TEXTOS REVISADOS DA EDIÇÃO # 21

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TEXTOS REVISADOS DA EDIÇÃO # 21

Mensagem por Kio em Qua Mar 02, 2011 10:02 am

A migração e a saudade

Nanuq, um velho Urso Polar, havia feito uma pergunta e aguardava com um olhar terno e as mãos sobre as têmporas da pequena menina.

- A coisa – começou a balbuciar a garota, com a cabeça levemente levantada em direção ao animal – é que a “Tingmiaq“, nossa “pecinha lala” foi embola – completou ela com sua pronuncia ímpar e segurando as lágrimas para não cair em prantos.

O Velho Urso sentiu empatia pela sinceridade da menina. Até mesmo ele com toda sua experiência, sabedoria e dificuldades que havia passado na vida, também sentia falta de “Tingmiaq“.

No Ártico Oriental não era comum conhecer uma companheira tão incrível e cheia de vida como “a pecinha rara“. De fato, a vida para todos eles havia sido tão fria quanto os blocos de gelo que os rodeavam, até que aquela formosa figura apareceu por aquelas bandas, por conta da dúvida que tinha do local para onde deveria migrar…

Foi pensando nisso que o Grande Urso Branco disse:
- Pequena Inuit, deves lembrar que nossa querida “Tingmiaq” simplesmente voltou, durante uma temporada, ao lugar de onde ela veio… A migração faz parte da natureza dos homens, animais e plantas… E a natureza é perfeita, jovem companheira!
Lá onde está “Tingmiaq” também existe outra menina que a adora e sente falta dos seus sorrisos, abraços, beijos e alegria. Além do que, principalmente, a ela também fazem falta o calor e carinho das suas origens – O Urso segurou o rosto da menina com suas duas patas e ajoelhando-se, para estar a mesma altura dela continuou dizendo – Sabes que o inverno aqui é duro e frio, menina Inuit, e nossa amiga sempre nos traz alegria… então devemos nos animar para que, quando “Tingmiaq” voltar, sinta que também tem uma família aqui conosco!

A garota sentiu uma radiante sensação ao escutar seu conselheiro. Quanta razão havia em suas palavras! E, ademais, a amiga deles nunca ficaria contente sabendo que sua ausência diminuiu a felicidade deles.

A pequena Inuit abraçou Nanuq e disse:
- Acho que agora entendo o que significa saudade!

O Velho Urso sorriu, deixando sair de sua boca um pouco da típica fumaça em uma temperatura tão baixa e comentou:

- Vem, vamos chamar os outros e preparar alguma coisa juntos. Assim, quando “Tingmiaq” estiver de volta, teremos muitas aventuras para contar e escutar!


Última edição por Kio em Seg Abr 25, 2011 3:47 pm, editado 1 vez(es)
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Re: TEXTOS REVISADOS DA EDIÇÃO # 21

Mensagem por Kio em Qua Mar 02, 2011 10:11 am

Entrevista com Ben Templesmith

FARRAZINE - Ben, seu traço é reconhecível por qualquer amante de quadrinhos. A intensidade e brutalidade das cenas (e isso é uma coisa boa, a propósito) é palpável. A questão é: como você veio a desenvolver esse traço? Qual sua trajetória, o processo da criação? Digo desde o dia em que você tentou desenhar pela primeira vez, como foi, que técnicas você experimentou e quais você achou melhores para os resultados desejados? Sei que é uma pergunta grande, mas espero que diga bastante sobre você, como artista.
Ben Templesmith - Tentativa e erro, na maior parte. Eu simplesmente gosto de seguir minhas influências. E prazos de entrega também influenciam o estilo, pra ser honesto. Então, é uma combinação de várias coisas. Eu sempre gostei de misturar técnicas e de ser diferente. E gosto de cores tanto quanto do desenho, então talvez isso explique um pouco (sobre o estilo que desenvolvi).

FZ - E quanto a outros artistas europeus, como Thomas Ott (desenhista de quadrinhos de horror suíço)? Poderia comentar um pouco daqueles cujo trabalho te deixou alguma impressão?
BT - Não posso dizer que tenho influências européias nesse sentido, embora Victor Ambrus, um ilustrador de livros, seja uma de minhas maiores.

FZ - Recentemente houve um tipo de “invasão”, com quadrinistas brasileiros integrando o mercado norte-americano de quadrinhos. Alguns exemplos são os gêmeos Bá e Moon, Rafael Grampá, e também artistas como Joe Bennet e outros. Eu gostaria de saber se você conhece seus trabalhos e o que você pensa deles (presumindo que você conhece).
BT - Bom, Bá e Moon e agora Grampá são estrelas super talentosas, até onde eu entendo. Choro quando vejo o trabalho deles. Queria ser tão bom. Não tenho familiaridade com o trabalho de mais ninguém especificamente do Brasil.

FZ - Falando sobre o Brasil, você já esteve aqui antes, durante a FIQ!. O que achou? O que chamou sua atenção e quando você volta, cara?
BT - Adorei. Um festival único. Um pouco europeu, outro tanto americano. Muito interessante, isso sem mencionar o país em si. Me diverti muito.
Não faço nem ideia de quando vou voltar. Provavelmente quando convidado! É um caminho longo e uma viagem enorme!

FZ - Quais seus pensamentos a respeito da adaptação de 30 Dias de Noite para a telona? Você mudaria alguma coisa?
BT - Eu achei bom. E isso teve muito a ver com os esforços do diretor, David Slade. Fora isso, eu não pensei sobre essas coisas. Eu não tenho como influenciar o processo e prefiro seguir meu caminho adiante. Não tem nada que eu pudesse fazer “de melhor”, relacionado ao filme. Tive pouco a ver com ele.

FZ – Há mais algum projeto seu sendo dirigido à telona (ou à telinha)? Fora a adaptação para seriado dos livros de 30 Dias de Noite, digo? (A propósito, isso ainda não chegou no Brasil. Vergonha, vergonha.)
BT - Há a possibilidade de algo com “Bem-vindo a Hoxford”, que creio ter uma chance… mas sei pouco mais que isso a respeito desse assunto.

FZ - Você fez algumas parcerias “explosivas” como, por exemplo, com Steve Niles e Warren Ellis. Há algum outro escritor com quem você gostaria de trabalhar?
BT - Nenhum em específico. Na realidade, eu simplesmente gosto de trabalhar com amigos ou em coisas interessantes. Fora isso, prefiro trabalhar sozinho.

FZ - A propósito… super-heróis. Agora nós entendemos em grande parte a atração do gênero: superpoderes são legais, há muito apelo visual, você pode incluir praticamente tudo nas tramas, fantasias de onipotência geralmente vendem porque são agradáveis e, francamente, quem gostaria de ler uma história sobre seu vizinho? Como resultado, temos a maior parte do mercado de quadrinhos voltado para super-heróis. Recentemente, entretanto, têm aparecido títulos e artistas (presente companhia incluída) que romperam esse paradigma de alguma maneira, apresentando histórias que enfocavam outras coisas, não apenas adultos em colantes com as cuecas por cima das calças. Temos 30 Dias de Noite, Walking Dead, Fall of Cthulhu, Unknown Soldier, Crossed, Do Androids Dream of Electric Sheep?, só pra citar os primeiros a pipocar na mente. Gostaria de saber suas ideias a respeito disso. As pessoas estão, finalmente, prontas para outros gêneros?
BT - Não. Não na América (do Norte), pelo menos. Será sempre dominada pelos super-heróis. É simplesmente o jeito que as coisas acontecem. Mas boas histórias sempre terão algum sucesso. E essas são as razões para os projetos que você citou terem alguma popularidade, penso eu.

FZ - Parece que quadrinhos e cinema estão apaixonados, nesses dias. Tem havido um número enorme de adaptações de quadrinhos para a telona. De novo, os primeiros, feitos recentemente, a pipocarem na mente como exemplos: Scott Pilgrim, O Besouro Verde, 30 Dias de Noite, Jonah Hex, sem mencionar os super-heróis Marvel e DC, como Lanterna Verde, Batman, Homem de Ferro, Quarteto Fantástico, Homem-Aranha, e assim por diante... você acha que isso se deve à indústria finalmente ter desenvolvido a tecnologia necessária para tornar essas histórias em “realidade cinematográfica”, já que necessariamente teriam um monte de efeitos especiais, ou há realmente uma demanda maior por fantasia? Se houver, por quê?
BT - É em sua maior parte devido a Holywood querer fazer uns bons dólares através de propriedade intelectual firmada, já que tiveram alguns sucessos com o tema. É o jeito que as coisas são. O dinheiro dirige o mercado. Sim, filmes visualmente maravilhosos podem ser feitos hoje, mas eles custam muito… e o consenso geral é o de que muitos filmes baseados em quadrinhos podem se tornar sucesso. Vamos ver quanto tempo dura essa tendência, na verdade.

FZ - Você trabalha em casa? Qual seu ritmo? Quantas horas por dia você trabalha, normalmente, quantas páginas são feitas durante essas horas, o que exatamente você faz nelas (lápis e/ou pinturas, etc.)? O que você costuma ouvir enquanto trabalha?
BT - No momento não tenho ritmo, e estou meio que correndo atrás da máquina em tudo... acabei de mudar para uma nova cidade, então realmente preciso organizar um novo estúdio o mair rápido possível. Geralmente eu trabalho à noite, até alta madrugada. Se ouço música enquanto trabalho, são frequentemente trilhas de filmes. Pra efeitos de ambientação.

FZ - Tenho 2 desafios de “os dez melhores” pra você: Quais as dez Graphic Novels mais visualmente atraentes, e quais os dez filmes/animações também mais visualmente atraentes? Isso é para o leitor se familiarizar com seu gosto e para efeito de comparação com sua produção.
BT - Eu não consigo fazer o jogo de “os dez melhores”… mal consigo pensar em dez de qualquer coisa por esses dias. Digo mais, isso é muito subjetivo e eu iria mudar de ideia constantemente. Mas Asilo Arkham, Palestina (de Joe Sacco) e 300 estariam lá em cima na lista.
Filmes... bom, Aliens, A Coisa, talvez Dark City. Muito visuais. De estilo um tanto tradicional, vistos agora, talvez. Mas eles funcionam.

FZ - Recentemente, em um blog brasileiro (VertigemHQ) que traduz e divulga seu trabalho, Wormwood, você fez um comentário que gerou uma enorme discussão. O que eu gostaria de perguntar é: o que você pensa dos scans? Eles ajudam a divulgar o trabalho ou são prejudiciais? Nesse caso específico, seus fãs brasileiros foram capazes de conhecer um de seus trabalhos que provavelmente não seria publicado aqui em muito tempo ainda. (Uma informação: o blog publicou seu PayPal para que os fãs pudessem contribuir com o trabalho do autor de que gosta, e argumenta que o objetivo seria a divulgação, em vez de meramente roubar os trabalhos.)
BT - Ah, isso foi um tempinho atrás... você quer dizer onde as pessoas roubam/pirateiam o trabalho, essencialmente (porque é isso o que é, e eu mesmo já baixei alguns filmes!)? Bom, a respeito de meu trabalho, as pessoas que fazem isso virtualmente garantem que meu trabalho não chegará nunca ao Brasil. Se havia pouca demanda por ele antes, certamente não haverá nenhuma se esse trabalho já está todo traduzido e baixado de qualquer maneira. Sou um peixe pequeno, só faço dinheiro através das vendas de meus quadrinhos, eu não sou pago pra fazer Wormwood. Então, é um pouco triste. E nunca vi nenhuma doação por PayPal, embora tenha sido uma cortesia legal, depois que eu pedi. Não há isso de “propagar a palavra”, “divulgar o trabalho”, entretanto. Ainda é basicamente roubar um artista que não vai ver nenhum benefício por seu trabalho duro. Eu posso compreender, claro, e também sou um hipócrita até certo grau, mas é assim que vejo o assunto.

FZ - Finalmente, alguma mensagem pra seus fãs no Brasil?
BT - Bem... olá! Obrigado até por saberem quem sou! Por favor comprem meus livros, se sabem ler em Inglês, ou peçam a editoras brasileiras que os publiquem... é o melhor jeito e me permite pagar meu aluguel. O que é uma coisa ótima de se fazer de vez em quando.
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Re: TEXTOS REVISADOS DA EDIÇÃO # 21

Mensagem por Kio em Ter Mar 15, 2011 9:31 am

Entrevista - Lu Cafaggi

FARRAZINE – Luciana, conte-nos um pouco sobre você... De onde você é e como surgiu o carinho pelos quadrinhos?
Luciana Cafaggi - Nasci aqui mesmo, em Belo Horizonte (Minas), onde moro. Aprendi a ler através dos quadrinhos que meus irmãos mais velhos, o Vitor (entrevistado na edição nº 16) e o Enzo, colecionavam e me emprestavam (na verdade, muitas vezes, eu pegava escondido). Eu tinha uns 4 ou 5 anos e passava dias inteiros lendo e relendo gibis da Turma da Mônica e do Urtigão. E eram muitos e muitos gibis. Quando eu digo 'relendo' eu quero dizer que eu relia tantas vezes, a ponto de só pela capa do gibi saber dizer quais eram as histórias que tinham nele. Até a tirinha do final e os passatempos eu sabia quais eram. Era a coisa que mais fazia na vida.

FC - Quantos irmãos são na sua família? Todos gostam de quadrinhos? Vocês brigavam muito de pequenos? (risos)
LC - Somos três irmãos e todos nós gostamos muito de quadrinhos. O Vitor é mais velho que eu. Dez anos de diferença, mas nem parece. A gente se dá muito bem, ele é meu melhor amigo. A gente "brigava" um bocado, mas eram sempre briguinhas bem bobas que não duravam nem uns cinco minutos. Quando era mais nova, a diferença de idade pesava mais. Aí era mais fácil ele se irritar comigo e eu com ele. O meu primeiro "contato" com quadrinhos, na verdade, já foi um bom motivo para ele se irritar comigo. Eu tinha uns dois anos e fiz xixi em umas Amazing Spider-Man que ele tinha deixado no chão do quarto.

FC - É verdade que o Vitor se inspirou em você para criar a Mary Jane Watson criança, na tirinha do Puny Parker?
LC - Não. Eu adoraria dizer que sim, mas não é verdade. A gente brinca com isso porque, no ano passado, pintei meu cabelo de vermelho por uns tempos. Isso aconteceu bem na época que teve o FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), aqui em BH. Nesse FIQ, conhecemos o Gustavo Duarte (somos fãs dele!) e o Gustavo é que brincou, dizendo que eu era a Pequena MJ, porque tinha o cabelo vermelho e sou bem baixinha e tudo o mais. Depois disso, eu até comecei a reparar melhor que a Pequena MJ e eu temos muitas características em comum. Mas meu cabelo já nem está vermelho mais. Ele se inspirou foi na própria Mary Jane mesmo.

FC - Sua tirinha Los Pantozelos (http://lospantozelos.blogspot.com/) é apaixonante e a personagem principal é superquerida. Todo esse sentimento faz a gente pensar que a protagonista é alguém que conhecemos pessoalmente (no meu caso, como exceção, quando olho para ela sempre lembro da Francine, de Strangers in Paradise, não sei por quê... E eu adoro a Francine!). Como foi a ideia de criar as tirinhas? É certo que o nome Los Pantozelos veio do fato de uma de suas professoras ter as pernas tão rechonchudas, que não era fácil saber onde terminava a panturrilha e começava o tornozelo, e daí veio o apelido de pantozelo? A sua professora conhece essa história? (risos)
LC - Puxa, maior honra do universo! Eu sou maluca por Estranhos no Paraíso! Adoro a Francine! Nunca tinha pensado nas minhas tiras dessa forma.
A história da professora de pernas rechonchudas é verdadeira, sim, (risos). Nunca mais encontrei essa professora para contar isso a ela. Na verdade, quando comecei a criar os personagens para a tira, nem me lembrava mais de ter inventado a palavra "pantozelos", não me lembrava das pernas dela, nem nada. Foi tudo coincidência: no dia em que comecei a esboçar a primeira tira, eu estava remexendo nuns cadernos de escola e encontrei, no meio desses rabiscos de última página, um rabisco de um par de pantozelos. Ao lado do rabisco estava escrito "são pantozelos ou tornurrilhas?", que seriam as duas formas de misturar tornozelos com panturrilhas, né? Foi aí que me voltou tudo à cabeça e decidi chamar a tira de "Los Pantozelos", porque já tinha definido que queria a personagem principal com pernas gordinhas.
Uma coisa engraçada é que não consigo me lembrar de onde vieram os dois personagens: a Cá e o Maricas. Guardo os primeiros rascunhos dos dois e tudo, mas não sei de onde a minha cabeça tirou esses dois. Não sei de onde me veio o nome “Maricas”, por exemplo. Eu sei que o nome da Cá, que nunca disse qual é nas tiras, mas é Carisma, veio porque é um anagrama com Maricas. Mas isso nunca foi uma coisa que parei para pensar e para embaralhar as letras do nome. Veio tudo do nada. E não lembro como foi que inventei a cara dos dois. Eles simplesmente apareceram no papel. Eu preciso inventar uma história melhor para quando me perguntarem como foi que criei a tira, porque essa história verdadeira é muito louca e até me assusta um pouco.

