TEXTOS REVISADOS # 22

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TEXTOS REVISADOS # 22

Mensagem por Kio em Ter Maio 17, 2011 2:30 pm

Diálogos do Bráulio
Part 3 - Que diriez-vous de la grande gueule qu'il ne ferme jamais?


Saudações, prezados leitores de bom gosto e singular discernimento!

Como máxima autoridade contra os abusos utilizados nessa pseudorevista, venho novamente ratificar meu título de Ombudsman, defensor do povo, representante da cultura, Médiateur de la République, Síndic de Greuges (Oh! A cultura que domino me fascina!) com meus sedutores vocábulos na passada edição.

Como de praxe, farei meus comentários com minha peculiar forma de expressar opiniões, que tanto gosto produz aos meus seguidores (Que são muitos e não param de crescer, diga-se de passagem!). Minha opinião é a seguinte:

...

Sim! Sim! Sim! Eu sei... eu reconheço... Minha eloquência transborda por essas linhas não é verdade? Claro que sim, claro que sim...

Serei sincero, doravante, e devo admitir que não tive coragem suficiente para consultar as peripécias dessa prole quadrinística no número 21. Estive entretido lendo "Os Embaixadores", de Henry James, durante o lançamento da última abominação, ops desculpe... edição, quis dizer, desses estranhos meninos do "Lambda-Lambda" Club.

Entretanto, posso destacar na revista detalhes que me chamaram atenção a partir da capa da mesma. Aparentemente, houve uma HQ sobre um senhor chamado Justiceiro (?). O que significará esta destemida nomenclatura? Será que também escrevem quadrinhos para os dedicados a justiça com as próprias mãos, ao onanismo, ao cinco contra um? Oh Deus, não existe limites para o absurdo ou foi uma HQ didática? Prefiro não ouvir resposta a essa questão.

Sigo divagando sobre a capa... Havia outro gibi chamado "Cidade Nua", onde muito me temo tivesse relação com nosso já comentado “Justiceiro” e seu particular modo de “manejar” a sua barbárie. A continuação é destacada a participação de vários cidadãos sorridentes em entrevistas que, supostamente, teriam a mesma alegria (em ironia, ironia)!

Por fim, não deveria seguir comentado algo evidentemente ridículo, muito apesar de minha designação oficial como colunista ser justo esta. No entanto, acredito veementemente que a cada edição melhoro meu talento de convencer, exaltar ou comover os leitores, escrevendo essas linhas tão cativantes.

É por este motivo, singelos pimpolhos, que incentivo a leitura da pseudorevista em questão.

Baixem, leiam, divulguem!

Mas lembre-se que somente vale a pena até a página 2, logo após o Editorial, que é onde se podem encontrar os melhores textos escritos por um sujeito culto que escreve com esmero e paixão chamado Bráulio Taumarturgo Vaz Te, que por acaso do destino, vem a ser eu mesmo!

Fico, tranquilizando meu clamor por continuar nosso monólogo, sendo sinceramente
Vosso, Bráulio


Última edição por Kio em Qua Jun 22, 2011 12:27 pm, editado 1 vez(es)
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Re: TEXTOS REVISADOS # 22

Mensagem por Kio em Ter Maio 17, 2011 2:32 pm

ENTREVISTA EXCLUSIVA COM THOR, O DEUS DO TROVÃO

Foi muito difícil conseguir um espaço na apertada (uia) agenda do mais novo astro de cinema de Hollywood, que além de ser super-herói, membro dos Vingadores e príncipe de Asgard, é médico nas horas vagas (só não conte isso pra ninguém, é segredo... ops!). Mas Thor Odinson cedeu alguns minutos para responder algumas perguntas da redação insana do FARRAZINE. Então procurem um lugar seco e protegido e curtam essa tempestuosa entrevista!

