Em seguida enumera, indignado, as porcarias que acabaram de ser lançadas por essas mesmas editoras.

O fato é que vivemos numa sociedade de consumo, industrializada e coordenada por uma economia de mercado, e a literatura, metida nas entranhas da cultura de massas, não está livre das leis que regem essa sociedade, essa economia e essa cultura.

Se essa verdade não for encarada pra valer, se a atividade literária não for vista de maneira mais pragmática e menos idealizada, os seus originais, meu caro autor inédito e desconhecido, continuarão aumentando a slush pile.

Se você tem talento, se realmente tem talento, fique sabendo que você já tem quase tudo para triunfar na vida literária. Faltam agora a disciplina, a determinação e, é claro, um pouco de sorte. Porque, sejamos sensatos, o talento, a disciplina e a determinação não valem muito sem esse punhado de sorte.

O protagonista idealizado da atividade literária é, hoje, o autor que vive isolado, mas não encontra sentido nem conforto nesse isolamento.

É o sujeito que dedica todo o seu tempo livre aos livros e à escrita, é o lobo solitário do romance de Hermann Hesse, é a sensibilidade que não suporta a confusão emocional das ruas, dos bares e dos cafés. Mas não encontra sentido nem conforto nesse isolamento, do contrário não sentiria a necessidade torturante de enviar originais às editoras.

Caro amigo, se você sente mesmo que, para justificar seu esforço e sua vida, a sua obra precisa alcançar muito mais do que os seis ou sete leitores do seu círculo familiar, então eu sugiro que você abandone o romântico e confortável caminho da refinada solidão.

Não se deixe abater pelo estudo do Gabriel Zaid (Livros demais! Sobre ler, escrever e publicar, editora Summus). Há livros demais no mundo? Paciência. Também há pessoas demais e nem por isso o controle de natalidade tem sido adotado nas regiões mais populosas.

O grande teste do escritor é a teimosia.

Por isso eu recomendo que você:



1. Organize um grupo de estudos.

2. Organize saraus.

3. Crie um site literário.

4. Publique uma revista.

5. Edite você mesmo o seu livro.

6. Funde uma microeditora.

7. Contrate um agente literário.

8. Participe da vida social literária.

9. Participe de todos os bons concursos literários.

10. Conquiste a simpatia de um escritor veterano.



Toda essa movimentação exporá você e sua literatura a um número cada vez maior de leitores. Devagar, passo a passo, você irá conquistar o seu próprio público, pequeno mas fiel.

E os olheiros das editoras estão sempre atentos aos autores que já têm seu pequeno público.

Deixe a modéstia e o pudor cristão de lado.

Não há vergonha alguma, por exemplo, na auto-edição. Alguns dos grandes nomes da prosa e da poesia brasileiras pagaram a edição dos seus primeiros livros. Muitos deles, graças ao talento e à sorte, em pouco tempo passaram da auto-edição para uma grande editora. O fundamental é que o livro auto-editado tenha a mesma qualidade gráfica e editorial que os livros das editoras consagradas.

Com a informatização do setor gráfico e o conseqüente barateamento do processo de impressão e acabamento, uma quantidade considerável de pequenas editoras foi surgindo a partir da virada do século. Algumas delas fundadas por escritores em busca de um canal para a sua produção e a de seus colegas.

A contratação de um agente não costuma ser barata. Mas não resta dúvida de que o agenciamento literário, procedimento largamente adotado nos países de sólido mercado editorial, está se tornando comum também no Brasil. Entre outras benfeitorias, esse profissional tem ajudado a organizar o desordenado vaivém de originais e diletantes frustrados.

Sim, continue enviando e-mails aos autores que você admira. Convide-os ao diálogo, troque figurinhas com eles.

Mas, veja bem, eu disse aos autores que você admira.

É preciso que haja muita afinidade literária entre vocês. Afinidade temática, estilística, existencial.

Não faz o menor sentido ficar pedindo ajuda aos escritores que você mal conhece, cujos livros nunca despertaram em você o menor interesse.

Além de ser um procedimento pouco ético, isso não funciona, é perda de tempo.