FC - Existe algum projeto para que a tirinha saia impressa em jornal ou livro? Você pode comentar algum projeto futuro pra gente? Alguma coisa em conjunto com seu irmão está prevista?
LC - Nunca pensei em publicar Pantozelos em meio impresso. Mas, quem sabe? Eu criei a tira apenas com a intenção de publicá-la no blog, semanalmente, para me "condicionar a desenhar sempre", como meu irmão diz. Mas ainda sou muito indisciplinada e não foi bem assim que tudo funcionou.
Meu projeto futuro chama-se "An Olive Song". É uma história (mais ou menos longa) que mostra uma jovem professora de piano revirando suas lembranças mais antigas, para recuperar a força que precisa para se reencontrar e seguir com a vida e com seus projetos. É uma história sobre criações artísticas e sobre o que chamo de "fantasmas da solidão". Tenho uma outra ideia também no papel, mas essa eu não contei nem para o meu irmão ainda, é a coisa mais secreta do mundo.

FC - Quais são seus autores prediletos hoje? E o que você anda lendo ultimamente?
LC - Acho que os meus preferidos são os mesmos preferidos de todo mundo. Charles Schulz, Bill Watterson, Jeff Smith, Terry Moore, Daniel Clowes e Vitor Cafaggi (risos).
Eu acabei de encomendar "Koko, Be Goog", da Jen Wang, e estou ansiosa para ler. Não dá para citar a Jen como minha autora de quadrinhos preferida ainda, porque ainda não li a história, mas ela é uma das minhas desenhistas preferidas.
Tem uma gibiteca superlegal aqui em Belo Horizonte. Pouca gente conhece, pouquíssima gente frequenta, o que é uma pena. Chama-se Gibiteca Gobbo. Eu mesma fiquei conhecendo o lugar só há uns poucos meses e ela já existe há dezoito anos! O que tenho lido, recentemente, é o que encontro por lá. Eles têm uma bela coleção de quadrinhos franceses, uns álbuns com artes tão lindas que dá vontade de comer! Da última vez que fui lá, li "La Fille Du Professeur", de Joann Sfar e Emmanuel Guibert.

FC - Você é uma das fundadoras do blog Lady's Comics (http://ladyscomics.com/), um projeto bacana mostrando o lado feminino da Banda Desenhada... Já rolou briga com algum namorado para você ler o gibi dele? (risos) Brincadeira, mas realmente a presença feminina nos quadrinhos sempre foi menor e isso vem mudando bastante (Ainda bem!)... A que você atribui essa mudança? Eu acho que o sonho de todo nerd é poder discutir com a namorada o psicodelismo da Saga dos Metabarões de Jodorowsky-Gimenez ou na dúvida de quem merece vencer o embate entre Light Yagami ou "L" Lawliet em Death Note (risos).
LC - Nunca namorei um cara que fosse realmente fã de quadrinhos. Eu é que emprestava meus quadrinhos (e os quadrinhos do meu irmão) para eles. Lembro de ter emprestado Bone para um deles e ele gostou bastante. Meus presentes de aniversário de namoro eram todos quadrinhos. Uma vez, dei Spider-Man Blue completa, outra vez, eu mesma fiz uma história em quadrinhos para dar de presente. Até que eu não era uma namorada ruim, (risos). Gosto de ver que alguns dos meus ex-namorados, mesmo nunca tendo sido fãs de quadrinhos, agora acompanham meu trabalho e até me cobram para atualizar o blog e tudo. Onde já se viu cobrar coisa da menina depois do namoro terminar? Isso é um abuso! (risos) Ok, chega de falar de namorado, Luciana.
As meninas do Lady's e eu criamos o blog justamente com a intenção de tentar descobrir de onde veio essa mudança que você mencionou. A Mariamma, que foi quem teve a ideia de criar o Lady's Comics, estuda muito sobre a história da presença feminina nos quadrinhos e sempre encontra uns momentos muitos curiosos nessa história. Esses momentos nos mostram como a mulher sempre esteve presente, de alguma forma, seja como personagem, autora ou leitora de quadrinhos. A Samanta, que escreve, principalmente, sobre quadrinhos japoneses para o blog, acredita que mais meninas passaram a ler quadrinhos desde que encontraram as personagens femininas dos mangás, com as quais se identificaram emocionalmente. A sensação que temos, até agora, é de que sempre existiram mulheres lendo quadrinhos, mas que essas mulheres leem apenas para elas mesmas. Os homens gostam de ler, comentar, discutir e trocar opiniões com os amigos. A leitura das mulheres parece ser uma atividade mais introspectiva, mesmo porque, uma grande parte das histórias que envolvem mulheres como protagonistas são histórias que dão mais atenção ao desenvolvimento da personalidade da personagem, aos seus relacionamentos e afetos, e não à sequência de acontecimentos da história em si.

FC - Que tipo de filmes você gosta de ver? Algum que você destaque?
LC - Eu vejo muitos filmes, de todos os tipos. Vejo pelo menos uns dois ou três filmes, por semana. Acho difícil dizer que tipo de filme eu gosto. Eu gosto muito de "Encontros e Desencontros" e "As Virgens Suicidas", da Sofia Coppola, por exemplo. Mas "À Prova de Morte", do Tarantino, e que é tão diferente dos outros dois que citei, foi o meu favorito de todos os filmes que vi no ano passado. Outros que estão na minha lista de favoritos são "Cría Cuervos", "Hora de Voltar", "Taxi Driver", os filmes do Rocky, "Conta Comigo", "Quase Famosos", "Clube da Luta", "O Bebê de Rosemary", "Wall-E" e "Onde Vivem os Monstros". E eu gosto de ver todos os filmes com a Audrey Hepburn, porque ela é a coisa mais sensacional de todos os tempos.

FC - E música? O que você mais curte?
LC - Nossa, gosto de um monte de coisas. Nick Drake, Nina Simone, Madredeus, Iron and Wine, Jeff Buckley, Tegan and Sara, Suzanne Vega, Sixpence None The Richer... Gosto muito de música flamenca também.
Tem uma banda que conheci, mais ou menos recentemente, chamada Mumford and Sons. Gosto muito da "Little Lion Man", que é deles. Se a ouço enquanto desenho, eu desenho incrivelmente mais rápido.

FC - Bom, Luciana, um abraço forte do FARRAZINE e valeu mesmo pela presença aqui na revista!
LC - Um abração forte para vocês também! Obrigada por tudo!
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Re: TEXTOS REVISADOS DA EDIÇÃO # 21

Mensagem por Kio em Ter Mar 15, 2011 9:32 am

Gustavo Duarte bate um bolão

Os leitores do jornal esportivo Lance! conhecem bem o traço elegante e preciso de Gustavo Duarte em suas charges e caricaturas. Mas, depois de CÓ! (ganhador de dois prêmios no HQMix do ano passado) e de TÁXI, ficou evidente seu talento para criar histórias em quadrinhos.

Por telefone, Gustavo revelou um pouco mais dessas produções independentes, sua trajetória, seu trabalho e como chegou até aqui.

Desenho Animado.

Os quadrinhos de Gustavo Duarte me remetem (e bastante) a desenhos animados, como as histórias clássicas da Pantera Cor-de-Rosa. Ele não negou a influência, e explicou que o tema dos episódios eram improvisados de acordo com o andamento da história.

CÓ! é sobre uma estranha experiência ufológica vivida por um fazendeiro isolado, cujo pior resultado não é ser transformado em um porco, mas sim uma infestação incontrolável de galinhas.

TAXI segue uma linha igualmente delirante, mas parte de uma situação – aparentemente - mais banal. Um músico prestes a se apresentar com sua banda esquece de algo essencial para sua apresentação. A presença de figuras famosas do jazz circulando em ambientes “domésticos” chama a atenção para o talento de caricaturista de Gustavo.

Ambas as histórias são “mudas”, quadrinhos sem balões ou diálogos entre os personagens. A leitura em silêncio produz um “som”, uma "música" à história e libera o cérebro do leitor de decifrar onomatopéias.


A melodia não é inspirada apenas pelo formato de EP da revista. O tema, os personagens, os diferentes ambientes e os rumos inesperados da história sugerem a improvisação e a liberdade do jazz com direito às presenças de Dr.Lonnie Smith, Ron Carter, Winton Marsalis e Harry Connick Jr. Destes, talvez os dois últimos sejam mais facilmente identificáveis para quem não é conhecedor. Alguns anos atrás, a TV Cultura transmitiu uma série em episódios voltados para o público juvenil, nos quais Marsalis apresentava a história do jazz e a estrutura básica de uma orquestra. Harry Connick Jr também é ator e já atuou em vários filmes, como por exemplo, Independence Day, Menphis Belle, e até na animação The Iron Giant. Dr. Lonnie Smith é um organista com mais de cinquenta anos de carreira (http://www.drlonniesmith.com/) e Ron Carter, um contrabaixista aclamado, que já tocou com grandes feras, como o famoso Miles Davis.


Influências

A música foi uma influência óbvia em TAXI. Gustavo já esteve em shows dos artistas representados em sua história e, inclusive, chegou a conversar com Dr. Lonnie Smith. O jazz e a narrativa sem diálogos mais uma vez me remeteram ao desenho animado da Pantera Cor-de-Rosa. Gustavo reconheceu a influência, revelando como eram improvisadas as trilhas, a partir do tema da Pantera de Henry Mancini e da exibição do episódio diante dos músicos.

Os traços longos e ondulados das caricaturas de Gustavo me fizeram lembrar o grande Loredano (http://veja.abril.com.br/161002/p_138.html ou melhor ainda http://issuu.com/cmvfx/docs/catalogo_loredano_2010_nnn). Mas além de Loredano, Gustavo também admira e admite a influência do norte-americano Al Hierchfeld (1903-2003 http://www.alhirschfeld.com/index2.html), ilustrador e caricaturista da New York Times.

Nos quadrinhos, ainda há Bill Waterson (Calvin) e do principal responsável pela escolha da carreira: Charles Schultz. Gustavo sempre ficou impressionado como estes autores conseguem dar vida aos personagens. Ele se lembra de, aos seis anos de idade, ter assistido a um documentário na TV Manchete sobre o criador de Charlie Brown, Snoopy e cia. Ao final do programa, disse “Taí, eu quero fazer isto quando crescer.” Ziraldo e Laerte foram mencionados entre os artistas nacionais, Goscinny e Quino, de fora dos EUA.

Futebol

Ao visitar seu blog (http://mangabastudios.blog.uol.com.br/) fica evidente um apuro visual em design gráfico, principalmente ao se observar seus flyers, convites, pôsteres de shows e outros lançamentos. Tudo muito limpo, claro, despoluído e com combinações incomuns de cores. Gustavo estudou design gráfico na Unesp em Bauru e começou muito bem, sendo um dos selecionados do disputado Curso Abril (http://cursoabril.abril.com.br/oqueecurso/oquecurso.shtml).

O Curso abriu muitas portas neste sentido e ajudou a criar uma rede de contatos que o auxiliou nos primeiros anos, mas que também o levou a algumas arapucas. Ele foi empregado em um dos primeiros sites gratuitos do Brasil (“Foi e continua sendo meu melhor salário”, lembra-se.) mas que faliu e, com isso, lá se foi o sonho de iates, mulheres, mansões, mulheres, carros...

Felizmente, Gustavo conseguiu se recolocar. Sem dúvida, o fato de gostar de futebol ajuda bastante no trabalho do Lance! “Penso que a maioria dos cartunistas não gosta de futebol. Além de mim mesmo, conheço apenas o Batistão (http://baptistao.zip.net/), o Mário Alberto (http://marioalbertoblog.blogspot.com/) e o Loredano”.

Entretanto, apesar da paixão pelo bom futebol, Gustavo gosta cada vez menos dos caminhos para os quais o esporte anda sendo conduzido. “O futebol é a coisa mais importante, dentre as menos importantes. O futebol tem que se levar menos a sério, ele anda muito chato... patético... Parece que há um espírito mau que deseja afastar tudo que há de bonito, de lúdico desse esporte”, afirma.


“O campeonato brasileiro de 2010 foi decepcionante. Apesar de eu ser são-paulino, preferia assistir aos jogos do Santos”, afirma, e vai além: "O estrelismo, as somas absurdas envolvidas, a falta de raça e vontade dos jogadores, as pressões da mídia e patrocinadores, tudo parece contribuir para um desencanto com o esporte. Por isso, ultimamente venho preferindo assistir ao basquete", desabafa.
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Re: TEXTOS REVISADOS DA EDIÇÃO # 21

Mensagem por Kio em Ter Mar 15, 2011 9:32 am

O efeito dominó em ação!
Sobre abolição, origens e em nome da planta...

FAVELAS


Embora a definição correta em qualquer dicionário ou enciclopédia seja ‘‘área degradada de uma determinada cidade caracterizada por moradias precárias e blábláblá etc. e tal...’’ todos sabemos que a força e importância das chamadas ‘‘favelas’’ é muito mais do que isso.

Desde que começou o ‘‘boom’’ do funk carioca e do lançamento do filme ‘‘Cidade de Deus’’, esta palavra nunca tinha sido tão falada, modernizada, industrializada e sendo ainda mais direto... Nunca havia estado tanto na mídia como nos últimos anos!

Tivemos a série ‘‘Cidade dos Homens’’, o filme ‘‘Tropa de Elite’’ e ‘‘5x Favela - Agora Por Nós Mesmos’’ entre outros longas-metragens, seriados, programas de televisão, camisetas, documentários e várias outras coisas. Todos eles abordam o assunto sobre a mesma perspectiva, algo que não acho necessário comentar aqui porque vocês já sabem o que quero dizer.

Em suma, deturpando uma frase do Humberto Gessinger, hoje em dia, a Favela é Pop! E vocês, leitores curiosos, sabiam que esse pop veio da planta?

Parem de pensar besteira, porque nããão... Eu não estou falando da diversão nº 1 de Bob Marley, Gabeira e Marcelo D2! Tampouco é uma mensagem subliminar sobre os pontos de venda dessa erva.

Humpf!

Realmente há uma planta chamada Favela - Cnidoscolus phyllancatus - que produz óleo comestível e combustível. Ela é bem comum no norte do Brasil e quase nunca comentada nos outros lados. Pois esta plantinha, tão sã e bacaninha, deu nome a umas das representações habitacionais mais conhecidas no mundo.

Na verdade a evolução desse nome, até chegar ao significado que conhecemos hoje, envolve uma série alucinante de eventos que desencadeiam no Rio de Janeiro do século XIX. E dela participaram figuras históricas!

Acreditem, é uma história incrível! E como todas as histórias incríveis, começa por causa de uma garota.

Bom, não era bem uma garota e sim, uma mulher!

Reparem: Todos os grandes acontecimentos interessantes têm alguma mulher como protagonista ou antagonista, como por exemplo: Evita Perón e a paixão que criou na Argentina; a misteriosa, sensual e exótica Mata-Hari na primeira guerra mundial; ou ainda, a impactante voz de Janis Joplin na revolução musical dos EUA nos anos 60 e 70, e convenhamos, o relato bíblico sobre a criação fica bem mais interessante quando conhecemos a Eva.

A mulher que estamos falando, responsável indireta (ou direta?) na origem da estória das favelas se chama Brasilina Laurentina de Lima.

Ok, eu concordo que o nome não tem tanto glamour como Eva, Janis ou Mata-Hari, mas o peso histórico e importância são os mesmos, posso garantir...

Em 1857, Brasilina, ou Lina para os amigos, se casa com um primo estabelecendo sua vida em Sobral, no Ceará. Logo são obrigados a mudar-se de cidade em cidade chegando, finalmente, a Ipu onde a vida matrimonial sofreria mudanças radicais, no caso de um deles. E é depois de alguns anos, ainda nessa cidade, que o marido de dona Brasilina flagra ela na cama de sua casa, em plena traição conjugal, com um sargento da Polícia de Ipu.

O esposo de Lina, transtornado com a situação, decide tomar a atitude mais rebelde que alguém poderia ter, estando em seu lugar!
Não amigos. Ele não decidiu matá-la, ou suicidar-se, ou acabar com a raça daquele sargentinho sem-vergonha! O que ele fez foi muito mais hardcore e underground!

Ele... andou!

Sim! No melhor estilo hippie, ele pegou uma trouxa e saiu caminhando pelo sertão para esquecer a humilhação sofrida em seu casamento. Logo começa a inventar milagres e dar conselhos ao povo que precisava de ajuda. Com o tempo, ele passou a ter mais e mais seguidores, sem twitter nem nada, só protegendo os oprimidos pela pobreza e cuidando dos ex-escravos libertos pela abolição que não tinham nenhum meio de subsistir. O cara, simplesmente, era o messias do Agreste!

Para os modelos atuais, como forma de comparação, podemos dizer que ele virou uma mistura de Forrest Gump, Jesus Cristo e Lula para o povo. Vocês imaginam o que seria capaz de fazer uma figura assim? Se vocês não imaginam, eu digo:

A GUERRA DOS CANUDOS!

Sim senhore(a)s! Este cidadão, ex-marido de dona Lina, corno manso por opção e revolucionário por natureza se chamava ANTÔNIO CONSELHEIRO!

A histórica Guerra dos Canudos deixou várias vítimas, tendo como umas das mais conhecidas o famoso coronel Moreira César. A força da trupe de Conselheiro era tão grande que matou Moreira e, no mesmo dia, assassinou a pessoa que o substituiu no cargo. Com a morte dos dois coronéis, as tropas do governo ficaram abaladas e retrocederam produzindo uma repercussão incrível sua derrota.
O ministro de guerra da época preparou uma expedição superpoderosa, que sairia com soldados do Rio de Janeiro a Canudos armados com a melhor tecnológica bélica daquele período e muito ‘‘sangue nos olhos’’, na gíria de hoje em dia. Depois de alguns anos, Antônio foi derrotado e morto e os soldados cariocas que sobreviveram puderam voltar aos seus lares com a vitória.