FARRAZINE: Oi, Tudo bem? Por qual assunto você gostaria de começar?
THOR - Sobre quaisquer assuntos desde que não sejam sobre as minhas lindas madeixas loiras. Eu já disse para o pai Odin: o cabelo é meu e corto se quiser. E não, não direi qual o condicionador que uso, nem o segredo desse cabelo tão lindo e sedoso...
FZ - Hã... Notei que você não fala mais complicado como antigamente. O que aconteceu com o “tu, vós” que eram ditos nas histórias antigas?
THOR - Depois que o velho chato do Odin morreu, decidimos que não precisávamos mais ficar de frescura no palavreado, mano. Até porque a maioria dos roteiristas hoje em dia nunca leu nada na vida a não ser gibis, e se atrapalhavam todos na hora de escrever os diálogos...
FZ - Quais outros hábitos de Asgard mudaram depois que Odin morreu?
THOR - O pessoal tem se divertido bem mais à noite, se é que me entende. Sem a vigilância de um velho que tudo ouve e tudo vê. Era o maior constrangimento dar um role com a Sif e a Encantor pelas moitas do reino eterno... Sem contar que ele era contra eu pegar a Jane Foster. Agora tô na área novamente, hehe.
FZ - Melhorou tanto assim sem o Odin? Não tem nem um ponto negativo?
THOR - O único ponto negativo é o bando de bastardo que tem batido na minha porta pedindo um pedaço da herança... O Balder já descobriu que também era filho do velho e me levou a coroa, o desgraçado! Pior que segundo a mitologia nórdica, Odin tinha uns sete filhos e se eles se ligarem da sua concepção divina, adeus tesouro real! Aquele caolho velho bem que podia ter aprendido a usar camisinha!
FZ - Engraçado que o Loki, que era o único considerado teu irmão até pouco tempo, nem filho do Odin era de verdade...
THOR - Pois é, não bastasse os bastardos, ainda tem esse peste que o velho adotou só porque matou o pai do pirralho. Mas o pior não é o Loki. O pior são os filhos dele.
FZ - Loki tem filhos?
THOR - Claro. Na mitologia nórdica Loki é pai de Hela, da serpente de Midgard e do lobo Fenris... Eu sou tio dessas criaturas medonhas, já pensou um negócio desses? Uma vez fui passear com o jovem Fenris, e as minas da praia disseram que ele era a cara do tio! E desde que eu presenteei a serpente de Midgard com um par de calças, o ingrato quer me matar! Veja que absurdo! Só porque eu não comprei do tamanho dele...
FZ - Loki é pai de uma serpente e de um lobo???
THOR - Pois é, o tarado transava com qualquer coisa nos velhos tempos... Mas isso não é o pior. Além de ser pai, ele também é mãe.
FZ - O Loki é mãe???? Como assim?
THOR - Se vocês ignorantes não lessem só os gibis da Marvel, saberiam que, na mitologia nórdica, Loki é mãe do cavalo Rompe-Tormentas, o corcel de oito patas de Odin.
FZ - E quem é o pai? Tenho até medo de perguntar...
THOR - Ahah, é muito engraçada essa história. Loki se transformou numa égua, provavelmente pra aprontar alguma contra mim, então veio um cavalo por trás e... ZAP!
FZ - Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.
THOR - kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.
FZ - E aqueles chifres que ele usa?
THOR - Deve ser por causa do cavalo... Ninguém nunca mais ouviu falar dele depois disso...
FZ - kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
THOR - kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
FZ - Não conhecia esse teu lado piadista. Isso é por conta do mulso que está bebendo?
THOR - Pois é, não me deixam beber nos gibis, então aproveito pra encher a cara nas horas de folga. Afinal eu sou um viking, porra!
FZ - Engraçado você dizer isso, na mitologia viking você era ruivo e usava barba...
THOR - Naquela época eu usava barba mesmo, porque usar barba era coisa de homem. Mas hoje em dia as minas enchem o saco com a barba roçando na cara delas, então tenho andado de cara limpa, embora às vezes tenha uma recaída. Já a cor das minhas madeixas, bom, teve uma época em que era moda usar tintura em Asgard...
FZ - Muita gente ainda reza pra você depois de todos esses anos?
THOR - Pior que só recentemente voltei a ter fiéis. Nem os gibis tinham conseguido fazer pessoas verem a luz, ou melhor, o trovão da verdadeira religião. Mas meses atrás, finalmente as preces começaram...
FZ - Sério? E você sabe da onde?
THOR - Claro. Dos estúdios da Disney, o que tem de executivo rezando pra que o filme onde investiram milhões não dê prejuízo não tá no gibi!
FZ - E aí, como é ser um astro de Hollywood?
THOR - Tive que me segurar pra não rir da roupa do Anthony Hopkins, mas acho que depois desse filme serei finalmente um cara da primeira divisão. É humilhante que gente como o Blade e o Motoqueiro Fantasma sejam mais famosos do que eu. Eu sou da trindade, porra!
FZ - Mas a trindade não era o Superman, Batman e Mulher...
THOR - Da trindade da Marvel, seu burro. Eu e meus amigos, Capitão América e Homem de Ferro.
FZ - Que já não são tão amigos assim...
THOR - A culpa é daquele bêbado do Tony Stark... Como a maioria dos alcoólatras, ele parou de beber pra fazer merda quando sóbrio...
FZ - E o que você acha do Capitão?
THOR - Um indivíduo valoroso. É o único mortal que conseguiu erguer o meu martelo.
FZ - Como é? Ele... O Capitão... Pegou no seu martelo?
THOR - Sim, ele se provou digno.
FZ - Hu-hum. Entendo... E aposto que ele deixou você lustrar o escudo dele também, em troca, né?
THOR - Não vejo porque eu deveria... eu realmente não consigo entender a linguagem de vocês mortais, mesmo após todos os milênios...
FZ - Deixa pra lá... eeheheheh... É bom você não entender mesmo... kkkkkkkkk...
THOR - Estarias por acaso tirando sarro da minha cara...?
FZ - Só porque o capitão ergueu o teu martelo? Não, é claro que não... eeheheh... não, não, estou não, kkkkkkkkkkkk...
THOR - Se tu não parares de rir, juro-te que vai te arrepender...
FZ - Tu começou a falar complicado de novo... kkkkkkkk... ehehe....
THOR - Eu estou avisando-te!
FZ - Calma, calma... ehehe... eu vou... ehehehhahahah... eu vou parar... juro... ehheh... ahah.... Não, não pega esse martelo... Martelo... ehehehehe... Não! Não, eu estava brincando! Ai! Ui! Ai!!!!!

Infelizmente a entrevista acabou por aqui, o leitor pode bem imaginar o motivo! Mas não temas, fiel peregrino! Os intrépidos repórteres deste valoroso alfarrábio continuarão percorrendo a senda do perigo e da aventura para trazer-vos muitas outras matérias épicas como esta!
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Re: TEXTOS REVISADOS # 22

Mensagem por Kio em Qua Maio 18, 2011 4:18 pm

ALAN MOORE & HOLLYWOOD: UM CASO DE “AMOR”...

Na história de cinema provavelmente nunca houve uma história de amor e ódio tão interessante quanto Hollywood e Alan Moore. Os estúdios já fizeram cinco filmes baseados em histórias em quadrinhos do autor que é considerado o melhor do gênero, sem contar os filmes trash do Monstro do Pântano, cuja série de TV teve até alguns episódios baseados nas HQs que o barbudão escreveu.
No entanto, como é fato conhecido, Alan Moore odeia tudo isso! Ele simplesmente odeia os filmes e vive maldizendo Hollywood sempre que alguma obra sua vai pra telona! Tanto que, nos filmes mais recentes, ele tem pedido até pra retirar o seu nome dos créditos.
Em suma, Hollywood vive convidando Alan Moore para sair, provavelmente apaixonada pelo trabalho dele. Mas o barbudo despreza a pretendente, mas convenhamos, esses filmes foram retumbantes FRACASSOS de crítica e bilheteria. O leigo pode até pensar: “Mas que filmes ridículos. Então esse é o maior autor de HQs de todos os tempos? Putz, quadrinhos é subliteratura, coisa de retardado mesmo!”
Essa pode ser a razão do ódio de Alan Moore por Hollywood. Afinal, esses filmes NÃO TÊM NADA A VER com o que ele escreveu. Só o título, e olhe lá. Afinal, Hellblazer, o cara que desafia o inferno, foi preterido pelo sobrenome do personagem, Constantine.
Mas o que exatamente é diferente dos quadrinhos pro cinema? Vamos apresentar uma breve lista, para refrescar a sua memória (ou aguçar sua curiosidade, caso você não tenha lido os quadrinhos originais):