[Veja também: http://www.cronopios.com.br/site/noticias.asp?id=2660]

Nelson de Oliveira nasceu em Guaíra, SP. Escritor e mestre em Letras pela USP, publicou Naquela época tínhamos um gato (contos, 1998), Subsolo infinito (romance, 2000), O filho do Crucificado (contos, 2001, também lançado no México), A maldição do macho (romance, 2002, publicado também em Portugal) e Verdades provisórias (ensaios, 2003), entre outros. Em 2001 organizou a antologia Geração 90: manuscritos de computador e em 2003, Geração 90: os transgressores, com os melhores prosadores brasileiros surgidos no final do século XX. Ainda em 2003 editou com Marcelino Freire o número único da revista PS:SP. Dos prêmios que recebeu destacam-se o Casa de las Américas (1995), o da Fundação Cultural da Bahia (1996) e duas vezes o da APCA (2001 e 2003).
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Re: Carta ao Autor Inédito e Desconhecido, por Nelson de Oliveira

Mensagem por Brontops em Qua Set 09, 2009 6:07 pm

Para contrabalançar, segue um artigo de Braulio Tavares sobre o valor da persistência:
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Re: Carta ao Autor Inédito e Desconhecido, por Nelson de Oliveira

Mensagem por Brontops em Qua Set 09, 2009 6:09 pm

O Poço Artesiano, por Brauilo Tavares

http://mundofantasmo.blogspot.com/2009/09/1254-o-poco-artesiano-2132007.html

Reza a lenda que, durante as filmagens de Luzes da Cidade, Charles Chaplin empacou num detalhe não previsto no roteiro. A história tinha que aproximar o Vagabundo, seu clássico personagem, de uma florista cega, que deveria confundi-lo com um sujeito rico. Chaplin foi filmando até chegar à cena do primeiro encontro dos dois, e aí parou. Como fazer (ainda mais num filme mudo) com que a cega confundisse o Vagabundo com um ricaço? Todo dia a equipe ia para o estúdio e ficava esperando. Em vez de filmar as cenas seguintes, como se faria hoje, o diretor decidiu que a filmagem só continuaria depois que aquela cena específica fosse feita.

Acabou sendo, depois de semanas de espera e milhares de dólares gastos em vão. Chaplin pensou num engarrafamento de trânsito. O Vagabundo, para chegar à calçada passaria por dentro de uma limusine cujo banco traseiro estava vazio. Ele abria a porta, entrava, passava por dentro do carro, saía do lado oposto, batia a porta e chegava à calçada. A florista cega percebia apenas que aquele homem de voz macia que conversava com ela tinha saltado de dentro de um carro elegante. (Podemos supor que a cega sabe distinguir, pelo barulho, uma limusine de uma fubica).

O que quero comentar não é a cena em si, mas durante quanto tempo podemos bater numa mesma tecla, à espera da solução de um problema. Isso é discutido muitas vezes em Administração com a metáfora do poço artesiano. Você sabe que existe água naquela área. Perfura cinco metros, e nada. Perfura dez metros, e nada. Vinte, e nada. O que é mais sensato: continuar perfurando ali, ou começar outro poço um pouco mais adiante? Isto se liga ao que discuti recentemente no artigo “A morte quântica de James Kim” (13 de dezembro), em que um sujeito, preso com a família numa tempestade de neve, não sabia se ficava abrigado no carro ou se saía em busca de socorro. Saiu, morreu de frio, e o socorro encontrou o carro. Mas como ele poderia saber? Estava cavando no escuro.

No caso de Chaplin, tudo tem a ver com a teimosia do diretor e a fortuna de que o estúdio dispõe. Alguns empreendimentos artísticos estão dando prejuízo até hoje, como o disco do Guns’n’Roses Chinese Democracy, no qual já se gastaram milhões de dólares, e que já passou para a história como O Disco Mais Caro do Rock – e nunca foi lançado, porque até hoje não ficou pronto. Os músicos brigam entre si, brigam com os produtores, os produtores com o estúdio, o estúdio com a imprensa, os dólares continuam fluindo para o ralo, e o disco só deve ficar pronto, profeticamente, quando a China se tornar de fato uma democracia. O disco do Guns é o exemplo mais claro de um poço artesiano que já vai com quilômetros de fundura sem encontrar água. Claro que seus engenheiros têm todo o direito de supor que o lençol freático deve estar situado nos próximos metros, e acham melhor continuar apostando no sucesso final do que dar por perdido todo o investimento feito até agora.
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Re: Carta ao Autor Inédito e Desconhecido, por Nelson de Oliveira

Mensagem por Jacaranda em Sex Set 11, 2009 10:09 pm

Muito interessante o primeiro texto. E é verdade... se você quer ser um escritor solitário então você vai continuar... solitário! Razz Sem editores, leitores e fãs.

Sobre o texto sobre persistencia, o autor sugere que tentemos novas opções pelo que me pareceu. E isso é verdade! Por exemplo, se você está fazendo uma história em quadrinhos sobre jornalistas (como no meu caso!) pare de ficar implorando para que a "nata" quadrinística do Brasil veja o seu trabalho: mostre aos jornalistas! (não sei se deu para entender...)
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Re: Carta ao Autor Inédito e Desconhecido, por Nelson de Oliveira

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