A volta ao lar teria sido um bonito tempo de paz se o governo não tivesse lhes pregado uma peça! E foi que depois que acabou a guerra e a situação civil estava controlada, o governo deixou de pagar o salário daqueles que foram seus heróis.

Sem dinheiro para poder manter o mesmo nível de vida de antes e vendo que ninguém tomava nenhuma providência, os soldados decidiram, por eles mesmos, tomar a providência. E fizeram isso literalmente.
Esses soldados invadiram um morro, o da Providência, e passaram a fazer suas casas com as condições que o dinheiro que sobrava lhes permitia. Daí foi uma ajudinha de alguns ex-escravos aqui (que acabaram adotando morada lá também), outra mãozinha de desabrigados acolá e pronto; só faltava definir o nome do lugar por algo mais pop que Providência. Porque apesar de chamar-se assim antes, não deixava de ser uma anedota do destino com relação a nome-situação e isso não era fashion.
Na verdade, a mudança na nomenclatura do novo lar dos soldados veio naturalmente. O morro da Providência era muito parecido ao morro que eles tinham ficado na Guerra dos Canudos. E aquele morro se chamava favela pela abundância dessa planta nele. Tudo veio com uma simplicidade singela tipo:

 Bom dia, ex-soldado fulano! Por onde tens andado?
 Bom dia, amigo ex-soldado! Estou morando ali no Providência, na favela, lembra?

Mudança sutil não é? Até hoje o morro da Providência se chama Providência no Rio de Janeiro. E o nome Favela virou sinônimo de moradia precária até pouco tempo... Depois vocês já sabem, Michael Jackson veio fazer clip, Edward Norton foi morar em uma como Bruce Banner e o Capitão Nascimento virou super-herói nacional correndo por elas com fuzil na mão.

E como eu tinha falado antes, tudo começou com a dona Brasilina...
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Re: TEXTOS REVISADOS DA EDIÇÃO # 21

Mensagem por Kio em Qui Mar 17, 2011 2:12 pm

RESENHA METALLICA - MASTER OF PUPPETS
COMBINANDO MELODIA COM AGRESSIVIDADE


Existem álbuns que permanecem atuais, mesmo com o passar dos anos, pois são donos de uma sonoridade autêntica e inovadora, e independente dos modismos musicais que a mídia nos impõe, esses clássicos sempre serão lembrados e respeitados. Esse é o caso de “Master of Puppets”.
Lançado em 1986, Master é o terceiro álbum de estúdio do Metallica, banda que hoje é mundialmente conhecida, mas na época ainda estava galgando um lugar na cena metal composta por muitas bandas de Hair/Glam Metal, com um som mais comercial, sendo que suas músicas e videoclipes eram exibidos de forma exaustiva nas rádios e TVs. Enfim, para uma banda de Thrash Metal a vida era bem mais complicada. Mesmo assim, possuíam um grande numero de fãs da cena underground, devido a seus trabalhos anteriores, os excelentes (Kill ‘Em All e Ride the Lightning).
A banda era composta por James Hetfield (vocal/guitarra), Lars Ulrich (bateria), Kirk Hammett (guitarra solo) e Cliff Burton (baixo). Esse último, morto num trágico acidente de ônibus quando o Metallica iria se apresentar na Dinamarca, meses depois de terem lançado o álbum em questão. Uma grande perda não só para a banda, mas para o mundo do Metal em si, que sempre se lembrará de Burton pelo seu talento e genialidade.
Ao ouvir Master, logo se percebe que sua sonoridade está mais melódica do que seus antecessores, mas sem perder a intensidade e ferocidade de seus riffs intrincados, em conjunto com o baixo e bateria - que estão pra lá de precisos - e com o vocal grave, porém limpo e potente de Hetfield, formando uma combinação matadora que se pode ouvir do começo ao fim do disco. Dentre os destaques, estão as faixas de abertura Battery e Master of Puppets, que contam com refrões fortes e marcantes, além de solos rápidos e bem harmonizados. As faixas The Thing That Shoul Not Be e Leper Messiah possuem uma levada mais arrastada, enquanto que Welcome Home (Sanitarium) e Orion (Instrumental) são mais cadenciadas e trabalhadas. Disposable Heroes é um petardo, contando com solos rápidos e agressivos, podendo se dizer o mesmo de Damage Inc., que fecha com chave de ouro esse clássico do Metal. As letras são bem compostas e tratam de vários temas como violência, submissão, insanidade e capitalismo associado à religião.
O álbum ficou na modesta 29ª posição na Billboard, mas com o tempo vendeu, só nos EUA, mais de seis milhões de cópias. Por tudo isso, Master é considerado por muitos fãs o melhor álbum do Metallica e deixa como legado a certeza de que se pode combinar melodia com agressividade, quando se tem técnica e competência. Enfim, uma obra prima e item indispensável pra quem curte o gênero Heavy/Thrash.

Fernando Schittini
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Re: TEXTOS REVISADOS DA EDIÇÃO # 21

Mensagem por Kio em Qui Mar 17, 2011 2:12 pm

Uma edição, uma editora
Autor: Rafael Martins Páros


Quadrinho é Arte, Cultura e também História. E estou dizendo Quadrinhos, não enquanto este ou aquele universo fictício, mas enquanto indústria e forma de expressão, possuem sua própria História, com linhas do tempo, fatos de interesse, reviravoltas, personas e também peças raras que simbolizam uma era. Volta e meia eu me deparo com preciosidades nos sebos e nas grandes livrarias, em geral são revistas cujo conteúdo descreve um fato na cronologia de determinado herói ou universo que é mór para seu entendimento ou para que alguém possa se considerar um fã de quadrinhos hardcore. Ou então, são novidades eleitas como revolucionárias para o meio, enquanto lê-las te deixa mais próximo de concluir o segundo motivo descrito no parágrafo anterior.
Todavia, às vezes, eu me deparo com coisas como essa da qual vou falar agora. Meu truta Ronaldo Ruiz, cartunista e arqueólogo dos quadrinhos, assim como eu, me emprestou recentemente o primeiro número de Youngblood de Rob Liefeld, que ele adquirira num sebo. É nota que o primeiro volume de absolutamente qualquer herói é considerado uma raridade, mas este era diferente, pois não era somente isso que o tornava uma HQ antológica.
A Image Comics surgiu em 1992, devido a uma coligação de desenhistas e roteiristas insatisfeitos com os tratos que tinham na Marvel Comics. Eles decidiram fundar uma empresa onde não só teriam uma autonomia mais ampla sobre os personagens (sobretudo nos lucros advindos deles), como também poderiam levar os Quadrinhos como um todo para uma nova direção. Direção esta que eles consideravam o verdadeiro potencial dos Quadrinhos junto ao público. Os heróis criados foram então somados e nasceu o Universo Image que, por muito tempo, disputou popularidade quase que diretamente com a antiga editora dos criadores.
Isso tudo é fato conhecido, incluindo o fato de que o Universo/Editora Image apostava num perfil literalmente arquetípico para construir seus personagens e histórias. Equipes superpoderosas com uniforme de collant, gengivas aparecendo em rostos contorcidos de pura tensão, garotas de seios em forma de pingo e lábios enormes, bíceps maiores que cabeças, mãos sempre fechadas prontas pro combate, etc. A fama crescente da firma se deveu em grande parte ao personagem Spawn de McFarlane e aos grandes desenhos de Jim Lee, enquanto o reboco ficou por conta de Rob Liefeld, considerado o Dom Quixote dos Quadrinhos.
E é de Rob Liefeld que eu quero falar. Acredito que somente Alan Moore entendeu como funcionava a cabeça deste que é um dos roteristas/desenhistas mais demonizados da Indústria. O pensamento Liefeldiano sobre quadrinhos pode ser tosco e reducionista, mas há nele uma inocência na sua tentativa de “ser sério” que me remete ao próprio impulso original, que leva qualquer rapaz a querer desenhar seus próprios quadrinhos. Nisso, Liefeld é icônico.
Para ilustrar meu ponto de vista, convido vocês a viajarem comigo pela páginas de Youngblood #1, numa análise rápida, porém significativa.
Logo ao pegar a revista já se percebe o padrão Image (como também o padrão de qualquer edição número 1), com os heróis em pose de ação, tão juntos que uma só granada poderia matá-los todos. A revista tem basicamente duas histórias, uma dos heróis e outra do vilão. A primeira página já mostra um presidente dos Estados Unidos preocupadíssimo com a situação da fronteira com o Kuweit (Liefeld tentando contextualizar seus irreais heróis na atualidade americana) e enviando uma equipe Youngblood para o local imediatamente.
Segunda página: splashpage. Vocês verão muitas delas ao longo de edição. Trata-se da primeira equipe Youngblood, diferente da que está na capa, liderada pelo Coronel Battlestone. Para evitar processos, Liefeld chama o ditador do Kuweit de Kussain. Em seguida, os membros são apresentados um a um por um narrador invisível que acrescenta uma observação característica a cada um.

Eis um dos quadrinhos mais feios que já vi. Um close do rosto de Battlestone onde qualquer amador percebe a linha dos olhos e o nariz tortíssimo.

Depois de derrotarem as forças de boas vindas de Kussain, Stone e seus operativos têm uma discussão em estreitos e claustrofóbicos quadrinhos, onde não dá pra se ter nenhuma noção do cenário onde eles estão. Dois dos membros debandam e acabam vitimas de uma armadilha. Stone é considerado culpado e derruba com um soco e muitas linhas de ação um membro que o acusa, matando-o.
Virando a folha, se encontra uma splashpage até de qualidade muito boa, boa até demais. Tão boa que você se pergunta se Liefeld desenha mal porque quer. Com um Stone com chamas de fúria nos olhos e sendo atacado por Invictus. Vira-se a página e volta-se a arte tosca normal, mas dessa vez os quadrinhos estão mais confortáveis e espaçosos. Pode-se ver afinal o cenário.
Stone é rendido por Invictus e Capela e levado a prisão. Outra splashpage (É, outra). Stone está acorrentado. O julgamento é retratado em página dupla lido de pé. Stone, que até então exibiu um comportamento totalmente egoísta, assume uma feição demoníaca com pele branca e olhos vermelhos, e critica o exército americano por manipular vidas e querer serem deuses. E ainda jura vingança no final.
Catorze meses depois, surge Shaft, para liderar a nova unidade Youngblood, com pernas de coxas inchadas de tão musculosas, um tanquinho de abdômen, com mil saliências e nenhum sovaco. Depois: splashpage de pé. Os membros do grupo são apresentados, todos com cara de mau e mãos fechadas. Mesma coisa: dizem os nomes e observações pertinentes. Tem um lá que, segundo consta, tem força nível oito. Seja lá o que isso queira dizer no universo Liefeldiano. Muito provavelmente é para que a coisa toda pareça um enorme vídeogame ou então que vire um vídeogame mais tarde...
Vem um fotógrafo e a história encerra com o time em pose de capa. Fim. Alguém mais percebeu algo errado?
O pior vem agora. Quase oitenta por cento da revista está dedicada a segunda história, sobre o time do mal Brigada, liderados por.... Stone. Sim, a história do vilão fala do vilão e a história dos heróis TAMBÉM fala do vilão. De qualquer modo, a segunda história é o maior festival de frases de efeito já vistas numa revista. Todos os personagens têm uma fala pronta e um comentário capcioso para dizer enquanto estão em plena luta ou movimento. Discursos enormes sem nenhum gaguejo ou lapsos.
O time de Stone, formado por desconhecidos que o narrador não quis apresentar com suas legendas resumidas, ataca a casa de um líder da Yakuza, chamado Soroyama.

Uma amostra dos chavões e das frases de efeito despropositadas da história.
“Entenderam?” “Eu não, mas acho que eles sim”... acho que nem eles....

Logo um bando de ninjas ataca, mas isso não faz os protagonistas calarem a boca. O combate é tão rápido que não dura nem um quadrinho. Na verdade, não se mostra os ninjas sendo derrotados. Eles simplesmente somem e sugere-se que foram rechaçados. Eis que surge depois, um oponente de calibre, igualmente espertinho nas frases, o Guerreiro (Liefeld devia ter se orgulhado muito desse nome minimalista. “Vai se chamar... Guerreiro. Isso diz tudo!”). Os caras lutam, blábláblá, o Guerreiro é fodão, blábláblá, frases de filme de ação (“Vire-se Gaijin e encare sua morte.” “Ah, eu vou virar sim, mas para fazer ISTO!!! E se por acaso não gostar... sugiro que vá reclamar com alguém que se importe” - isso enquanto dava uma cambalhota, veja bem.). O Guerreiro é derrotado levando, subitamente, um pilar de mármore na cabeça. A protagonista das lâminas e do capacete esquisito mata o mafioso. Battlestone quer que o corpo de Soroyama fique exposto para que todos saibam quem fez isso e, assim, eles ganharem notoriedade... embora isso seja contra tudo o que ele ensinou (WTF? Só de ver a performance de Stone na história passada, fico pensando o que foi que ele “ensinou” aos seus mercenários. Honrar pai e mãe?).
Página seguinte, Stone volta a América e é contatado por um cara com uma proposta de sucesso e ganho ou fracasso e perda. Stone dá uma de durão de princípio, mas depois aceita. Trata-se de roubar uma pedra mística que Hitler queria (é isso ai, o velho truque de mencionar o nome de Hitler para todos saberem que é coisa séria). A joia está escondida numa base do exército americano, invadida por Stone e sua turminha em meia página. Em uma página e meia eles são atacados pelos novos Youngblood, que não sei o que estavam fazendo passeando nos tubos de ventilação. Splashpage. Eles brigam. Ações simultâneas. Frases de efeito. Stone e sua galera são derrotados e fogem.
Stone fica irado por que o contratador não quis pagá-los e despede todos os seus subordinados (mas ele não queria que o time ficasse conhecido?). Existe um momento de ternura entre os psicopatas e no fim um deles retorna devido à amizade (Amizade?) que tem por Stone.

De uma hora pra outra um Stone bipolar amacia e fica com conversinhas de gratidão e fraternidade.

Na TV eis que surge a notícia de que dois caras sobreviveram a um acidente de submarino e ganharam superpoderes (coisa trivial). Ainda com ares meio boiola, Stone e seu adido retornam ao aspecto vilânico e decidem convencer os dois rapazes a entrarem pro time (sem nem saber o poder deles. E se for um Arroto Atômico?) A última página mostra um indeciso Stone pensando: “Esse lance todo de começar uma super-equipe soa tão ridículo... é tudo que eu mais odiava quando fazia parte do Youngblood... bem, NÃO CUSTA TENTAR!” Eu quase morri de rir nessa.
E mais: Stone entra, os rapazes viram e perguntam o podem fazer por ele (temos superpoderes agora, sabia?) e ele responde: “Na verdade a questão é: EM QUE EU POSSO AJUDAR VOCÊS?” Ele não estava indeciso?
Tcharam!!! E Liefeld termina essa história ao invés do tradicional FIM, com um controverso COMEÇO.

Daí na contracapa, uma propaganda da.... Revista do Vilão. Afinal o que Liefeld REALMENTE queria ter desenhado?

Youngblood #1 é fantástico de tão absurdo que é, um absurdo emblemático. O fato de que os próprios heróis da revista aparecem em 12 páginas quando a edição tem 50, o roteiro flutuante (E a Pedra de Hitler? Foda-se.), os pequenos detalhes (Stone pega o telefone e liga pros dois novos supers sem nem saber número nem nada...), os discursos metralhadora, enfim, todos esses fatores tornam a revista abissal. Sim, é sabido que ela não é mais do que uma amostra grátis, inclusive pelo fato de que tenta descaradamente vender a revista do vilão, mas o que me fascina é perceber que nada daquilo foi acidental, mas que seria incorreto dizer que foi proposital. Liefeld é maluco e não é responsável por nada do que sai da sua cabeça.
Youngblood #1 entra no meu hall de HQs antológicas porque, em primeiro lugar, ela ilustra basicamente toda a psicologia Image, talvez até no que diz respeito também às obras de Lee e McFarlane. Savage Dragon, Freak Force, Cyber Force, Wild Cats, todos esses títulos padeciam dos mesmos vícios e esteróides.
Em segundo, porque representa a cara do meio da década de 1990, onde os Quadrinhos começaram a se encarar como indústria séria e surgiram conflitos de interesse entre empresas estrelas como a Image, que claramente estava tentando vender bonequinhos e especular na bolha de edições de luxo, e gigantes como a Marvel e DC que começavam a encarar o fato de que Quadrinhos também era literatura.
Havia em Liefeld, assim como na Image como um todo, um conceito de como e porque o público consumia Quadrinhos, semelhante ao que Tarantino tem com seu público no cinema (só que este mais bem sucedido). A Image repudiava intelectualismos, mas valorizava iconografias e simbolismos. Para ela, o consumidor comum de Quadrinhos procurava uma diversão descompromissada, como um filme pipoca, com código fáceis de pegar, ainda que fosse esse mesmo perfil que estava sendo acusado de arruinar a imagem dos Quadrinhos, tornando-os infantis. A Image se apresentava como uma indústria adulta, rebatendo a crítica fiando-se em violência explícita e ideias vagamente realistas.
Mais tarde, Alan Moore retirou o limo de cima de tudo isso e repaginou o Universo Image, por incrível que pareça, valorizando exatamente essa visão restrita. Ele reformou Supremo, tornando-o não só uma homenagem sincera ao arquétipo do superherói, como também travou um diálogo metalinguístico com os próprios Quadrinhos. A saga Dia do Julgamento (que eu levei semanas para achar na net... e em espanhol), reforma totalmente a linha do tempo, inserindo os personagens em seus devidos lugares e ainda por cima justificando porque o Universo Image era e é desse jeito, de modo genial, literalmente puxando a orelha de Liefeld.
Enfim, não é só de fatos de importância ou roteiros literatos que vive uma HQ histórica. Assim como no nosso mundo, nós esquecemos de olhar para aqueles pequenos heróis de guerra que fizeram pouco, mas que foram fundamentais para que grandes obras pudessem ter surgido.
Além disso, como arte que é, os Quadrinhos devem ser reverenciados também pelos seus detalhes obscuros e negativos. Quadrinhos como da Image eram e ainda são uma realidade e são essas polarizações múltiplas entre o tosco e o refinado que tornam o universo criativo desse meio tão rico e cheio de possibilidades. Youngblood #1 é um festiva de enganos, mas é uma aula de História dos Quadrinhos.
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Re: TEXTOS REVISADOS DA EDIÇÃO # 21

Mensagem por Rodrigo! em Qua Abr 06, 2011 9:34 am

Diálogos do Bráulio

Dois: The past is the prologue of everything that is coming ou E não é que o Bráulio teve infância?