A LIGA EXTRAORDINÁRIA
No cinema: O saudável Alan Quatermain é convocado pelo governo inglês para liderar uma equipe de pessoas extraordinárias, formada pela vampira Mina Harker (do livro Drácula), Capitão Nemo, Homem Invisível, Dorian Gray, Henry Jeckyl e Tom Sawyer para combater o misterioso Fantasma, que pretende derrubar o governo inglês. No final, Quatermain morre dizendo pra Tom Sawyer que o próximo século é do povo americano (blergh, Alan Moore que é inglês, deve ter vomitado nesta parte).
Nos quadrinhos: É Mina Harker (que não se tornou uma vampira) quem reúne e comanda as pessoas extraordinárias, entre elas um combalido Alan Quatermain consumido pelo vício do ópio. Eles têm que roubar um elemento antigravitacional do assustador Fu Manchu, que pretende atacar a Inglaterra. Mas, na verdade, eles foram manipulados pelo maquiavélico Prof. Moriarty, arquiinimigo de Sherlock Holmes. Ou seja, a ameaça vem de dentro do próprio governo inglês, que colocou o seu serviço secreto nas mãos de um facínora.

DO INFERNO
No filme: Johnny Deep é o Inspetor Aberlyne que tem poderes paranormais. Ele se envolve romanticamente com a prostituta Mary Kelly, que está marcada para morrer por ter chantageado a coroa inglesa com um grupo de amigas, já que uma conhecida delas teve um caso e uma filha bastarda com o príncipe Albert. A Rainha Vitória pede pro médico da família, Dr. William Gull, cuidar delas. E assim ele se torna JACK, O ESTRIPADOR. No fim, Mary Kelly escapa, forjando sua própria morte.
Nos quadrinhos: O principal personagem não é o inspetor Aberlyne, mas justamente William Gull, no caso, Jack o Estripador. O livro também traz uma série de especulações culturais e esotéricas sobre a história de Londres e a maçonaria. Aberlyne ODEIA prostitutas, principalmente quando uma com quem conversava – mas não fica claro se era Mary Kelly – deixa-o na mão. Ele faz parceria com um psíquico farsante, que não é paranormal coisa nenhuma, mas acerta quando acusa, por motivos pessoais, o Dr. William Gull. Mary Kelly não escapa, como na história real, embora Alan Moore abra realmente uma brecha para uma reinterpretação. O que nos quadrinhos é sutil, no cinema ficou definitivo.

CONSTANTINE
No cinema: John Constantine é um psíquico que foi condenado ao inferno quando tentou se matar. Pelo visto, Deus não perdoa, apesar de ele ter se tornado um exorcista e combater os demônios do Inferno. John é americano, mora em Los Angeles, é gentil com as mulheres, se sente atraído pela policial, mas não dá um único beijo nela. E quando consegue ser curado do seu câncer, ele para de fumar.
Nos quadrinhos: John Constantine é um canalha: ele sacrifica seus amigos, se isso for preciso na sua guerra contra o inferno... e o CÉU. É isso, ele não está do lado nem dos demônios, nem dos anjos. Ele está condenado ao inferno porque inadvertidamente condenou a alma de uma criança inocente por pura arrogância, num exorcismo que falhou. Ele não é paranormal, nem especial, conforme ele diz é “só um sujeito esperto”. Ele também é um inglês, loiro, que gosta de tomar um porre às vezes, e um grande conquistador, com uma lista invejável de mulheres, que sempre terminam mal com ele. Quando consegue se curar do câncer, a primeira coisa que ele faz é fumar um cigarro, afinal ganhou dois pulmões novinhos!

V DE VINGANÇA
No filme: V é um sujeito misterioso, que tenta derrubar o regime de uma Inglaterra futurística. Ele salva a jovem Eve e logo começa um romance implícito – que não se realiza – entre os dois. Ele inspira a população a se rebelar, e assim se libertar do fascismo.
Nos quadrinhos: A principal diferença é a ideologia do personagem, onde fica claro que é anarquista. Não fica definido se V é homem ou mulher, assim como a relação com Eve é puramente paternal – a ponto de ela especular se ele não é o pai dela, que desapareceu. À medida que o policial encarregado investiga o caso, descobre que a guerra de V contra a ditadura é mais pessoal do que ideológica: ele foi vítima de abusos num campo de concentração, e sua vingança é tão completa que não se resume a só matar seus torturadores, ele quer também matar sua ideologia. No final, ao invés de retirar a máscara, Eve descobre quem é V: ela mesma, que assume sua identidade e continua a revolução.

WATCHMEN
No cinema: Super-heróis aposentados, mas em plena forma física, voltam à ativa para enfrentar um assassino de mascarados. Provavelmente é o filme mais fiel a uma HQ do Moore até agora, embora seja fiel só uns 70%: as diferenças estão no grande numero de coisas omitidas, e na narrativa mais rápida, além da violência de videogame das lutas. O novo final também não faz sentido do ponto de vista político. O maior erro da película foi tratar como se fosse mais um filme de ação uma das HQs mais dramáticas e sérias já escritas até hoje.
Nos quadrinhos: O Coruja está gordo, a Espectral é uma piranha insegura, Roscharch é louco, o Comediante é um canalha, e Adrian Veidt , assim como o inferno, está cheio de boas intenções, embora ele tenha sucesso no final. O principal trunfo da HQ original está na humanidade não só dos protagonistas, mas também dos coadjuvantes, que foram totalmente obliterados da telona. São os pequenos detalhes que fazem a beleza de Watchmen. Mas em Hollywood, tudo tem que ser épico e barulhento.