Meus prezados leitores de bom gosto!

Conforme prometido, venho comentar a última edição desta pseudorrevista, que já há 4 anos vem amaldiçoando e tornando fútil a veraz cultura tupiniquim. O que podemos usufruir da leitura de seu vigésimo número?

Quase nada, logicamente...

Mas, antes de pronunciar minha opinião de forma franca, tenho de reconhecer o mérito desses singelos pimpolhos que organizam esta publicação... Porque seria difícil juntar TANTA amoralidade em apenas 50 páginas! Ainda que com MUITO esforço! Mas eles conseguiram...

Então “parabéns”, meninos... Vosso “esforço” foi recompensado com essa... Essa... Com isso.

É fato que o periódico começa de modo extraordinariamente bom sua jornada informativa: logo após o dito editorial, somos testemunhas de uma espetacular demonstração de como escrever com bom-tom, eloquência, beleza e humildade, através das palavras de um senhor que, casualmente, sou eu: Bráulio Taumaturgo!

Na sequência desses magníficos vocábulos, vemos seguidas matérias de dedicação à inutilidade, com autores de nomes curiosos... Há matérias escritas por ABAS (?), KillOffer (?!), Steampunk (?!?), Von Dews (?!?!?) – que é um senhor que discute sobre SCANS (!!!!)... Acredito que algumas dessas linhas deveriam ser censuradas... Senão todas!

Foi apresentado aos leitores um personagem com o obtuso nome de “Apanhador de Estrelas”... Como bom observador que sou (Apenas bom...? Como a modéstia me impede de afirmar a verdade...), vi que nas duas (DUAS!) estórias que se sucedem à introdução do dito-cujo, não se aprecia o pegar de nenhum astro da abóboda celeste, nem pelo personagem nem por qualquer outra coisa. Ou seja, o que ele apanhou foram os bobinhos que perderam seu tempo lendo-o.

E na contracapa temos alguns varões e fêmeas preparando-se para um Carnaval fora de época, tentando interagir com o leitor... Foi uma ideia genial? Não, claro que não: foi uma ideia de jerico! Já me faltam as palavras para desencorajar a leitura desta pseudorrevista...

Mudemos, pois, de assunto: vamos parar de falar de desgraças e coisas ruins e finalmente discursar sobre algo que interessa a todos os meus augustos leitores; algo maravilhoso e belo de deliciosa modéstia e que qualquer ser humano gostaria de saber.

Sim, meninos e meninas! Falarei nas próximas linhas sobre Bráulio Taumaturgo! Isto é, eu!

Apesar de consciente do fascínio que o mundo tem ao meu ser, devo admitir que, em criança, admirava meu pai. Não parava de pensar no incrível ser que era meu progenitor. Cada dia de minha vida de criança ansiava em ser como ele e copiar suas atitudes e defeitos... Já aos sete anos pensava: "Como é possível este homem ter feito um filho tão maravilhoso como eu? Preciso descobrir este segredo, pois tenho que ser pai de um menino assim como eu sou no futuro!"

E recordo-me que na hora de dormir ele sempre lia delicados contos infantis, tais como “A Divina Comédia”, “Guerra & Paz” ou “O Príncipe”. Sempre no original, é claro...

Ah, bons tempos que não voltam mais... Definitivamente, tive a infância sonhada por qualquer miúdo!

Para finalizar, com relação à farsa da minha morte e uma suposta esposa, ressalto que essa notícia foi espalhada a mando desse editorzinho mixuruca chamado Kio. E estou solteiro por ora, pois ainda não nasceu a deusa que comprazerá meu ardor e inteligência.

Sem mais, fico ansioso por nosso próximo monólogo, sendo sinceramente vosso,

Bráulio

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Re: TEXTOS REVISADOS DA EDIÇÃO # 21

Mensagem por rdelton em Qua Abr 06, 2011 12:16 pm

TRANCAFIADOS
Por Rita Maria Felix da Silva



O mundo das idéias e metáforas:

A sala vermelha. A porta de aço indevassável. Sem fechadura ou maçaneta. Eternamente trancada. O amor parou diante dela pela enésima vez. Era imperioso sair.

Punhos fechados, golpeou o metal até que as mãos sangraram, as carnes de seu corpo se desfizeram e, por fim, os ossos tornaram-se pó. Breve, nada mais havia do amor...


O mundo real:

Joana foi dormir ao final de outro dia estático, como havia sido desde que Raul e as crianças morreram.

Sofrera demais naquela época, mas agora felicidade e infelicidade não passavam de itens de um dicionário. Nunca mais sentir qualquer coisa. Uma boa promessa. O que lhe restava de vida era melhor dessa forma.



FIM
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Re: TEXTOS REVISADOS DA EDIÇÃO # 21

Mensagem por Kio em Seg Abr 25, 2011 3:41 pm

ARG!CAST - O FARRAZINE TAMBÉM POD!

Foi uma das minhas poucas experiências no Skype... Reconheço que sou “analfanético" com algumas tecnologias da internet. Principalmente com relação a chat ou conversas em tempo real.
Eu não sabia manejar muito bem o programa (eu sei, nem é tão complicado assim, enfim...) mas o pessoal do Arg!Cast foi bacana e paciente.
Abaixo um bate-papo cheio de descontração e risadas com o Matheus Shortfall e o Hilliam.

FARRAZINE - Então já está gravando?
Arg!Cast - Já está gravando! Essa foi a primeira pergunta? (risos)

FZ - Não, né? Na verdade, a primeira pergunta que temos é como começou o Arg!Cast?
A!C - Sei lá, a modo “resumo ever” um de nós perguntou por telefone: – “E aí, o que cê tá fazendo?” “Nada? vamos fazer podcast?” (risos).
Agora a versão séria é que nós tinhamos um antigo site (Arghfornerds e depois Arghforever) que não deu muito certo e terminou. Mas nós ainda tinhamos muita vontade de fazer alguma coisa na internet, tipo um site, sei lá e tal... Daí, como o outro site tinha acabado e ainda tinhamos uma hospedagem paga por um ano em um host, veio a ideia de fazer um podcast porque estavamos escutando vários nesse meio tempo. Logo o Matheus (Shortfall) lembrou que foi o Prof. Nerd que apresentou o universo podcast para ele, e acabou por convidá-lo para participar. O Hilliam era amigo de infância do Naskah e recrutou ele também... Daí foi uma coisa puxando a outra e acabamos conhecendo um montão de gente legal que participou ou ainda participa. Todos são muitos importantes neste tempo que criamos o Arg! seja comentando, escrevendo ou colaborando de outra maneira! E todos estão vivos ainda, importante ressaltar! (risos)

FZ - Quais eram os objetivos que vocês gostariam de alcançar quando começaram o podcast?
A!C - Era ser melhor e maior que o Jovem Nerd! (risos) Brincadeira, vamos parar de falar bobeira! (risos) Realmente o objetivo era diversão total! A gente não tinha um foco prioritário nem nada disso... Na verdade, a gente se fode bastante para fazer o podcast e o mais gratificante é saber que é divertido para nós que fazemos e para os ouvintes. Nós não ganhamos dinheiro para fazer o podcast e nem para manter o site. Só que depois de 1 ano do início, vimos que deveríamos levar a coisa com cada vez mais seriedade até porque, estávamos tendo cada vez mais acessos e popularidade. No ano de 2010, tentamos investir um pouco mais no Arg!Cast... Podemos dizer que foi uma coisa que começou como diversão e virou coisa séria.
Mas sempre como hobby porque senão perderia toda a graça e o tesão. Fazer o Arg!Cast é como ter orgasmos múltiplos (risos)!!!

FZ - Como vocês definiriam o Arg!Cast para alguém que está “ouvindo” falar pela primeira vez?
A!C - Pô eu só tenho uma palavra: SEN-SA-CIO-NAL!!!! (risos)

FZ - Falando de trabalho. Qual é a profissão da galera do Arg?
A!C – Generalizando, nós temos desenvolvedor de web que é o Hilliam, que tem muita vontade de criar games também, temos estudantes que são o Matheus e o Naskah, Professor Nerd é professor (óbvio!), gigolô (risos) e dá aula de inglês e o Daniel HDR desenha para a DC e dá aulas de desenho aqui em Porto Alegre. Temos também o Giusepe que é analista de sistema e a Ana é roteirista.

FZ - E dentro do universo de podcast quais vocês curtem?
A!C - Ah! De nenhum, cara! (Risos)

FZ - Nem do Arg!Cast? (risos)
A!C - Claro que não! Menos ainda! (risos) Agora sério, nós escutamos bastantes podcasts... Atualmente, temos ouvido muito o Jovem Nerd, logicamente, que achamos que é a base de todos os podcast. Escutávamos muito o Animecast também. Ouvimos o Matando Robôs Gigantes, até gravamos com o Affonso e ficou muito legal. Somos mega-fãs dos caras! Acho sensacional! Nós gravamos com o Melhores do Mundo também, escutamos bastante eles e os caras são super-engraçados! Tem o TabernaCast também que estamos ouvido, o Hcast, O Super Controle Podcast (Eterno DrinkCast pra gente!)... Tem mais ainda, mas é foda lembrar todos agora... A gente tenta ouvir todos porque são muitos bons... O Papo de Gordo também é legal. Eu (Hilliam) ouço podcasts até no trabalho... Enquanto estou programando, solto uma risada do nada.

FZ - Com relação a galera que escuta os programas do Arg!Cast, vocês acham que acabam se tornando formadores de opinião entre o público nerd? Vocês têm essa sensação nos comentários do público? Ou algo que alguém escreve que deforma completamente o sentido original da ideia que foi transmitida no podcast?
A!C - Ah, a gente já viu alguns comentários que desmotivaram mesmo... E também outros que motivaram e motivarão para sempre! E isso é o mais legal porque o feedback da galera acaba contribuindo de alguma maneira. Sempre podemos tirar proveito das opiniões alheias no bom sentido. E de uma certa forma, com relação a primeira parte da pergunta, você acaba influenciando um pouco as pessoas que escutam o programa, querendo ou não. Porque o podcast é como uma conversa aberta que acaba com comentários e e-mails.
Não quer dizer que estamos impondo nada. De repente, nossa opinião acaba chegando a uma pessoa que tinha outro ponto de vista e termina aceitando o seu. Até a gente acaba sendo influenciado pelos feedbacks que recebemos do público. Termina sendo uma coisa como dar e receber.

FZ - No ano de 2010 quais programas destacaram mais?
A!C - Por comentário acho que foi com o Paulo Peixoto, do blog PorraMaurício! Outro que teve muita discussão foi o do Super-Homem vs Batman e o do Homem de Ferro... Falando nisso... Cara, o do Homem de Ferro teve neguinho tenso mesmo (risos)!!! O pessoal levou a sério a brincadeira do Fabiano, velho! Reclamavam algo do tipo: “vocês deviam falar do Homem de Ferro, não do Batman!!” E o mais legal é isso, porque a galera leva a sério às vezes, a briga entre eu (Hilliam) e o Fabiano, acreditam que no podcast nós estamos ali discutindo, mas na verdade depois a gente sai pra bater-papo e tudo bem tranquilo. Brincadeira mesmo. E isso me recordou a pergunta sobre influência que você fez e formação de opinião, porque a galera ficou puta da cara com o que falamos.

FZ - Mas tem nerd que é assim mesmo, não é? Pior ainda se for fã do Batman... Os fãs do Batman são fodas... Acho que eles são piores que aquela galerinha cosplay e tal... (risos)
A!C - Pior que é! (risos)

FZ - E quais foram os programas que vocês mais gostaram de fazer?
A!C – Sinceramente, uns dos melhores foi o das gostosas das HQ’s, porque eu (Hilliam) conheci o lado sombrio do Daniel HDR! Falando sério! (risos)

FZ - E quais temas vocês ainda não abordaram legal?
A!C - Animes e Tecnologia. Animes por falta de conhecimento suficiente pra se meter a ficar falando, alguns poucos que gostamos já fizemos e outros ainda estão por vir. Já tecnologia até renderia bastante conteúdo, mas não tivemos resultados satisfatórios nas nossas tentativas de abordar esse tema.

FZ - E os projetos para o 2011?
A!C - Primeiramente tentar seguir nosso cronograma, publicar todos os episódios nas datas previstas, ter mais colunas, trazer mais convidados sensacionais e fazer mais coberturas de eventos. Ah! Publicar conteúdos ainda não publicados, como os vídeos da Comic-Con! Esse são nossos planos, parece simples, mas acaba nos faltando tempo. Então acho que o que planejamos para 2011 é ter tempo realmente pra fazer tudo isso.

FZ - Comentem três coisas que ninguém sabe sobre o Arg!Cast.
A!C - Temos um vídeo com os Irmãos Piologo, muito louco por sinal! Temos também um vídeo com o Leonel Caldela e o Gustavo Brauner, respondendo ao primeiro vídeo com o Rafael. Pra quem não conhece a história são, basicamente, “birrinhas” de suas jogatinas de RPG. E que a fonte do logo do ARG!Cast é a mesma do Naruto. Mas já estamos providenciando a troca dele! Tem mais algumas coisas, mas já que só pediram três, vamos deixar para uma próxima entrevista.

FZ - Galera valeu mesmo, forte abraço!
A!C - Acabamos sendo sucintos, mas futuramente, se quiserem, podemos responder mais perguntas suas ou responder mais sobre as mesmas hehe...Mais uma vez, agradecemos a você e toda a equipe do FARRAZINE, valeu!
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Re: TEXTOS REVISADOS DA EDIÇÃO # 21

Mensagem por Kio em Seg Abr 25, 2011 3:42 pm

Aulas de Roteiro – Parte 1

Antes de qualquer coisa, uma breve apresentação. Sou Rafael Camargo de Oliveira, como o sobrenome diz, um descendente judeu, mas que não sabe nada do judaísmo. Aspirante a pesquisador e roteirista de quadrinhos. Ao ver algumas aulas na internet e em livros e revistas sobre roteiro, resolvi acrescentar algumas dicas a quem está começando, mas não focando muito na técnica, algo muito trabalhado pelas demais aulas encontradas. Só não vale escrever sobre o anti-semitismo (risos).

1 – O fator leitura...
Começando pelo básico e que toda aula de roteiro sempre bate nesta tecla. Ler, ler, e ler. Mas, por quê? Por que ler livros? Simples: ideias originais provém de obras originais e isto você vai encontrar somente na literatura que foge do mainstream. Aqueles que inovaram seus estilos em diversas escolas literárias, sejam eles Edgar Allan Poe, James Joyce, Aldous Huxley, Guimarães Rosa, etc. Esses são só alguns exemplos para contextualizar. O importante é expandir o leque...

2 – E quanto à leitura de quadrinhos?
Muitas aulas de roteiro acabam descartando (não totalmente, mas ainda sim descartam) a leitura de quadrinhos, sendo preferencial a leitura de livros, pois como dizem “nada substitui um bom e velho livro”. Em suma isso procede, mas para se compreender o ritmo da narrativa dos quadrinhos, jogos de cena e outros a leitura de HQ’s se faz fundamental. É recomendável, assim como nos livros, a busca de obras inovadoras em diversos aspectos (seja no desenho ou na composição narrativa), vide Watchmen, como principal exemplo do segmento. Outra dica interessante é a leitura de roteiros, pois ajudam no entendimento entre desenhista-roteirista.