“EU NÃO QUERO O MEU NOME ENVOLVIDO NESTA PORCARIA”
Quando Alan Moore vendeu os direitos de A Liga Extraordinária e Do Inferno para o cinema, ele estava numa grande pindaíba financeira, isto é fato. Mas ele também ainda tinha alguma atração por Hollywood. No final dos anos 80, Moore chegava a comentar, animado, a adaptação de Watchmen pro cinema, inclusive sugerindo atores e diretores para o filme.
As coisas começaram a mudar quando os quadrinhos viraram filmes. A Liga Extraordinária não tinha nem sequer o mesmo enredo da história original que, segundo Moore, foi a HQ mais cinematográfica que ele já escreveu: “Quando escrevi a HQ pensei na estrutura de um filme, em três atos: apresentação dos personagens, missão original e a reviravolta”. Ainda assim, os produtores modificaram os personagens para eles ficarem mais “simpáticos” e exigiram uma nova trama mais “acessível” (leia-se: menos inteligente).
Nesta altura já era tarde demais para parar DO INFERNO, que já estava praticamente filmado. A obra em quadrinhos realmente é hermética, e não é pra qualquer um. Sua adaptação pro cinema seria realmente um desafio. Os produtores preferiram criar uma nova trama, aproveitando uma ou outra ideia, e remodelando completamente o caráter dos personagens.
Diante disto, Moore chegou à conclusão que o problema não eram os diretores e roteiristas, mas a INDÚSTRIA de Hollywood. Por mais talentosos e de boa vontade que possam ser os sujeitos que dirigem e escrevem os filmes, as necessidades comerciais da indústria irão impor mudanças com objetivos mercadológicos em personagens e tramas. Por isso, um filme nunca iria ser fiel a qualquer HQ sua, ainda mais se lembrarmos que Moore é um esotérico anarquista, extremamente crítico ao stablishment americano.
Por isso, Alan Moore pediu que seu nome fosse retirado dos créditos dos filmes que apareceram dali em diante: Constantine, V de Vingança e Watchmen. “Mas espera aí, se Alan Moore não quer as adaptações, porque vendeu os direitos”? Bom, a questão é que os direitos não pertencem mais a ele. Nos anos 80, quando era praticamente desconhecido, teve que trabalhar pra grandes editoras de quadrinhos – no caso, a DC Comics – que comprava automaticamente os direitos de quem criasse algo pra eles. Moore tem direito a alguns copyrights, mas fundamentalmente, quem administra os personagens é a Warner – proprietária da DC.
Ao abrir mão do seu nome nos créditos, Alan Moore abriu mão do DINHEIRO que deveria receber, que fique bem claro. Ele repassou de bom grado a sua porcentagem para seus parceiros desenhistas. Essa postura aumentou em muito seu crédito entre inúmeros fãs, afinal são poucos os artistas hoje em dia que não se prostituem por um pouco de dinheiro.
Mas como Alan observou: “estou com cinquenta anos e não vejo como mais dinheiro do que já tenho me seria útil”. Moore, que se considera uma espécie de “xamã”, vive desde sempre na pequena cidade de Northampton, de onde pretende jamais sair. Uma vez que ele tem tudo que quer na vida, realmente, pra que abrir mão do que acredita?
Para o “mago inglês”, suas histórias foram pensadas para serem histórias em quadrinhos, de forma que muito se perderia numa adaptação. Ele não é contra o cinema propriamente dito, mas não gosta da indústria de Hollywood, que “entrega tudo mastigado, não exigindo inteligência, nem participação do telespectador”. Bem ao contrário das suas HQs, que na maioria exigem releituras e mais releituras para serem mais bem apreciadas.
Por essas e outras, ao invés de ver o filme, Moore convida as pessoas a procurarem outras mídias, como as histórias em quadrinhos, e descobrirem novos mundos de cultura e entretenimento, que despertem novas sensações e pontos de vista.
Sobre o cinema, ele é categórico: curte muitos filmes, mas prefere obras originais, não adaptações. Moore acredita que os diretores e roteiristas usariam melhor seu talento e criatividade criando coisas novas, mesmo dentro das amarras de Hollywood, do que dilapidando e desfigurando as obras dos outros.
Por isso, se você gostou muito de um gibi, porque estragar suas boas recordações com um filme ruim? “Leia o gibi de novo”, recomenda Alan Moore. Ou leia outro gibi, afinal, há muitos quadrinhos bons por aí, não só de Alan Moore, e não há porque perder tempo numa adaptação RUIM de uma história que você já conhece, se você pode gastar essas duas horas lendo alguma coisa que preste, não?

O QUE PODE VIRAR FILME E O QUE NÃO!
Se depender de Alan Moore, nada do que ele possua os direitos autorais vai virar filme. O problema é o material que ele produziu para a Image ou a DC Comics, aí o buraco é mais embaixo. Veja uma lista dos trabalhos mais populares de Alan Moore e porque eles podem virar filme ou definitivamente jamais o serão:

MONSTRO DO PÂNTANO – Os direitos pertencem a DC Comics. Por isso, se a Warner quiser fazer filmes baseados nas HQs do mago inglês, sim, há possibilidades!
MIRACLEMAN – Alan Moore abriu mão dos direitos, que reverteram para o criador Myke Anglo, e a família dele anda atrás de grana e vendeu os direitos pra Marvel! Em suma, se a Marvel quiser adaptar a obra pro cinema, a chance é grande...
A PIADA MORTAL – A Bat-História mais famosa do Coringa pode virar filme se a Warner assim o quiser, afinal Batman é propriedade da empresa.
CAPITÃO BRETANHA – O personagem pertence à Marvel Comics, portanto... Olha a Disney aí!
PROMETHEA – Aqui o buraco é mais embaixo. O gibi foi licenciado pra ser publicado pela DC Comics, mas os direitos pertencem a Alan Moore. Sem o crivo dele, nem pensar!
TOM STRONG – O mesmo caso de Promethea: todos os personagens pertencentes ao selo da ABC, da WildSTorm, somente terão os direitos vendidos para o cinema se Alan Moore quiser.
TOP TEN: Também outra marca da ABC, o mesmo caso acima.
SPAWN: Qualquer coisa que Moore escreveu para o universo do Spawn pertence a Todd McFarlane, portanto ele vende o que quiser.
WILDCATS: Qualquer coisa que Alan Moore escreveu ao chamado “WorldStorm” (o universo de super-heróis da Wildstorm) pertencem agora a DC Comics (Jim Lee vendeu os direitos). Por isso, a Warner é dona por tabela de mais essa obra do barbudão!
LOST GIRLS: Alguém a fim de fazer um filme erótico sofisticado? Então é bom procurar outra freguesia, porque Alan Moore e Melinda Gebbie dificilmente irão vender os direitos!
LIGA EXTRAORDINÁRIA: Foi Alan Moore quem vendeu os direitos pra Fox. E se arrependeu amargamente. Dessa forma, vencido o contrato com a Fox, é improvável que revenda os direitos de adaptação para outra empresa e permita que seus personagens sejam novamente vilipendiados.
A BALADA DE HALO JONES: Se os estúdios de Hollywood quiserem mais Alan Moore, uma forma de burlar a má-vontade do barbudão é negociar com a Egmont e a Fleetway, editoras inglesas de quadrinhos onde Alan começou sua carreira! Ele escreveu algumas séries de ficção cientifica para a revista 2000 AD, da qual A Balada de Halo Jones é a mais cinematográfica.
SQUIZZ: Uma espécie de “versão adulta” da fábula de E.T. O Extraterrestre. Também está dando sopa para Hollywood, já que os direitos não pertencem a Moore!
DR & QUINCH: A série de humor de Alan Moore e Alan Davis também pertence às editoras inglesas. Se você é um executivo de Hollywood e está lendo isso, corra enquanto é tempo!
SUPREMO – Os direitos pertencem ao criador do personagem, Rob Liefeld, e todo mundo sabe que o cara é uma “prostituta barata”. O máximo que Alan pode fazer é chiar e pedir pra tirar o seu nome dos créditos... de novo!
A VOZ DO FOGO – Uma das razões que Alan vem se dedicando mais a prosa – o novo romance, Jerusalém, está pintando por aí – é que os direitos de adaptação pertencem exclusivamente a ele. Numa posição que só precisa das editoras para publicar, ele já deixou claro que não irá mais produzir material “alheio”. Só autoral. E assim, Hollywood pode esquecer, pelo menos enquanto ele estiver vivo. Seus herdeiros, o papo já é outro...

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Re: TEXTOS REVISADOS # 22

Mensagem por Kio em Qua Maio 18, 2011 4:18 pm

AS AVENTURAS DE EDUARDO CARCARÁ, AGENTE DA ABIN

Seu nome é Carcará. Eduardo Carcará. Trabalha para a Agência Brasileira de Informações. Ele cuida da apuração de informações cruciais para a segurança do país. Não é fácil. O sistema de busca do Google anda cada vez mais atulhado de lixo inútil, Eduardo, às vezes, fica horas numa pesquisa que não levará a nada; Passa noites em claro invadindo sistemas de segurança estrangeiros; Lê todas as matérias de todos os portais de notícia (bendito seja o tradutor Babylon!). E ainda acha tempo pra jogar Counter Strike na rede, porque um agente da Abin deve se manter bem treinado.

Eduardo Carcará viaja bastante por causa da sua profissão. Semana passada esteve num simpósio de informática em Iracema do Norte. E teve aquela vez que visitou Passo Fundo. Tudo pago pelo governo! Uma vida de luxo essa de agente secreto.

Claro que ele faz sucesso com as mulheres, como todo espião faz. Principalmente quando lhes dá notas de 50. É o rei dos inferninhos da Lapa. Elas o adoram. Principalmente porque ele é um espião, paga pra espiar, nada mais.

Carcará só joga pra ganhar. Por isso não joga pôquer, bilhar, dominó, futebol, tênis, xadrez, ou qualquer esporte que seja evidentemente ruim. Ele gosta de jogar paciência, no computador.

Assim como James Bond, Carcará só anda em carrão. Dirige atualmente um Galaxie 1985 e ocupa duas vagas de estacionamento no prédio onde mora. Ele tem que dar um por fora pro síndico mantê-lo com essa regalia. Ele bem que gostaria de trocar a merda deste trambolho, mas seu salário ainda não permite.

Um dia, ele sabe, será designado para sua grande missão. Irá salvar a vida do presidente, ou então pegar uma organização terrorista, como a Espaço Renascer. Será condecorado e aplaudido na TV. Seus ex-colegas de escola e universidade irão dizer: “Eu conheci o Eduardo Carcará”. Sua mãe irá chorar: “Esse é o meu filho!”. Seu pai se gabará para o pessoal do bocha: “Tudo que ele sabe aprendeu comigo”.

Mas então seu chefe lhe dirá: “Não Carcará, você é um agente secreto. O segredo é seu trabalho”. Por isso nada de ser aplaudido na televisão. Seus ex-colegas de escola não se lembrarão dele, e os da universidade se perguntarão: “Por onde anda o Carcará?”. Sua mãe irá sorrir: “Meu filho ainda vai me dar muito orgulho”. Seu pai se desculpará para o pessoal do bocha: “Esses jovens de hoje em dia não sabem aproveitar. Deus dá asa a quem não sabe voar!”.