3 – Poesia e Filosofia...
Sim... Ficar só no universo fantástico das leituras é ótimo, mas para dar sentido e verossimilhança a eles, terá de buscar em outras ciências, explicações e teorias... Provavelmente aquela com elevado grau de importância seja a filosofia, já que ela é a precursora das ciências contemporâneas, embora não seja propriamente uma ciência, de acordo com o termo etimológico da palavra. Filosofia, física, biologia, história, geografia... Todas são fundamentais, afinal, de onde acha que veio a Teoria do Caos tão presente nas obras de Alan Moore? A física responde essa. E o big evento da DC, conhecido como Crise Nas Infinitas Terras não fica de fora das indagações físicas como a Teoria das Cordas (ou dos multiversos). E quanto à poética? Ora, a poética é a rítmica e a beleza que irá compor a narrativa. Sua narrativa pode não seguir parâmetros poéticos, mas um conhecimento desta sempre contribui bastante. Para finalizar este tópico, um relato: graças à poesia e a filosofia que surgiu um movimento genuinamente brasileiro, de nome HQ’s Poético-filosóficos (iniciados por Gazy Andraus, Edgar Silveira Franco e Mozart Couto).

4 – Filmes...
De acordo com Scott McCloud, Will Eisner trouxe uma evolução às HQ’s, inserindo recursos cinematográficos. Ora, os quadrinhos são uma junção de duas artes: cinema e literatura. Sendo assim, o cinema não pode ficar de fora. E ouso dizer que se deve incluir ainda o teatro como elemento fundamental das expressões faciais e corporais.

Esta é uma pequena introdução à aula de roteiros, dicas/reclamações/sugestões podem enviar para leiafarrazine@gmail.com. Até a próxima!

Por Rafael Camargo de Oliveira
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Re: TEXTOS REVISADOS DA EDIÇÃO # 21

Mensagem por Kio em Seg Abr 25, 2011 3:42 pm

Brazilian Comic Code - Por Rafael Camargo de Oliveira

Não há como falar em censura sem citar o que hoje talvez possa ser considerado o artista mais censurado de todos os tempos. A referência é a Donatien Alphonse de François de Sade, mais conhecido como Marquês de Sade, o responsável pelo termo Sadismo. Ateu, anticristo, louco... Foram atribuídos esses e vários outros adjetivos, mas Sade foi mais do que um aglomerado de palavras de cunho insultante (que por sinal faziam Sade ficar em êxtase). O Marquês foi uma importante figura na presente revolução sexual, culminada de forma definitiva na década de 60, mas que antes permaneceu na “proibição” por séculos. A crítica bem que tentou, revelando suas falhas estilísticas, mas nada resolveu, pois o ponto forte de Sade estava na sua ácida crítica social e literária.
O marquês é um clássico exemplo da função repressiva sobre a arte. A moral, cujo “moralizante” supremo foi Kant, questionava certos valores humanos e, ao serem expressos na arte, os moralistas depravavam todo ideal artístico que não seguisse regras e implicações das tendências mundanas, ficando apenas com a reprodução do mundo, de forma surreal, fictícia e, por vezes, mais assustadora do que a própria realidade. A Nona Arte (ou histórias em quadrinhos, ou simplesmente HQ, como preferir), tal como recebe o título “arte”, não escapou da descarga sanitária artística. Todos os amantes das HQ’s conhecem o famoso Comic Code Authority, que foi oficialmente extinto neste ano. Seria esse o fim da censura? Ora, provavelmente seria mais fácil chegar a fissão de partículas de anti-matéria do que atingir esse patamar... E acredite, no Brasil, conforme as HQ’s crescem no mercado, os executores da foice e do martelo (símbolo inicialmente do proletariado russo, que depois se tornou um pesadelo) crescem o olho. E como crescem...
Podemos crer que não é necessário relatar o período da ditadura, pois é claro para todos a censura explícita. Focamos em algo mais implícito, através dos dias atuais... Começamos por 2006, com a seguinte manchete: “Banda Grossa: quadrinhos sob ameaça de censura em Joinville” (matéria por Marcelo Naranjo, publicada em www.universohq.com). Após receber apoio cultural do governo, a revista de humor Banda Grossa acabou sendo barrada na Câmara dos Vereadores com a desculpa de que não havia sido mencionado nenhum conteúdo relacionado a sexo e uso de drogas na revista. Avançando um pouco no tempo, temos a HQ “Dez na área, um na banheira e ninguém no Gol” comprada pelo governo para ser distribuído nas bibliotecas escolares do país. Ao saber do conteúdo adulto (palavrões de cunho sexual) e até mesmo uma referência ao PCC (pelo jeito o governo não conhece figuras de linguagem...), a HQ foi recolhida e classificada por José Serra como de “muito mau gosto”. Em 2009, ainda tivemos casos parecidos como o citado acima, desta vez, com as HQ’s do mestre Will Eisner (Um Contrato com Deus, O Jogador e O Nome do Jogo). Esses são só alguns dos diversos casos que temos por aí, muitos deles nem tão divulgados assim. Só em nível de comparação: no Japão são permitidos os mangás tidos como “pedófilos” por aqui, pois de acordo com os japoneses isso é na verdade uma crítica a esta prática e não uma apologia. Pobre do autor que fizer isso por aqui, vai ser preso, apedrejado, e... bom, fico só nesses dois exemplos mesmo. A última das polêmicas foi o caso “petralha”, uma palavra que causou tanto alvoroço e olha que ela nem tinha nenhum cunho sexual (nem foi criada pelo Marquês de Sade...). Petralha foi um termo criado como forma de acusação aos petistas, uma mistura de petista com os Irmãos Metralha da Disney. Porém, com o passar do tempo, o termo ganhou uma nova conotação. Só o termo, porque as pessoas... Aliás, os petistas com dor de cotovelo resolveram agir e acusaram o favorecimento de uma posição política por parte da editora Panini.
Casos e mais casos, quando tudo mudará de vez? Se depender da cabeça de um povo preso a uma moral Kantiana completamente irracional (segundo Nietzsche), com certeza, nunca! Primeiramente, os quadrinhos devem ser não somente titulados como arte, mas serem tratados como tal. Em segundo lugar, tal como existem livros adultos, existem quadrinhos... A mentalidade de uma concepção infantilizada dos quadrinhos tem que ser extinta. Enquanto isso, as HQ’s são tratadas como papel higiênico. Ao mais otimista, sobra o pessimismo e ao mais pessimista, o pessimismo, é claro. Vivam os sádicos (ou seriam masoquistas?) quadrinhos brasileiros!
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Re: TEXTOS REVISADOS DA EDIÇÃO # 21

Mensagem por Kio em Seg Abr 25, 2011 3:42 pm

O maravilhoso mundo da Cozinha Canibal

Esta receita é especialmente idealizada pelo chefe Tkomo’o Nalcova’a, depois de uma conversa franca com um velho guarani onde confidenciava que já não sabia o que fazer com sua obstinada esposa.

A resposta do velho sábio foi clara e direta:

“Podes fazer uma boa janta!”

E após ser iluminado com essas singelas palavras, Tkomo’o produziu uma das melhores delícias da cozinha caníbal que seguem para todos os leitores abaixo:

Lasanha T’komia’a.

Ingredientes.

500g de casca de lesminhas Eca-Blergh do norte do lago Titicaca.

250g de carne seca e moída de turista tonto inglês.

250g de carne moída e fresca de turista amarelinho colombiano.

2 ou 3 colheres de sangue coagulado de fêmea obstinada Numdou-Numdou (Tribo feminista de extrema-esquerda africana).

500g de presunto.

500g de queijo mussarela.

200g de queijo manchego em quadrados.

1 pacote de queijo ralado.

1 caixa de molho de tomate.

Cebolas, alhos e condimento a gosto e um pouco de manteiga.

Modo de preparo.

Cozinhe as casquinhas das lesmas e, depois de cozidas, passe um pouco de manteiga para que não grudem.
Refogue a cebola e o alho até ficarem douradinhos.
Misture as duas carnes de turistas (o tonto e o amarelo), junte ao que já foi refogado e mexa até obter uma cor homogênea junto com o molho de tomate.
Coloque o sangue coagulado e continue mexendo. Aumente o fogo e continue mexendo. Agora pare um pouco de mexer e rebole. O swing é bom. Gostoso demais!
Apague esse fogo e deixe de pensar sacanagem.

Montagem.

Em uma forma, coloque no fundo um pouco do molho da carne e comece pelas casquinhas de lesma. Depois ponha em cima o presunto. Logo, suba a mussarela e salpique o queijo manchego, depois o restante das casquinhas, sobe outro presunto, bota mussarela, salpique o queijo manchego, vai, bota mais, continua, não para, mais rápido, assim, assim, assim... e pronto!

Leve ao forno para gratinar e depois é só comer. Hummmmm! É gostoso, é?

Obs.: Apesar de canibal o chefe Tkomo’o Nalcova’a apresenta várias facetas como artista, dançarino, escritor e tarado.


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Re: TEXTOS REVISADOS DA EDIÇÃO # 21

Mensagem por Kio em Seg Abr 25, 2011 3:43 pm

Entrevista Montt

FARRAZINE - Como você descobriu o talento para desenhar?
Alberto Montt - Eu não descobri, porque eu desenho desde que tenho lembranças. Entretanto, não acho que seja um talento, pelo menos, não um talento único. Acho que se todo mundo continuasse desenhando desde o momento que começa, ou seja, aos 3 ou 4 anos de idade, a maioria desenharia muito melhor que eu. É só prática e gosto.

FZ - Quais ilustradores e desenhistas você admira?
AM - A lista é enorme e se divide entre os que eu admiro por conceito e por estética, mas assim rapidinho eu posso dizer, Quino, Larson, Fontanarrosa, Liniers, Isol, Fanelli, Cantone... Ufff, milhões!

FZ - E os seus personagens favoritos?
AM - Mafalda e toda sua trupe, Ren & Stimpy, Peanuts, Olafo... Outra lista enorme.

FZ - Suas tirinhas têm um humor fora do comum. Como você procura inspiração para desenvolvê-las?
AM - Eu, igual a todo mundo, tenho estados de ânimos. Às vezes, sou sarcástico e escuro, outras alivio um pouco, sou alegre ou absurdo. O que eu faço é passar as ideias que vem no papel e pronto! É um exercício que, provavelmente, qualquer pessoa poderia fazer, mas não se dá ao trabalho de fazê-lo. Trato, isso sim, de manter a cabeça muito aberta para que nada fuja. Isso acabou me tornando muito mais observador e crítico do que eu costumava ser.

FZ - Sempre trabalhou com desenho?
AM - Sim, sempre.

FZ - E se tivesse que escolher outro profissão, qual seria?
AM - Eu sempre gostei de arquitetura e de leis. Creio que eu poderia ter sido um excelente advogado... Eu acho isso, pelo menos.

FZ - Há um monte de artistas que encontram dificuldades para poder se realizar profissionalmente. Nesse caso, que conselho você daria para aqueles que pretendem iniciar a carreira como ilustrador?
AM - É uma carreira difícil (como todas), mas há 3 pontos que são primordiais:
1. Amar o que você faz com toda sua alma.
2. Ter tolerância com a frustação. E faz muita falta!
3. Ser suficientemente autocrítico para saber reconhecer se existe algo mais que só vontade sobre o assunto.

FZ - Como membro fundador de SIETERAYAS COLETIVAS, o que você pode contar pra gente sobre isso?
AM - Quando eu comecei a ilustrar profissionalmente, conheci um grupo de pessoas que estava no mesmo caminho e estado profissional, nós fizemos amizade e decidimos unir forças para conseguir abrir campo aos ilustradores. Organizamos-nos como coletivo e organizamos também “oficinas”, exposições e projetos.
Serviu muito para aparecer e assim, gerar um nome como coletivo e como indivíduos. O coletivo é uma grande ferramenta para começar.
FZ - Seu estilo é bastante diferencial. O traço, o trabalho com as texturas... Como chegou nessa identidade visual?
AM - Muita gente me perguntou como se consegue um estilo pessoal. Na verdade, acho que o estilo não seja algo que se busque. Pelo contrário, sinto que o artista tem muitas deficiências no momento de trabalhar, problemas com perspectiva, com o desenho e as cores, sei lá, mil coisas! O negócio é encontrar a maneira de tirar proveito desses erros e converter isso em marca pessoal. Por exemplo, eu mesmo, tinha muitos problemas em desenhar maxilares e ombros, por isso meus desenhos quase não tem essas coisas. Entendeu?

FZ - Seu trabalho está direcionado para a web. Como você vê a sua importância na disseminação das suas obras?
AM - Essa é a base. A internet é um grande filtro. Se há qualidade, começa o boca a boca e aqueles que realmente gostam do seu trabalho vão ficando. Sem fronteiras, sem limites. A internet faz o mundo ficar pequeno.

FZ - Conhece outros projetos como o nosso? Uma revista virtual sem fins lucrativos somente com objetivo de divulgar e promover interesses comuns?
AM - Cada vez aparecem mais projetos como o de vocês ou o meu. As pessoas estão se jogando nas redes sociais como uma alternativa para compartilhar e difundir cultura. É o que estávamos falando antes. Se você ama o que faz, tem que compartilhar sem fins de lucros e ir adiante com os projetos com o coração na mão. Acho o projeto excelente. Não só porque ajuda na divulgação, mas também porque junta pessoas com interesses em comum.

FZ - No seu blog podemos acessar a "tiendita" (lojinha) e comprar seus livros, inclusive dedicados especialmente, que podem ser enviados no mundo inteiro. Chama muito a atenção que tudo seja tão natural... Os livros e todas as coisas que estão lá foram editadas somente por você?
AM - Não, os livros foram editados pelas Ediciones B, e todos os demais foram feitos e produzidos por mim. É um espaço onde eu posso brincar de ser empresário! (risos)

FZ - Na sequência da pergunta anterior... Qual é sua opinião sobre o monopólio das editoras com relação aos artistas? Você acha que o caminho a seguir é a independência?
AM - Acho que ambos os caminhos são válidos. Porque você pode se tornar independente, mas vai encontrar os problemas logísticos, administrativos, contáveis, impostos... Enfim. Se você não está disposto a isso tudo, vale a pena seguir com alguma editora e tentar melhores acordos econômicos.

FZ - E agora mudando de assunto... Sobre o governo do novo presidente Sebastián Piñera... Um dos medos que teve o povo chileno era que o empresário terminaria por "vender" o Chile, fazendo uma alusão às suas bem-sucedidas transações empresariais. Nesse quase um ano de governo, qual seria sua analise? E como se sente o povo chileno?
AM - Não posso falar pelo povo, mas por mim. Sinto que o presidente e a grande maioria dos políticos sempre realizam dois tipos de obras: Umas reais e outras cosméticas para a imprensa. No nível "Real" é difícil julgar tão cedo, já que geralmente esses projetos dão frutos ao cabo de um par de anos. Mas a nível "Cosmético", eu vejo que foi uma quantidade de erros, imperícias e desventuras que me dão muita vergonha alheia.

FZ – Conhece o Brasil, Alberto? Se a resposta é não... Tem intenção de vir?
AM - Não conheço e sim, tenho intenção de ir. Espero, além do mais, algum dia poder editar algo próprio por aí. Seria uma honra!

FZ - E você conhece um pouco da nossa música, desenhistas e etc? No caso, o que você gosta?
AM - Sou muito fanático por Jobim, Buarque, Veloso, Vinicius, Marisa Monte... Sobre ilustradores não conheço muito, porque pouca coisa nos chega a esta parte do mundo. Conheço e sou muito fã do Adão Iturrusgarai.

FZ - Há um montão de fãs seus no Brasil. Alguma mensagem para eles?
AM - Eu fico impressionado que o meu trabalho tenha chegado no Brasil. Não posso acreditar que as pessoas tenham o trabalho de ler em outra língua e ainda por cima goste da obra! É muito emocionante! De verdade, espero um dia poder estar aí para conversar... Um abraço a vocês!
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Re: TEXTOS REVISADOS DA EDIÇÃO # 21

Mensagem por Kio em Seg Abr 25, 2011 3:44 pm

A Filosofia das Adaptações de Quadrinhos
Por FiliPêra, do Nerds Somos Nozes

Hollywood, lá por meados da década de 2000, abraçou desesperadamente os quadrinhos como um último refúgio de algum tipo de criatividade. Mas não é uma via de mão única, logicamente, vivemos em um mundo mercadológico onde uma série de regras malucas aponta na única direção de proteger e aumentar os lucros. O Cinema Americano precisa de boas histórias com ganchos para encher os bolsos, e o mercado de quadrinhos - em crise financeira aguda depois de uma fase negra com especulações milionárias e edições com vendagens infladas - precisa de dinheiro e de público renovado. Os dois se abraçaram, e se abraçaram de verdade, oficialmente. Tanto que a DC Comics é parte integrante da Warner e a Marvel foi comprada pela Casa do Mickey, e todos sorriram, porque roteiros minimamente originais valem ouro na Hollywood dos dias de hoje. Que o digam os remakes de filmes que saíram há pouco mais de dois anos (Deixa Ela Entrar, O Homem que Não Amava as Mulheres) os escritores de HQs que foram contratados por Hollywood (Brian Vaughan, Joss Whedon) e um certo Frank Miller que no primeiro vôo solo dirigindo um filme queimou as asas e agora tá sem rumo, no meio dos dois mundos.