Então por que Eduardo Carcará entrou para a Abin? A culpa, como sempre, é dos pais: “Faz um concurso público, meu filho. Dá estabilidade. Dá segurança. Tá com a vida feita!”. E Eduardo fez. O salário parecia bom, e ele jamais ficaria desempregado. “Uau, Abin, vou ter alguma ação”. Mas a maior ação que já teve foi naquele dia em que achava que estava soltando um peido, e se enganou redondamente. Sair do prédio sem que ninguém notasse as calças manchadas foi uma verdadeira aventura. Eduardo teve que ser mais secreto do que nunca.

E falando em merda, já são dez anos dessa. Entra, bate cartão, mata o tempo no serviço. Bate cartão, sai, almoça. Dá uma caminhada pra digestão. Entra, bate cartão, toma o cafezinho pra estancar o sono pós-almoço. Mata mais tempo. Bate o cartão. Sai. Volta pra casa, passa no mercadinho se não tiver comida em casa. Compra um congelado, uma bebida se estiver deprimido. Joga o congelado dentro do microondas. Forra o estômago enquanto assiste televisão. Enche a cara, ou, dependendo da disposição, no caminho do mercadinho passa na locadora, e pega um filme pornô. Ao invés da bebida, hoje é dia de bater uma punheta. Vai dormir embriagado, de uma forma ou outra. Às sete horas da manhã o despertador do rádio relógio vai insistir pra fazer essa merda tudo de novo.

Eduardo Carcará não aguenta mais. Ele é um agente da Abin, por deus, não um simples funcionário público. Um espião! Se as pessoas soubessem... Mas quando ele conta, os homens riem, as mulheres ficam entediadas. Desprezam um homem que tem nas mãos a segurança nacional! Quer dizer, tinha, porque uma vez lhe deram uma pasta, e ele colocou em algum lugar no escritório, onde nunca mais conseguiu achar. Ele deu o alarme de roubo. Foi uma algazarra, chamaram até a polícia federal. E procuraram, procuraram, procuraram por dias. Até que quando menos esperava, o Carcará achou a pasta dentro de um casaco velho, que não usava mais porque era verão. O inverno teve que voltar para aparecerem os documentos. Ops, que bem há de trazer essa informação? O que se foi, se foi. Os documentos viraram uma fogueirinha de papel. A PF os procura até hoje.

Mas quem já não deu seus deslizes?

Carcará, Eduardo Carcará, agente da Abin. É claro que esse não é seu nome verdadeiro. Quem diabos tem o sobrenome Carcará? Eduardo escolheu essa porque o símbolo da Abin é a águia carcará. Parecia chique. Ele até fez um crachá, mas não usa mais, depois que descobriu que as mulheres do escritório não ligam pra ele por causa disso. Entre outras coisas.

- Você é muito nerd, Carcará! – Berra um colega seu quando sai mais cedo para participar de um happy-hour com o resto da repartição. Mas Carcará não vai. Ele tem que ficar no computador, numa missão importantíssima... É hoje que ele desvenda os segredos do Reino de Zelda. E com essa chave, ninguém poderá vencê-lo.

A aventura continua!
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Re: TEXTOS REVISADOS # 22

Mensagem por Kio em Qua Maio 18, 2011 4:19 pm

Os Escavadores de Florença

Florença, 1434.
Um menino subiu correndo a colina passando ao lado de um enorme buraco. Ao se aproximar de outro buraco mais adiante, ficou desapontado ao encontrá-lo vazio. Então, ao enxergar um terceiro e novo buraco a cuspir terra de seu interior a intervalos regulares, recuperou o ânimo e correu em sua direção.
Ao chegar à borda da grande fenda no solo, o menino se acocorou ao lado de uma pá e uma picareta abandonadas e perguntou — Seu Donatello, o que o senhor está fazendo?
O homem com o corpo emplastrado de lama, sem parar de lançar terra para fora da vala ou, ao menos, olhar na direção de seu interlocutor, resmungou — Um buraco, Antonio. Não está vendo?
O menino observou em silêncio, até que, inconformado, questionou — Por quê?
— Ah, Antonio! Vá perguntar para o Fillipo, que ele é amável, nunca se irrita e ensina com prazer a quem quiser aprender!
Ouvindo a descrição com atenção, o menino se levantou e foi à direção de outro homem que estava também sujo de terra, mas um pouco afastado da borda do buraco, a desenhar — Por quê?
— “Por que” o quê? — indagou o homem surpreso.
— O Seu Donatello — explicou o menino — disse que o senhor nunca se irrita e ensina com prazer a quem quiser aprender.
— Ah, que porcaria! Aquele Donato imbecil! É mentira, eu odeio ensinar! Agora suma daqui, Antonio! — praguejou o homem fora do buraco.
O menino, calmamente, andou até a borda da fenda — Ele falou que é mentira, Seu Donatello.
— Ele só está sendo modesto. — contou o homem dentro do buraco — Ele nunca se gaba ou conta vantagem.
Após ouvir o homem dentro do buraco, o menino voltou até onde estava o homem fora do buraco — Vocês estão procurando tesouros, Seu Brunellesco?
— Não! — respondeu seco o homem fora do buraco.
— Todo mundo na cidade diz que estão. — insistiu o menino.
— Não, não estamos!
Fez-se silêncio por um tempo, então o menino continuou — E acharam algum?
— Algum o quê, Antonio? — o homem deteve seu trabalho irritado.
— Algum tesouro.
— Achamos, sim.
— E vocês gastaram?
— Sim, gastamos. Todo esse trabalho de escavações não é barato!
— E vocês cavaram mais?
— Sim, Antonio, sim!
— E acharam mais tesouros e gastaram para cavar ainda mais?
— É, isso mesmo.
— E vocês não estão procurando tesouros, certo?
O homem fora do buraco largou seus instrumentos de desenho no chão e levantou furioso — Vá lá ver o que o Donato está fazendo, Antonio, e me deixe em paz! — espantando o menino.
O menino voltou até o buraco e se acocorou ao lado das ferramentas observando seu interior — Por que vocês estão cavando, Seu Donatello?
— Ah, meu Deus! Você voltou, Antonio! — reclamou inconformado o homem dentro do buraco — Por causa do Platão, Antonio. Agora pare de me atrapalhar.
Após se levantar, o menino ficou na ponta dos pés e, protegendo os olhos do sol com uma das mãos, observou a região em todas as direções. Como não encontrou o que procurava, correu até o homem fora do buraco afoito — Seu Brunellesco! Seu Brunellesco! Cadê o Platão? Como ele está vestido?
O homem fora do buraco largou seus instrumentos mais uma vez se conformando que aquele não seria um dia produtivo — Ele vestia uma toga, Antonio, mas não deve vestir mais, porque ele está morto.
Primeiro, o menino ficou chocado com a notícia. Depois se sentiu desconfortável e com pena do falecido. Então finalmente entendeu e se sentiu satisfeito — Ah, então vocês estão cavando para enterrar o defunto?
— Não, Antonio. — explicou o homem fora do buraco — Platão foi quem ensinou que a Ideia é perfeita e extramundana, e que aquilo que existe no mundo material é uma cópia imperfeita do que existe no mundo das ideias.
O menino franziu o cenho — E por isso vocês fazem buracos?
— Platão explicou que a pintura e a escultura são tentativas do homem de copiar a existência material, e essa cópia é distorcida. Como a própria existência no mundo material é uma cópia distorcida e imperfeita do conceito existente no mundo das ideias, a pintura e a escultura são cópias distorcidas de cópias distorcidas, e, por isso, erradas.
O menino ficava cada vez mais descrente — E por isso vocês fazem buracos?
O homem fora do buraco tentou mais uma vez — Nós escavamos para encontrar e entender como os antigos da época de Platão e do Império faziam suas esculturas, pinturas e construções para aprender com elas e aproximar nossas obras das desses antigos.
O menino baixou a cabeça e pensou por um tempo. Depois de meditar, voltou-se para o homem para ter certeza de que compreendera tudo — Deixe-me ver se entendi, Seu Brunellesco. O senhor disse que os antigos faziam pinturas e esculturas, que o Platão achava essas pinturas e esculturas erradas, que ele ensinou que eram erradas, que vocês aprenderam com Platão que elas eram erradas e que por isso querem fazer pinturas e esculturas iguais às que se faziam na época do Platão e que ele achava erradas? É por coisas assim que o pessoal da cidade diz que vocês são loucos.
— Não, Antonio! Você não entendeu! É por isso que usamos a perspectiva!
— Que é isso, Seu Brunellesco?
— É dispor bem e com razão das diminuições e aumentos que aparecem aos olhos dos homens nas coisas distantes e próximas.
O menino coçou a cabeça sem entender, e o homem fora do buraco juntou o seu desenho do chão e lhe abriu um pequeno orifício exatamente onde existia marcado o ponto de fuga que utilizara como referência no esboço — Pegue aqui, Antonio. Vire o lado desenhado do papel para mim e olhe através do furo, enquanto eu seguro este espelho na sua frente. Está vendo? Isso é perspectiva!
Admirado ao enxergar a representação de um dos prédios antigos que havia na cidade de forma a lhe quase causar a sensação de estar diante da construção original, o menino disse — Parece que estou olhando o próprio e verdadeiro, Seu Brunellesco!
Finalmente o homem fora do buraco se sentiu satisfeito — Viu, Antonio? Graças à perspectiva, nós podemos fazer belas obras que trarão glória à nossa cidade!
Nesse momento, um guarda chegava ao local — Senhor Donato di Niccolò di Betto Bardi e Senhor Filippo di ser Brunellesco Lapi, eu venho do Palazzo della Signoria para levá-los detidos.
— Nós?! — questionou o homem fora do buraco — Por quê?!
O guarda explicou — Reclamações foram feitas de que ambos estão abrindo incontáveis buracos por toda a cidade, atrapalhando a circulação dos cidadãos e criando desordem. Também há boatos de que o motivo para tais escavações é a busca e pilhagem de tesouros antigos pertencentes à cidade. Assim, o pater patriae Cossimo di Giovanni de’ Medici, O Velho, ordenou a mim que realizasse uma investigação. A propósito, não comentem com ele que o chamei de “O Velho”, por favor.
O menino encarou o guarda com superioridade e lhe explicou como se faz a uma criança — Eles não estão procurando tesouros! Estão fazendo buracos porque um homem chamado Platão que morreu de toga disse que pintar é errado quando não se tem ideia, mas que fica certo se você olhar por um furo no papel que se chama perspectiva, e isso traz glória para a cidade.
O guarda ficou admirado — Como você sabe de tudo isso, menino Manetti?
— O Seu Brunellesco me ensinou. Ele ensina com prazer quem quiser aprender.
— Não, não ensino! — protestou o homem fora do buraco.
— E nunca se gaba. — completou o menino.
Após inspecionar o local, o guarda concluiu — Não entendi muito bem, mas já que o que estão fazendo é pelo bem e glória da cidade, não vejo problemas.
Então todos estranharam quando o grande buraco parou de expelir terra, e o homem em seu interior gritou — Encontrei algo!
Os três que estavam no nível do solo se aproximaram para olhar para dentro da cratera, e o companheiro do homem dentro do buraco perguntou — O que é, Donato? O que você encontrou?
— Ah, porcaria! — praguejou o homem dentro do buraco — Uma pilha de ouro da época do Império!
Enquanto o guarda levava os dois homens para a cadeia, o menino pensou — Como é astuto e razoável esse Seu Brunellesco!