Não podemos dizer que essa relação foi sempre íntegra, boa para os dois lados. Batman nos cinemas começou bem até que virou motivo de piada (pela segunda vez, depois de uma série de TV absolutamente cômica por causa do clima de insanidade do Macartismo. Ao menos ele foi reabilitado na TV com a perfeita Batman-Animated Series), e fãs choravam de raiva, como bem lembro de amigos meus de colégio jogando revistas do personagem fora... aos prantos. Superman se saiu bem até que Richard Pryor entrou no terceiro filme e transformou tudo numa grande festa circense. A Marvel ficou no canto dela e viu a DC fazer dinheiro com Hollywood e merchandising até que o homem de negócios Avi Arad mudou para sempre os termos dessa união quadrinhos-celulóide. Com esquemas no melhor estilo Irmãos Weinstein (também judeus, o que significa que são negociadores implacáveis), ele negociou diversas franquias milionárias da Casa das Idéias, que foram transformadas em sucessos de público incontestáveis - e, algumas vezes, em sucesso de crítica também (tipo Homem-Aranha 2). Mais uma vez, um ciclo se fecharia, quando a Marvel capitulou, com os péssimos terceiros capítulos de suas maiores franquias: Homem-Aranha 3 e X-Men 3, duas bombas que mostraram o quão desgastados estavam os filmes adaptados de gibis.

Mas, como parafraseou Alan Moore certa vez - num contexto bem mais radical e artístico, é verdade: "Das cinzas dessa queimada surgiu uma terra fértil". A Marvel decidiu ela mesma entrar no mundo das adaptações e criou o Marvel Studios, que teve seu pontapé inicial dado por um personagem relativamente obscuro: o Homem de Ferro, que ganhou um filmão, aclamado por público e crítica, que ainda trouxe Robert Downey Jr. de volta aos holofotes. Hoje, se olharmos os maiores filmes do ano, com certeza tem adaptação de HQ no meio (esse ano tem Thor e Lanterna Verde. Ano que vem Os Vingadores e A Liga da Justiça).

Um capítulo a parte nessa saga vai pro nosso já citado mestre Alan Moore. Não vou cavoucar aqui as enraizadas razões históricas que o levaram a ter o presente ódio de Hollywood e sua máquina de fazer salsichas, mas basta analisar os filmes recentes baseados em suas obras pra entender porque ele nem quer que seu nome conste nos créditos. OK, vamos usar um pouco de sinceridade aqui: tirando o lixo chamado Liga Extraordinária, os outros filmes não são tão ruins... desde que se esqueça a complexidade e qualidade das obras em que eles se basearam. É o caso de V de Vingança, Watchmen (alguns vão me crucificar, mas acho um filmão) e até Do Inferno, legalzinho, se for esquecido que ele não tem absolutamente nada a ver com a obra original. Isso se chama concessão, e todo fã de quadrinhos (incluso Eu) odeia, principalmente porque envolve ver sua obra favorita ser dilacerada em discussões empreendidas por boçais que acabaram de conhecê-la.

Mas, após essa introdução que comeu 1/3 do meu espaço aqui, vamos ao verdadeiro assunto desse texto: quadrinhos adaptados para um novo filão, chamado TV americana, ao mesmo tempo em que analiso a diferença midiática entre quadrinhos e TVs. A aposta não é atual, mas está sendo revivida, assim como no cinema. Na TV existe menos grana envolvida - embora atualmente as produções estejam aumentando bastante seus custos - e, portanto, menos pressão por um produto final pasteurizado que precisa dar retorno de 200 milhões de verdinhas. Enquanto no cinema vemos a Fox criar uma coisa chamada X-Men First Class somente para não ver os direitos da franquia dos mutantes voltarem para seu lugar de origem, na TV já existiram negociações para adaptar Os Invisíveis - pela BBC escocesa - encerradas, com o advento de Matrix.

Percebe a diferença de parâmetros? Não que a TV seja a salvação, mas existe um pouco mais de liberdade, não são somente uns quatro grandes estúdios capazes de financiar uma adaptação desse calibre. O assunto voltou à mesa de conversas com declarações recentes sobre uma possível ressurreição da série de Sandman - como Watchmen terminou por ser adaptado, não duvido mais que Sandman siga esse caminho. Talvez tenha voltado um pouco antes com as idas e vindas de Preacher, que não sabe se vira série pela HBO ou uma trilogia de filmes. Os dois casos mostram como existe material pesado pras HQs, e nos dá uma rápida lição sobre diferenças de mídia. Essa sanha de adaptações mostra a mim que a preguiça é dupla: 1) dos produtores, cada vez menos buscando histórias inéditas, b) da população, que prefere uma mídia passiva ao invés de uma participativa.

Apesar de esse conceito estar cada vez caindo mais, a TV ainda é uma mídia que exige um espectador passivo, sentado lá e nada mais. A própria constituição da TV como mídia é exatamente isso: 29,97 frames bombardeados por segundo nos seus olhos, sem dó, por uma tela com iluminação na medida e cortes rápidos... tudo no intuito de te fazer ficar sentado com a bunda colada na cadeira. A concorrência é grande (TVs a cabo têm uns 150 canais, tem a internet, um bom livro, ou simplesmente o botão Desligar da TV), não se pode facilitar. Por isso é uma mídia passiva: é só sentar e aproveitar a viagem. Já os quadrinhos dependem um pouco mais de quem tá lendo. O ato de folhear, o olho passando as páginas, ora lentamente e choroso com um diálogo mais forte, ora acelerado com uma matança generalizada. Ademais, a percepção temporal dos quadrinhos é inteiramente sua, completamente subjetiva. É possível colocar um marca-página na página 30 e voltar pra recuperar um detalhe na página 17, para logo depois voltar pra página 30 e continuar a história com o detalhe novo já em sua cuca sob uma nova perspectiva. Com um pouco de insanidade, é possível montar um mosaico com Crise Final completa a sua frente e caçar detalhes de todas elas e fazer um fichamento com anotações completas - Grant Morrison deve ter imaginado uma pá de fãs fazendo isso. Os quadrinhos permitem isso!

Acho que é essa a mensagem que quero passar sempre que escrevo sobre HQs: quadrinhos é a arte mais vanguardista e com potencial de experimentação de todas. E olha que só estou focando quadrinhos essencialmente mainstream, americanos e ingleses. Mas mesmo nesse território tão explorado e calejado, encontramos absurdos narrativos como Promethea, uma das jornadas mais completas e ao mesmo tempo introspectivas dos quadrinhos. Eu já tive a felicidade de pegar a última edição da série e ver com meus próprios olhos. São dois pôsteres gigantes - um pôster com dois lados, na verdade. Olhando de longe vemos dois belos desenhos, quase vivos. Mas nos aproximando vemos uma jornada épica de dois aspectos do homem. Cada etapa da jornada pode ser lida de forma separada das demais, e cada vez que se embaralha a ordem a jornada tem suas etapas alteradas. É épico, e é quadrinhos puro, algo que só a Nona Arte proporciona. E isso é somente uma mostra dos quadrinhos como mídia participativa e coletiva, sob muitos aspectos.

Agora imagina a interação que uma TV pode proporcionar. Eu não sou especialista em TV, mas só consigo pensar no incômodo 3D como algo que possa externar algum tipo de interação. Por isso o cinema e a TV dependem de boas atuações, planos e movimentos de câmera bem pensados, trilha sonora e aquelas cenas inesquecíveis cada vez mais em falta nas artes. E é por isso que é preciso ter uma forte carga de abandono quando se vê sua HQ favorita numa telinha, as TVs simplesmente não conseguem absorver tudo que é pensado pra uma HQ, e mesmo numa série de TV longa, com uma cacetada de temporadas.
E exemplos por aí não faltam, como The Walking Dead recebendo descaracterizações contínuas...

...que mais uma vez mostram a superioridade narrativa dos quadrinhos sobre a TV.
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Re: TEXTOS REVISADOS DA EDIÇÃO # 21

Mensagem por Kio em Seg Abr 25, 2011 3:44 pm

GERALDO BORGES - ENTREVISTA

FARRAZINE - Vimos que grande parte de sua base como desenhista veio do tempo em que desenhava fanzines, de onde é que surgiu o amor por esse tipo de trabalho?
Geraldo Borges - Fanzines apareceram pra mim como uma válvula de escape para criar minhas próprias histórias.

FZ - Você ainda acompanha fanzines?
GB - Confesso que muito pouco por falta de tempo, mas vejo pelo menos as notícias dos zines e revistas independentes que estão saindo Brasil afora.

FZ - De que forma você acha que a Internet pode contribuir para os fanzines?
GB - A internet veio pra ajudar no grande problema do fanzine que é a distribuição; fazer a HQ chegar à mão do leitor e mais, aumentar o raio de alcance... o que no formato impresso limitava-se a no máximo 500 pessoas, na rede não existe limite.

FZ - Em uma outra entrevista, você foi perguntado sobre a sua participação no quadro de profissionais que criou o CURSO PRÁTICO DE HISTÓRIAS EM QUADRINHOS ONLINE DA UNIFOR, sobre os resultados esperados do projeto. Na ocasião, você comentou que, em breve, sairia uma coletânea das HQS produzidas no curso. Como anda o projeto? As HQ’s já foram publicadas? Há intenção de continuar a fazê-las com os alunos?
GB - Ainda não foi publicada porque preciso me organizar melhor para fazê-lo; mas pretendo não só publicar as HQ’s da primeira turma, como também da segunda turma que está rolando agora.

FZ - Seu histórico como professor de desenho é lindo e é impossível não observar como você ama essa atividade. Sendo assim, seguindo ainda a mesma linha de perguntas com relação ao trabalho autoral e ensino, você acha que sua ida para a DC ajudou a potencializar e chamar atenção para projetos como o da UNIFOR e outros? Há outros projetos parecidos em andamento?
GB - Sim, o fato de trabalhar com a DC sem dúvida ajudou a chamar a atenção para este curso de quadrinhos, fora o fato de o curso ser totalmente à distância, o que estendeu o raio para qualquer aluno de qualquer parte do planeta que entenda o idioma português (risos). O outro projeto similar da Unifor será o Curso de Mangá, criado pelo grande J. J. Marreiro (MSP+50) e vai arrebentar com as estruturas, pois está muito bem produzido; a previsão é que comece no meio do ano de 2011.

FZ - Você teve, alguma vez, problemas de aceitação das editoras por não "americanizar" seu nome?
GB - Nunca tive problemas com isso, particularmente.

FZ - Com o que você gostaria de trabalhar, se não fosse com quadrinhos ou desenhos? Você tem algum projeto fora da área de comics?
GB - Sim, tenho. Sou professor de animação da Universidade de Fortaleza e meu projeto extra comics é produzir uma série de animação, a priori, para a internet. Vamos ver no que vai dar...

FZ - E dentro dos quadrinhos com quem você gostaria de trabalhar?
GB - Tenho uma imensa vontade de trabalhar com o meu amigo Juan Vlasco, mexicano, e arte-finalista do título X-Men da Marvel, e desenhar histórias de escritores como Geoff Johns ou Grant Morrison.

FZ - Em 1997, você participou do retorno do personagem Capitão Rapadura, impulsionado pelo Universo HQ. Faz tempo que já não temos nada com o personagem. Existe alguma possibilidade de você voltar a desenhá-lo?
GB - Esse ano teremos novidades sobre o Capitão Rapadura e eu estou envolvido nelas, mas só posso divulgar mais adiante.

FZ - Como se deu a sua transição dos fanzines para o mercado editorial praticamente dito?
GB - O fanzine ajudou ao meu trabalho ganhar a qualidade que o mercado exige. Nos EUA, não existe espaço pra aprender; ou você sabe ou você não sabe... então fazer fanzines me fez aprender técnicas de narrativa, melhorar meu desenho em si, trabalhar com prazos, enfim, me preparou pros trabalhos profissionais.

FZ - Aquela pergunta clássica: Que dica você pode compartilhar com quem também deseja trabalhar para o mercado americano de quadrinhos?
GB - Nunca desista dos seus sonhos, saiba ouvir atentamente a opinião de profissionais, extraia o máximo quando tiver essa oportunidade, sempre tenha a convicção de que pode melhorar todos os dias, cumpra os prazos e mantenha uma regularidade de produção... claro que isso não é uma fórmula, mas ajuda a chegar lá.

FZ - Qual sua opinião a respeito dos scans?
GB - Scans são uma realidade da qual não se pode fechar os olhos, as editoras precisam saber lidar com essa variável e não simplesmente querer acabar com eles, pois isso é quase impossível, a meu ver.

FZ - Já tinha lido alguma edição do FARRAZINE antes? O que pensa sobre esse tipo de publicação virtual?
GB - Apesar de já ouvir falar bastante do FARRAZINE, confesso que ainda não li nenhuma edição, mas prometo acabar com essa condição logo, logo (risos).

FZ - Quer deixar algum recado para nossos leitores?
GB - Agradeço a todos que dedicaram um tempo a ler a esta matéria, agradecer por todo o apoio que sempre recebo a cada trabalho, e agradecer a vocês do FARRAZINE pelo belo trabalho em prol da arte sequencial!!
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Re: TEXTOS REVISADOS DA EDIÇÃO # 21

Mensagem por Kio em Seg Abr 25, 2011 3:44 pm

Ficha dos integrantes.

2-D
Nome “real”: Stuart Tusspot
Origem: Reino Unido
Instrumento: Vocal, Teclado.
Idade: 32 anos.
Breve histórico: 2-D perdeu os olhos por culpa de um acidente de automóvel, cortesia do baixista Murdoc Niccals, mas ainda sem eles Stuart jura que pode ver tudinho que se apresenta diante dele. Era empregado da “Emporium do Tio Norm”, onde vendia pianos, quando aconteceu o acidente. Ele é de personalidade gentil e fraterna. Adora grafitti, música, analgésicos e zumbis...


Murdoc
Nome “real”: Murdoc Niccals
Origem: Reino Unido
Instrumento: Baixo.
Idade: 44 anos.
Breve histórico: Sádico, agressivo, ganancioso, egocêntrico e mau. Murdoc ainda por cima diz que é seguidor de tudo que há de errado no mundo. Abandonado pela família, sofreu vários abusos pela pessoa que o criou, Sebastian J. Niccals.
Antes de Gorillaz, ele tocou em várias bandinhas que não vingaram. Depois de conhecer 2-D, numa série de incidentes, finalmente formou o grupo GORILLAZ junto com seu companheiro sem olhos.

Noodle
Nome “real”: Desconhecido
Origem: Japão
Instrumento: Vocal, guitarra.
Idade: 20 anos.
Breve histórico: É a única menina da banda e chegou ao grupo numa caixa da agência FedEX, em resposta a um anúncio colocado em um jornal, com 10 anos de idade. Na época, ela só sabia dizer “noodles (macarrão)” e por isso ganhou esse apelido.
Seu passado foi misterioso até voltar ao Japão e recordar tudo com umas palavras mágicas. Foi tida como morta depois do videoclipe “El Mañana” e até agora não se sabe com certeza se está viva ou não.

Russell
Nome “real”: Russel Hobbs
Origem: Estados Unidos
Instrumento: Bateria
Idade: 35 anos
Breve histórico: Ele é totalmente o contrário de Murdoc. Educado e diplomático, Russel é considerado a alma da banda. Gosta bastante de Hip-Hop e tenta sempre por alguma influência desse estilo no som do grupo. Diz a lenda que ele estudou na Escola para Superdotados do Prof. Xavier (X-Men) e foi expulso por meter a porrada em vários estudantes, pelo probleminha que ele costuma ter com possessões demoníacas.

Gorillaz foi criado em 1998 pelo líder da antiga banda Blur, Damon Albarn, junto com o desenhista Jamie Hewlett, criador do personagem de quadrinhos TANK GIRL. Na realidade, Hewlett foi o que teve a ideia inicial depois de perceber que não havia nada divertido vendo a MTV inglesa. Daí ele pensou: “O que poderia ser mais divertido que uma banda de "rock" de desenhos animados?”
Sendo amigo de Damon, em uma noite regada a álcool e outras substâncias alucinógenas, o projeto de Jamie vem à tona e os dois se põem a criar a estrutura que teria a banda.
A coisa prometia mesmo ser revolucionária... Uma banda virtual criada por um ex-rockeiro e um desenhista de HQ com uma carreira estável. O projeto tinha tudo para ser uma reviravolta que balançaria os alicerces dos mercados musicais, virtuais, comiqueiros, da TV, dos games e de um largo etc.
De fato, o primeiro álbum do grupo vendeu mais de 7 milhões de cópias (Ele também está no Guinness como o álbum mais vendido de um grupo virtual, como se eles tivessem competência, não é?).
Seguindo com essa incomum ideia, em uma ocasião, Damon e Jamie disseram que a intenção principal ao criar o grupo era sacanear todo o lixo que se podia ver na MTV. Por isso também, eles (Leáse Damon Albarn) dizem que gostam tanto de misturar e experimentar estilos diferentes nas músicas. A intenção era não ficar estereotipado como a maioria das coisas que existem no mercado fonográfico.
Com relação a canções o grupo teve um relativo êxito com singles como “Clint Eastwood”, “Tomorrow Comes Today”, “19-2000”, “Feel Good Inc.” entre outros...
Mas, com relação a mitologia da banda, os dois escorregaram feio e bateram (E ainda batem!) com a nuca no chão.
Absurdos como tentativas de roubar órgãos, infidelidade, abusos a menores, mortes e ressurreições, amnésias e outras tantas bizarrices são comuns na biografia virtual da banda.
Realmente a junção música-história é tão mal aproveitada pelos criadores que chega a se cansativo ler sobre o que acontece, ou aconteceu com o grupo. Algo raro de se ver no mundo da música... Geralmente o que os fãs mais curtem, depois das músicas, é a questão de saber detalhes de como foram criadas certas canções, como eles se conheceram e o cotidiano da banda... Nesse quesito, que poderia ser uma mina de ouro no caso de Gorillaz (no sentido financeiro e de entretenimento), a dupla acusa falta de criatividade e ambição. Parece que o grupo é simplesmente um capricho para expor seus delírios mais insanos... Que não são poucos.

O último disco da banda, “The Fall”, foi feito todinho no Ipad demonstrando a diversificada habilidade de Albarn em fazer experiências. Também inovaram na maneira de fazer o lançamento porque ele foi disponibilizado para download gratuito para alguns fãs e é possível ouvi-lo on-line mesmo no link http://thefall.gorillaz.com/.

Gorillaz é uma ideia bem bacana que dá margem a muita coisa legal dentro da cultura pop, seja como quadrinhos, música, vídeos, filmes e/ou qualquer outra coisa... Infelizmente, esse potencial não é tão bem aproveitado pela dupla criadora...

Reconheço que não curto a banda, mas acho que o projeto em si tem muita coisa divertida a oferecer aos fãs, mesmo com todos os disparates e exageros da equipe criativa. Ou, talvez, eles estejam na medida certa do que todo mundo quer ver e ouvir nessa nova juventude... A Geração Y, não é?

Damon Albarn
Nome: Damon Albarn
Origem: Reino Unido
Instrumento: Vocais, guitarra, piano, órgão, violino, Flauta doce, vibrafone, sintetizador, escaleta, baixo
Idade: 42 anos
Breve histórico: Líder do grupo Blur fez muito burburinho na década de 90 com o Britpop... Depois do fim da banda se meteu em vários projetos musicais das mais diferentes maneiras e terminou por criar o Gorillaz. Tem um disco com previsão de lançamento para este ano (2011) com o baixista Flea do Red Hot Chilli Peppers. Albarn é um expert em misturar sons e fazer duetos com os mais variados artistas do mundo pop.

Jamie Hewlett
Nome: Jamie Hewlett
Origem: Reino Unido
Instrumento: lápis e nanquim
Idade: 42 anos
Breve histórico: Ele é o criador da HQ “Tank Girl”, junto com Alan Martin, não teve muitos mais destaques na sua carreira como quadrinista, além de trabalhos com o escritor Peter Milligan. Depois de romper com sua namorada foi viver no apartamento de Damon Albarn e desse período de muita amizade e psicodelismo saiu a banda Gorillaz.
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Re: TEXTOS REVISADOS DA EDIÇÃO # 21

Mensagem por Kio em Seg Abr 25, 2011 3:44 pm

Jack desenha Jack
Por Paloma Diniz

É com muita alegria que trago esta matéria acompanhada de entrevista do meu Super Irmão Gêmeo Zan. Ops... Quero dizer, Jackson Herbert S. de Sousa ou apenas Jack Herbert, como ele assina profissionalmente seus desenhos. Eu o chamo de Zan e ele me chama de Jayna – como os Super Gêmeos da Liga da Justiça – pelo carinho de irmão que temos um pelo outro, e pelas muitas coisas que temos em comum, algumas são: a de sermos desenhistas, trabalharmos com histórias em quadrinhos e fazermos aniversário no mesmo dia. Eu sou a irmã mais velha com um ano de diferença (daí os apelidos heróicos).
Jackson iniciou sua carreira profissional em 2005, quando foi selecionado pela agência Glasshouse Graphics, para trabalhar no mercado norte-americano. Atualmente, Jackson é representado pela agência Art & Comics e é artista exclusivo da editora Dynamite Entertainment (empresa do Grupo Dynamic Forces).
Com um traço sólido e composição estável e completa, seu desenhos ganharam respeito e visibilidade. Este ano, meu irmãozinho foi chamado por Alex Ross para desenhar uma minissérie intitulada Kirby: Genesis. Escrita por Kurt Busiek, Kirby: Genesis estreará no próximo mês de maio, apresentando uma nova visão sobre personagens - como Captain Victory e Silver Star - e conceitos criados por Jack Kirby (1917-1994).
Na trama, a sonda espacial Pioneer 10, que levou para os confins do cosmos mensagens da Terra - na forma de sons, imagens e símbolos -, foi interceptada por uma civilização extraterrestre. Uma resposta é enviada de volta e isso trará profundas mudanças para os terráqueos.
Eu espero que seja lançado no Brasil.

FARRAZINE - Olá “Zan”. Tudo bem?
Jack Herbert: Olá “Jayna”.

FZ - Você começou a desenhar como eu? Riscando as paredes de casa e os livros dos pais?
JH - Só os livros mesmo, porque se eu riscasse as paredes minha mãe me matava (risos). Mas, desde pequeno, eu já desenhava minhas próprias HQ’s, de personagens de TV que eu curtia na época. Ia de Pica-Pau e Super Mouse a seriados japoneses como o Jaspion, Jiban e Jiraya...

FZ - Qual foi seu primeiro contato com histórias em quadrinhos?
JH - Meu primeiro contato com quadrinhos foi com gibis do Pato Donald e da Turma da Mônica (que o meu pai trazia quando vinha da capital, pois quando eu era pequeno morava numa cidadezinha do interior do Estado que não tinha banca de revistas). Mas confesso que só lia mesmo os da Mônica, pois tinha uma linguagem mais fácil de ser assimilada por crianças, e eu achava que os da Disney tinham muitos detalhes e era um pouco cansativo.

FZ - Quando foi que você decidiu: “vou desenhar histórias em quadrinhos”?
JH - Bom, eu sempre gostei de desenhar, então fui seguindo um caminho natural pra mim, e enquanto se é criança, os amigos ainda respeitavam e admiravam quem sabia desenhar e tal. Mas, de fato, só comecei a pensar em me tornar um quadrinista profissional quando a minha tia leu pra mim uma matéria que saiu no Jornal que dizia, na chamada, mais ou menos assim: “Meu nome agora é Mike Deodato Jr.” E foi o primeiro contato que eu tive com o Deodato. Fiquei maluco ao descobrir que dava pra viver de quadrinhos e, ainda por cima, desenhando os personagens que a gente mais gosta! Eu pirei! Lembro que na época eu tinha 9 anos. E a partir daí eu não parei mais de desenhar HQ’s. (risos)

FZ - Como foi sua jornada para ingressar no mercado de trabalho quadrinístico?
JH - Minha Jornada começou no ano 2000 quando eu tive o contato com outros quadrinistas daqui do Estado (o Made in PB), e também foi quando eu conheci o Mike Deodato Jr. que, nesse mesmo ano, trouxe a João Pessoa o David Campit. O Dave realizou a melhor palestra sobre mercado de quadrinhos americano que eu já vi. Nesse dia ele avaliou os portfólios de todos os quadrinistas que estavam lá, e nos mostrou com críticas “pesadas” como deveríamos proceder. Daí eu segui meu caminho, fiz faculdade, e no finalzinho do curso resolvi fazer uns testes pra uma grande agência de quadrinistas americanos (o ano era 2005), e na época fui aprovado, comecei a pegar meus primeiros trabalhos nos EUA, e de lá pra cá não parei mais.

FZ - Sabemos que todo e qualquer desenho é importante na carreira de um desenhista. Mas gostaria que você citasse alguns trabalhos que te marcaram profissionalmente.
JH - Com certeza, o trabalho que mais marcou pra mim foi Battlestar Galactica: Seazon Zero. Pois foi a minha primeira série mensal, e você receber a continuação do roteiro todo mês, poder ir desenvolvendo os personagens ao longo de 1 ano, vendo notícias, previews e reviews sobre seu trabalho... A sensação foi muito boa! Não esqueço!

FZ - Você ainda treme e transpira pelas mãos ao desenhar algo importante?
JH - Sim, com certeza, isso mexe comigo sim! Lembro que quando fui desenhar o Avengers Invaders, eu tive o primeiro contato com personagens famosos. Bom, estavam lá o Wolverine, o Capitão América, a Miss Marvel, o Homem Aranha, o Homem de Ferro... Mas todos eles estavam disfarçados de outros personagens, menos o Capitão América. Então você não imagina a sensação e o medo que tive ao desenhar o Capitão América pela primeira vez! Eu lembro com detalhes desse dia! Foi sensacional!


FZ - Como é sua jornada de trabalho?
JH - Ela sempre muda de tempos em tempos. Mas atualmente eu estou fazendo assim: acordo às 5 da manhã, vou caminhar na praia, volto pra casa e começo a trabalhar às 6h ou 6h30, respondo e-mails e atualizo redes sociais e/ou blogs, fico desenhando até a hora do almoço, descanso uma meia hora, e volto pra prancheta. E lá fico trabalhando até a meia noite, independentemente de ter terminado a página ou não.

FZ - Desenhar também é cansativo. Como você recupera as energias?
JH - Desenhar seria mais cansativo, não fosse a minha paixão pelos quadrinhos! Como diz o Ivan Reis: “eu me divirto com o processo de desenhar! E depois ver minha obra pronta e poder ler, é surreal!” Bom, eu recupero minhas energias aproveitando bem os finais de semana. Saindo e me divertindo muito. Adoro praia, cinema, boliche, confraternizar com os amigos... Isso renova minhas energias.

FZ - Crise de criatividade já aconteceu com você ou as contas pra pagar não te deixam ter crises de criatividade?
JH - Eu creio que já deve ter acontecido sim, principalmente quando se faz capas de revistas (risos). Mas tive que fazer assim mesmo (risos). Com os quadrinhos pode até afetar um pouco, mas nem tanto, já que fazemos os layouts com antecedência, e já nos layouts encontramos a energia da história completa! Você só tem que passar a limpo (geralmente 1 página a cada dia), a maior parte do que deveria ser criado, já está ali. Então você desenha normalmente, o que difere apenas, é que um dia se está mais inspirado que outros. Nesses dias você se supera, mas nos outros, você se mantém. Mas nada que prejudique o resultado final da revista.

FZ - Sabemos que publicações dependem de acordo entre editoras. Porém, há perspectiva de publicações em que você trabalhou chegarem às bancas, livrarias e lojas brasileiras? Até hoje eu espero por Red Sonja e Battlestar Galactica!
JH - Por enquanto, o único material que produzi, pude comprar numa banca daqui e ler foi o Avengers Invaders. Infelizmente, outras publicações minhas como Red Sonja e Queen Sonja, acho difícil ver por aqui, até porque as vendagens de uma minissérie da Sonja que veio ao Brasil há pouco tempo não foram muito boas. Mas estou bastante esperançoso que o trabalho que estou fazendo atualmente (o Kirby: Genesis) venha a ser publicado aqui no Brasil! Mas por enquanto, não há nada certo ainda, só esperança (risos).

FZ - Quais os quadrinhos que você está lendo ultimamente?
JH - Confesso que atualmente não estou lendo nada de quadrinhos, infelizmente. O último material que eu li foi o "Bando de Dois" do Danilo Beyruth.

FZ - Diga para os nossos leitores, futuros desenhistas, o que é necessário para ser um bom desenhista e ter êxito profissional?
JH - Bom, creio que vou fugir um pouco do: “desenhar, desenhar e desenhar” que todo mundo fala. Para se ter êxito e ser um profissional de “responsa”, você tem que estudar bastante! Desde linguagem corporal, cânones, desenvolvimento de personagens, anatomia (isso é uma parada que poucos dos profissionais realmente manjam), perspectiva, narrativa, desenvolver um bom estilo... Mesmo assim, mesmo estudando muito, isso corresponde apenas a 30%, os outros 70% é trabalho duro! Nesse ramo não adianta apenas o conhecimento teórico, é preciso que o artista saiba aplicar isso na prática.

FZ - Quando você puder, faça uma visita no Studio Made in PB! Estamos aprimorando a estrutura e acredito que você vai gostar das novidades!
JH - Claro, farei uma visita assim que possível! Obrigado.

Art&Comics International
@j4ckherbert (twitter)
http://jacksonherbert.deviantart.com (portfolio virtual)
http://jackh3rb3rt.blogspot.com (blog)
Fontes de Pesquisa:
http://jackh3rb3rt.blogspot.com/ - o blog do Zan com trechos dos textos de Sidney Gusman e Marcos Ramone.
Imagens do Orkut e Facebook do entrevistado.
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Re: TEXTOS REVISADOS DA EDIÇÃO # 21

Mensagem por Kio em Seg Abr 25, 2011 3:45 pm

Márcio Baraldi, ou Baraldão como é chamado pelos amigos (e como tomo a liberdade de chamá-lo, daqui por diante), é um artista completo. Não só pelo fato de roteirizar, desenhar, arte-finalizar, colorir e letreirizar seus quadrinhos, mas principalmente pela diversidade dos assuntos que aborda e a maneira como o faz. Você, leitor, provavelmente conhece artistas politizados, espiritualizados, roqueiros, vanguardistas, talentosos e acessíveis aos fãs. Pois, pense em um artista que reúna todas essas qualidades... Complicou? Pois eu digo: Baraldão é esse artista!
Nascido no ABC Paulista, em Santo André, filho de operários e trabalhador desde os 10 anos de idade, vendendo pipas (ou papagaios, como queiram) na feira-livre, Baraldão teve uma infância humilde, mas batalhador como é, foi um bom aluno e destinava uma parte dos ganhos para ajudar a família.
Cartunista desde os 14 anos publicando no Sindicato dos Químicos do ABC, Baraldão foi arrebatado pelo bom e velho Rock ‘n Roll ao ouvir “We Will Rock You”, do Queen, o que iria influenciar e, sobretudo, ditar o rumo de sua carreira.
Ganhador de vários prêmios, reconhecido por artistas e pelo público, o “sangue bom” (como ele se descreve) não tem parada ruim. Coloque um rock bem alto no seu player (eu vou de “Aqualung”, do Jethro Tull) e vejamos o que ele tem a nos dizer.

FARRAZINE - Antes de mais, vai um puta abraço quebra-costelas pra você, Baraldão. A busca por esta entrevista é o combustível de um ano inteiro pra nós. Você nos deu uma alegria muito grande.
A breve introdução que fiz não faz jus ao tanto de história que você tem, então, o que mais você acrescentaria sobre o Baraldão?
Márcio Baraldi - Faltou você dizer que eu sou o cartunista mais gato do Brasil (risos)! Muito obrigado pelos elogios e consideração. Como você sabe não é fácil ser cartunista no Brasil, então fico muito feliz quando alguém reconhece nossa batalha. Valeu mesmo!

FZ – No prefácio do álbum “Roko-Loko e Adrina-Lina – Hey Ho, Let’s Go!”, o Sidney Gusman (editor-chefe do site Universo HQ) diz que você é “um baita marqueteiro”, afinal acredita e divulga seu trabalho ferozmente. Você acha que está faltando esse tipo de atitude para um crescimento mais efetivo do quadrinho nacional?
MB - Quem me conhece sabe que eu sou defensor de uma legislação em prol do Quadrinho Nacional. Assim como existe a ANCINE, Agencia Nacional de Cinema, pra defender e incentivar o cinema brasileiro, deveria haver um órgão governamental similar para o Quadrinho brasileiro. Sem uma legislação dessa o Quadrinho Nacional jamais irá pra frente. Eu divulgo meu trabalho e mantenho o site Bigorna (www.bigorna.net) para divulgar o trabalho de todos os artistas nacionais, justamente porque a categoria não tem nenhuma ajuda governamental. Se nós tivéssemos uma política cultural voltada para o desenvolvimento do nosso Quadrinho, não precisaríamos nos matar tanto pra fazer o serviço de empresário e assessor de imprensa de nosso próprio trabalho. Simplesmente produziríamos e venderíamos Quadrinhos e deixaríamos essa outras funções para outros profissionais. Mas como , infelizmente, isso não existe no Brasil, somos obrigados a ser, cada um de nós, um “Exército de um homem só”!

FZ – O Roko-Loko completou 15 anos de publicações, ultrapassou os limites dos quadrinhos e virou boneco e o primeiro game 100% nacional para adolescentes, com temática Rock ‘n Roll. Pode-se dizer que é seu personagem predileto? Ou então, o mais rentável?
MB - Eu não uso essa expressão “predileto”, porque depois de tanto tempo desenhando eu já enxergo meus personagens como meus filhos, então sempre vou gostar de todos igualmente. Cada personagem tem uma personalidade e um discurso próprios, geralmente cada um é voltado para um público mais ou menos específico, então todos são importantes para mim e cada um me representa um canal de comunicação com o mundo. O Roko-Loko é um personagem muito importante pra mim porque foi o que estourou mais rápido e me trouxe (e traz) bastante público, além do que, com o tempo, eu descobri que há muito da minha personalidade nele. Considero que há personagens mais “vendáveis” que outros, e o Roko com certeza é muito vendável!

FZ - Como surgiu a idéia de desenvolver um game? Não é um produto que se veja com muita frequência sendo desenvolvido “na raça”. Como foi chegar ao disco de platina tripla (400 mil cópias) com ele?
MB - De fato, infelizmente o Brasil ainda não tem tradição de produzir games e esse foi realmente um produto pioneiro dentro do ainda virgem mercado brasileiro. Foi feito em apenas três pessoas, eu, o Sidney Guerra, designer, e o Richard Aguiar, programador de computadores, além da banda Exxótica, que fez a trilha sonora. O game deu uma repercussão danada, saímos em muitos jornais, revistas e programas de TV. Aproveitamos a boa repercussão e encartamos o game em dezenas de revistas especializadas em games, que somadas, venderam mais de 500 mil cópias. Depois, ainda aproveitamos e criamos uma versão remix, com mais fases e um documentário com o making-of do game, e lançamos tudo num DVD. Ou seja, o game gerou vários subprodutos e se multiplicou muito, alcançando muita gente. Até hoje a molecada pede pelo game ou pra fazer um novo. Eu tenho vontade de fazer mas ando super ocupado com meus livros e os 500 empregos que eu preciso ter para sobreviver (risos)! Mas, se Deus quiser, ainda faremos mais games, tanto do Roko como de outros personagens meus.

FZ – Em um determinado momento, você estava publicando em 11 revistas de rock ao mesmo tempo, e publica o Roko-Loko desde sua criação na Rock Brigade. Isso quer dizer que fidelidade sim, mas sem exclusividade?
MB - Na verdade é o contrário, exclusividade sim, mas fidelidade não (risos)! O que eu sempre fiz é criar uma série exclusiva pra cada revista, acho importante atrelar um personagem a um determinado veículo e público. Assim você cria vínculos, inclusive afetivos, desse personagem com ambos. O que eu não posso oferecer é essa fidelidade de trabalhar para apenas um veículo de determinado gênero, pois como eu disse, esta é uma profissão muito árdua que nos obriga a ter vários empregos simultâneos. Além do que é muito comum uma revista ver seu trabalho numa outra e te chamar pra colaborar também. Eu sempre fui extremamente profissional e sempre consegui atender todos os clientes sem misturar as bolas com ninguém. Mas infelizmente esse mercado da música encolheu muito e hoje deve haver no máximo metade desse número na ativa. Faz parte.

FZ - Você ilustrou momentos marcantes do cenário rock, por conta disso já sugeriram que fosse feita uma coletânea com essas ilustrações? Se não, que tal a idéia?
MB - Os livros já são essas coletâneas! Já saíram quatro livros do Roko-Loko e tem mais um pronto em casa, já saiu também o Humortífero, que são as histórias roqueiras que eu publicava na Metalhead. Além do Tattoo Zinho, que é de tatuagem e volta e meia flerta com o rock também. Ainda faltam reunir as séries “Maluco e Beleza”, que saía na Valhalla e agora sai na Roadie Crew, e o “Guerrilheiro da Guitarra”, que sai na Comando Rock. Todos já estão na fila pra virar livro também.

FZ – Quando a Opera Graphica encerrou suas atividades, você criou a “GRRR!.. (Gibi Radical, Raivoso e Revolucionário!) para ter maior controle sobre suas obras. O Nordeste e o Sudeste são as regiões com as maiores iniciativas neste sentido. Você acredita ser esse o caminho para o mercado de HQ’s nacional?
MB - Veja bem, eu resolvi ter meu próprio selo e bancar minha própria produção porque achei mais prático e também porque gosto de ficar no comando das coisas (risos)! Acho que a independência é muito saudável, mas nem sempre ela é opcional. É o que eu disse lá atrás, enquanto a gente não tiver um mercado sólido pro Quadrinho Nacional, que seja realmente rentável pro artista, muitos autores vão estar melhor na independência.

FZ – “Vapt Vupt – os passarinhos mais queridos dos quadrinhos” é seu 13º livro, lançado recentemente pela GRRR!.. com a HQM. Como está sendo a repercussão deste livro e o que mais está pra sair do forno? Tem algum projeto que podemos divulgar?
MB - Modéstia a parte o livro ficou maravilhoso e me deu um orgulho danado! Todo mundo está adorando, só recebo elogios. É um tipo de humor universal, para todos os públicos de qualquer idade e, ao mesmo tempo, é um humor inteligente, que respeita o QI das pessoas e lhe transmite positivismo e esperança. Acho que é o que está faltando atualmente, pois o mundo anda muito violento. Hoje em dia é rotina os pais matarem os filhos e vice-versa, matar a namorada, a esposa, parece que todo mundo enlouqueceu. Pra piorar as coisas, a mídia só transmite violência e futilidade pras pessoas, o que contribui pra torná-las cada vez mais alienadas e estúpidas. É um a situação que só vai mudar quando tivermos uma educação e uma mídia melhores e mais comprometidas com a paz mundial.
Com relação às novidades, este ano vou lançar o livro do Rap Dez, meu personagem rapper que é publicado há 8 anos na revista Viração, uma revista politizadíssima para adolescentes. Dá uma olhada aqui: www.viracao.org/artigo.php?id=2178
É o primeiro personagem rapper dos quadrinhos e suas histórias são hiper politizadas e toda em versos rimados, cada história aborda assuntos como aborto, drogas, ECA (Estatuto da Criança e Adolescente), racismo, política, educação, sexualidade, lazer, etc. É outro livro bem legal e positivista que vai agradar gente de todas as idades. Sai no segundo semestre e deve ter prefácio do rapper Rappin Hood.

FZ – Você corre atrás de trabalho como poucos que conheci. É essa a principal dica pra quem quer viver de quadrinhos? O que você recomenda pra quem está começando?
MB - Recomendo que tenha certeza se é isso o que quer da vida mesmo. Que estude sem parar e entre no mercado o mais cedo possível, comece de baixo, na humildade, e vá crescendo. Crie seus personagens, suas tiras e HQS e faça ao menos um blog para apresentar seu trabalho ao público. Faça amizade com os colegas de profissão e tenha autocrítica, melhore seu trabalho e a si mesmo sempre.

FZ – Ganhar o prêmio Ângelo Agostini é o objetivo de todo quadrinista ou cartunista que busque reconhecimento nacional. Você ganhou onze vezes! Consecutivas! Como fica sua cabeça com esse carinho por parte dos fãs?
MB - Veja só que curioso. Alguns “críticos” por aí ,que não vão muito com a minha cara, me acusavam de fazer campanha junto ao público para ganhar o Prêmio. Mas ano passado eu fiz campanha publicamente para NÂO VOTAREM em mim e ganhei assim mesmo!!! Isso prova que o público realmente gosta de mim, do meu trabalho e da minha autenticidade. Isso vale ouro num mercadinho dominado pela falsidade, inveja e hipocrisia como o dos Quadrinhos! E serviu pra calar a boca suja desses mal-amados também. Eu ganhei esses prêmios todos porque, modéstia a parte, os mereço, assim como muitos outros mais. Eu não fico deslumbrado com os prêmios, pelo contrário, sou bem consciente e pé no chão. Sou um cara que enfrentou mil adversidades, jamais desistiu de seus sonhos, sempre trabalhou duro, criou um trabalho alegre, inteligente e extremamente pessoal, correu atrás de clientes e de público, aprendeu a administrar sua carreira e a empreender, e que além de tudo, ainda arrumou tempo pra ser solidário com os colegas. Cá entre nós, caras como eu estão em extinção(risos)! Toda noite quando eu boto a cabeça no travesseiro eu só peço três coisas a Deus: Saúde, Trabalho e Bom-Senso. O resto deixa que eu conquisto!

FZ – Com livros prefaciados pelo Ziraldo e pelo Lula, com depoimentos gravados por músicos do Sepultura, Angra, Korzus e Exxótica, além da amizade com grandes quadrinistas como o Marcatti, quem falta abrir as portas para o Baraldão?
MB - A Mega Sena (risos)!!! Adoraria que me dessem alguns milhões (risos)! Brincadeiras a parte, eu estou realizado: tenho uma carreira muito honesta e bonita, tenho fãs e amigos por toda parte, conquistei tudo que uma pessoa normal precisa ter. E, sobretudo, construí tudo sem precisar abrir mão de minhas crenças, sonhos e ideologia. Sem precisar deixar de ser eu mesmo!

FZ - As mensagens que você busca passar com seus personagens, além de belíssimas, mostram uma constante preocupação com o bem-estar geral. Os Prêmios Jornalísticos Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos (ganhos em 2002 e 2004) coroaram essa busca?
MB - Com certeza! Isso é um reconhecimento a esses anos todos fazendo um trabalho voltado pra democracia e pra evolução do Ser Humano. Esse é um prêmio importantíssimo pra imprensa brasileira, um prêmio que não é meramente estético e sim político! Um prêmio dado a quem luta por Justiça social! Então é um prêmio que muito me honra e foi um prazer subir duas vezes no palco do Memorial da América Latina para recebê-lo. E o fiz nas duas ocasiões com camiseta do PT, o que gerou protestos dos conservadores, mas também centenas de aplausos esfuziantes para mim.

FZ - Você trata de espiritualidade, ecologia e questões sociais, através dos personagens Vapt e Vupt, com uma pureza que comove tanto crianças, quanto adultos. O processo criativo requer algum preparo especial? Algo meio “zen”?
MB - Quase. Acho que requer sensibilidade e vontade de mudar o mundo! Acho que cada injustiça, dor ou desgraça que vemos na TV ou debaixo de nossos narizes, se torna um combustível para criamos algo que seja uma reação aquele mal todo. O humor pode e deve ser usado para combater a maldade humana e tentar acelerar a evolução do espírito.

FZ – Versátil já sabemos que você é, mas como é trabalhar com personagens tão diferentes entre si? Roko-Loko e Vapt e Vupt habitam lados diferentes do seu cérebro?
MB - (Risos) Ótima pergunta! Talvez até habitem, mas lembre-se que há uma ponte ligando as duas metades do cérebro e uma não funciona sem a outra. Portanto imagine o cérebro como uma grande casa de vários cômodos, de ambientes diferentes, interligados por um corredor. Você pode muito bem começar uma história na cozinha e atravessar o corredor e terminá-la na sala. E quanto mais ampla, limpa e organizada for essa casa, melhor. Mais personagens e histórias caberão dentro dela! Gostou? Espero ter dado uma resposta tão inteligente quanto a pergunta (risos)!

FZ – Entre seus personagens, há aqueles que vieram representar uma classe ou profissão pela primeira vez nos quadrinhos. Podemos citar o Tattoo Zinho (tatuador), o Rap Dez (rapper) e o Mix Mouse (DJ) e todos tiveram boa aceitação. É preciso conhecer o ambiente para retratá-lo tão bem. Qual o feedback que você recebe desse pessoal?
MB - Ótimo retorno, senão já teria parado faz tempo (risos). Pra fazer isso você precisa ter feeling e procurar compreender o público pra quem você vai desenhar. Por isso costumo dizer que cartunista é uma profissão extremamente humanista. Você precisa gostar muito do Ser Humano pra exercê-la. E cartunista, como qualquer grande artista, é antena da raça, então faz parte da nossa vida sair na frente, ser pioneiros mesmo.

FZ – Continuando a lista de personagens, temos o Sabujo Vingador; o casal Euriko e Ritalinda; Alaôr Kaholic; Érica, a esotérica; Maluco e Beleza; Guerrilheiro da Guitarra e o Ultravesti. Em sua maioria, trazem alguma discussão social em suas histórias. É uma necessidade levantar essas discussões através dos personagens? Quanto de sua personalidade há neles, incluindo os outros já citados?
MB - Em todos os personagens há, mais ou menos, traços da minha personalidade. Nem todos os personagens são publicados em revistas politizadas, alguns saem em revistas de mero entretenimento, mas como eu adoro politizar tudo sempre dou um jeito de inserir um pouco de política ou crítica social nas histórias. Eu acho que dá pra colocar conteúdo critico em qualquer personagem, até num infantil ou erótico e sempre fiz isso. Digamos que eu faço isso por dois motivos: em respeito ao QI do leitor e pra me sentir em paz comigo mesmo!

FZ – Vanguarda é uma palavra que deve estar tatuada em alguma parte da sua alma. Falamos de vários personagens que foram os primeiros em seu segmento, alguns deles sob encomenda. Seguindo essa linha, há algum personagem e, consequentemente, algum tema proibido? Sobre o que você não escreveria?
MB - Eu estou na imprensa sindical esquerdista desde a adolescência e lá eu aprendi a falar de tudo quanto é assunto: aborto, índios, negros, mulheres, gays e lésbicas, deficientes físicos e mentais, justiça social, guerra, drogas, enfim, lá nunca teve assunto proibido! Aproveitando essa liberdade criativa que sempre me deram eu desenvolvi um trabalho sobre todos esses assuntos. Eu entendo que o humor é excelente para desbloquear a cabeça das pessoas e desmistificar qualquer assunto. Para o humor não existe tabus ou proibidos! O que eu não faço são coisas que eu considero de mau gosto ou contrárias aos meus valores pessoais, e me sentiria constrangido de fazer, tipo escatologia em excesso, idéias reacionárias e facistas, enfim, umas coisas que eu sempre vejo por aí, mas que não é minha praia. Não quero ser prisioneiro do “politicamente correto” mas sim, parceiro do bom-senso.

FZ – A fronteira do nosso país não te segurou, não é? Quais os outros países que estão publicando seus personagens?
MB - Já publiquei em revistas de Portugal e do Equador. Eu só não vazei pra outros países ainda porque não criei vergonha na cara pra estudar inglês decentemente até hoje. Na verdade não tive tempo pra isso, pois sempre trabalhei muito e me concentrei no mercado brasileiro, que é a minha prioridade mesmo. Publicar em outro país pra mim é apenas “um bônus”. Minha carreira sempre foi voltada pro povo brasileiro mesmo. Mas eu ainda sou novo, tenho muito chão pela frente e com certeza terei tempo para analisar essa questão com calma.

FZ – Voltando as suas origens, por conta de uma juventude um tanto atribulada, você procurou sua independência o quanto antes, prometendo não constituir outra família. Essa promessa ainda está em pé?
MB - Você tá bem informado, heim (risos)?!? Eu já constituí minha família faz tempo: são meus amigos, amigas e meus personagens. Casar, ter filhos, bater cartão, ter sócios e funcionários é algo que está totalmente fora de cogitação pra mim. Essas coisas todas são complicadas demais para mim. Definitivamente eu não tenho vocação para elas! Eu nunca me encaixei tão bem no Sistema assim. Como diriam os Ramones: “It´s not my place in the 9 to 5 world!”.

FZ – A Turma dos Químicos está sendo publicada desde o final dos anos 80, passando por revistas, jornais, cartazes, adesivos, gibis, camisetas e outros tantos materiais de divulgação. Eles têm um significado especial pra você, por representarem o começo da sua carreira?
MB - Sim, com certeza! Eu os criei quando era adolescente, para o Sindicato dos Químicos do ABC paulista, foi meu primeiro emprego no ramo e foi meu ponto de partida na carreira e na vida, por assim dizer. Quando eu era adolescente passei mais tempo dentro do Sindicato que em qualquer outro lugar. Minha vida era lá, eu vivi aquilo intensamente. Então sempre vou ter um carinho por aqueles personagens e por aquele local. Minhas raízes são do ABC paulista, isso sempre me marcará!

FZ – Claro que o Rock ‘n Roll não ficou só no papel, afinal você já tocou em banda. Como foi a experiência?
MB - Foi legal, mas foi coisa que fiz quando ainda era garotão mesmo, pois não ganhei grana com isso. Foi só uma forma divertida de passar a adolescência. Toquei em banda punk, pós-punk e de blues. Depois, entrei na faculdade de Artes Plásticas e larguei tudo, passei a me dedicar 100% ao trabalho de cartunista, pois já estava na idade de ganhar grana e pensar no futuro. Mas meu baixo, guitarra e tecladinho ainda estão lá em casa, empoeirados. Estão me esperando (risos). Quem sabe algum dia eu volte pra eles.

FZ - O que está rolando agora no player para responder minhas perguntas?
MB - Estou com uma pilha de Cds aqui do lado: Queen, Chameleons, Icicle Works, Chron Gen, Stone Roses, Morrissey, Engenheiros do Hawai, Exxótica e Spider Murphy Gang. Foi o que eu ouvi enquanto respondia a entrevista. São Cds mesmo, não é MP3. Acho que eu sou o único cara que ainda compra Cds (risos)!...

FZ – Puxando um pouco a brasa pra nossa sardinha, como foi que você nos conheceu e o que acha do formato que adotamos, de revista eletrônica? E, te explorando mais um pouco, que conselho nos daria?
MB - Conheci na Internet, que é a coisa mais sensacional que inventaram nos últimos anos. Uma ferramenta espetacular pra conhecer coisas e pessoas! Eu gosto de revistas eletrônicas e pra mim está claro que este será o futuro para todos. Lentamente o papel está sendo substituído pelos arquivos digitais. É mais barato, não envelhece, não rasga, não ocupa espaço e é ecologicamente mais saudável, pois não precisa derrubar árvores e depredar o planeta. Pra mim vocês estão no caminho certo, sintonizados na época atual . A revista está muito bonita e foi um prazer participar dela. Podem contar comigo sempre, tanto como leitor como colaborador.

FZ – Baraldão, espaço aberto pra você, meu chapa. Diga o que faltou ser dito, deixe um alô para os seus fãs e como encontrá-lo na web.
MB - Muito obrigado pelo espaço e consideração. Sucesso e saúde a todos! Pela democracia no mundo todo! Abaixo o Gaddafi e todo e qualquer ditador deste planeta. Por democracia e desenvolvimento em todos os países da África ,Ásia e do Oriente Médio. A América Latina já passou por essas ditaduras escrotas e sabemos muito bem a desgraça que isso é para as nações! Solidariedade a todos esses povos. Vamos todos lutar por um mundo livre, sem guerras, ditadores ou imperialistas escrotos! Está mais do que na hora da Humanidade aprender a ser feliz!
Visitem meu site e me achem lá: www.marciobaraldi.com.br
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