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Re: TEXTOS REVISADOS # 22

Mensagem por Kio em Qua Maio 18, 2011 4:20 pm

ENTREVISTA - LEO

Desde 1994, Leo publica umas das mais aclamadas séries dos quadrinhos franco-belgas. Ela se chama ‘Les Mondes d'Aldebaran’ (publicada no Brasil pela PANINI como LEO-ALDEBARAN, em 2006) e desde o primeiro álbum até hoje a bedê reúne mais e mais fãs.
Arte e narrativa são os pontos fortes da obra. Seus traços são firmes e limpos e deixam o leitor muitas vezes parado, só admirando as páginas e aprofundando-se no mundo criado por Leo. A habilidade narrativa é tanta que nos sentimos testemunhas invisíveis dos acontecimentos na bedê.
A história real de Luis Eduardo de Oliveira (LEO) é digna de uma excelente bedê ou de um grande filme, onde o protagonista luta contra as circunstâncias e não esquece seus sonhos. Sendo militante de esquerda, Leo acabou fugindo do país para viver no Chile e, posteriormente, na Argentina, até voltar ao Brasil depois da queda da ditadura.
Desde criança desenhava bem e chegou a formar-se em engenharia mecânica, mas o sonho de publicar bandas desenhadas não o deixava quieto e, finalmente, decidiu ir à França, mesmo com pouco vocabulário francês, pouco dinheiro, mas muita coragem e repleto de aventuras na cabeça.
O resultado de sua persistência é um tremendo presente para os amantes de HQ e ficção-científica no mundo.
Vamos à entrevista?


FARRAZINE - Você saiu do Brasil na época da ditadura, sendo militante de esquerda, não é? O refúgio no Chile e na Argentina até voltar ao Brasil e logo chegar, finalmente, na França é uma história digna de uma excelente banda desenhada. Naquele tempo você já queria ser desenhista e roteirista de Bedês?
Leo - Sim, saí do Brasil em 71 para não ser preso. Eu era militante de esquerda. Ao voltar clandestinamente ao Brasil, em 74, não podia reassumir o meu trabalho de engenheiro porque o meu currículo apresentava esse furo de 3 anos que eu não podia explicar, pois na época a ditadura ainda existia. Procurei então trabalho na área de desenho, que era o que eu sabia fazer. Tentei nessa época trabalhar com quadrinhos no Brasil, fiz mesmo algumas tentativas, mas logo vi que não era viável economicamente e fui trabalhar como desenhista em propaganda e outras coisas. Foi só em 1980 que decidi vir para a França com a firme ideia de fazer BD aqui.

FZ - Como são as lembranças dessa época da ditadura?
Leo - A época da ditadura corresponde para mim à época da minha juventude. As lembranças são evidentemente muitas e muito fortes. Impossível de abordá-las aqui. Necessitaria um livro!

FZ - Você fez vários trabalhos diferentes até finalmente publicar Mondes d'Aldébaran que é uma das Bedês mais aclamadas de ciência-ficção internacional. Muitos críticos, inclusive, dizem que a ambientação e sensações dos primeiros episódios da série Lost foram inspirados claramente no seu trabalho. Como foi a criação desse projeto, no princípio?
Leo - É a primeira vez que ouço falar de que o Lost teria, em parte, se inspirado da ambientação da minha série Aldébaran. Caramba! Esse projeto foi o resultado de aperfeiçoamentos que fui fazendo, através dos anos, em uma ideia de base que eu tive antes de vir para a França, e que não foi aceita aqui quando cheguei. Como achava que era uma boa ideia, eu fui aperfeiçoando, melhorando os personagens. Quando a Dargaud aceitou o projeto, ele era bem diferente da ideia de origem.

FZ - Algo simplesmente impressionante em Mondes d'Aldébaran são os desenhos dos animais... São incríveis! Eu lembro de uma entrevista onde você comenta que se inspira um pouco nos insetos e o resto é o que nasce da sua imaginação. Você já os tem pré-definidos na cabeça ou eles vão saindo no papel quando você começa a rabiscar os rascunhos?
Leo - É verdade que os animais estranhos assumiram um papel importante na minha história. São eles que mostram ao leitor que a historia se passa em um outro planeta, pois as paisagens são bem próximas às da Terra (em Aldébaran, eu me inspirei nos litorais do Rio e São Paulo...). A criação desses animais ocorre de diferentes maneiras. Às vezes a ideia me vem no momento de escrever o roteiro, e na hora de desenhar ele sai sem muita dificuldade. Mas às vezes, a ideia não me vem no momento do roteiro e na hora de desenhar tenho que sair atrás de uma ideia. É nessas horas que eu posso buscar inspiração em imagens de insetos, ou então de dinossauros, de peixões das profundezas, etc.

FZ - A história de Aldébaran faz apologias à ecologia e a necessidade que há em respeitar o meio-ambiente, além de tocar fundo em assuntos como a ditadura. Essa foi uma maneira de expor seu ponto de vista sobre o panorama latino-americano nos anos 60-70?
Leo - A minha maior preocupação no momento de escrever as minhas histórias é a de criar um roteiro interessante para o leitor, com personagens densos e situações fortes que atinjam o leitor, que o façam passar um momento de emoção ao ler a BD. Em nenhum momento me preocupo em passar mensagens ao leitor, ou defender ideias. Acontece que, fatalmente, um autor de ficção faz passar os seus pontos de vista ao imaginar as suas histórias. A escolha dos “bandidos” e o comportamento dos personagens simpáticos vão fatalmente fazer passar certo tipo de mensagem: tal coisa eu acho positivo, tal outra eu considero negativo. É inevitável. Mas não é o motor da história nem a fonte da inspiração.

FZ - Qual é a sua visão política do cenário sul-americano atual? Há vários governos de esquerda, algo que era atípico antes.
Leo - A América Latina de hoje está a séculos daquela da minha época! Houve mudanças que eram simplesmente inimagináveis para os da minha geração. O Brasil é, sem dúvida, o caso mais espetacular. Jamais alguém da minha geração poderia imaginar que um operário como o Lula seria eleito presidente, por duas vezes, e faria um dos melhores governos que o Brasil já teve. E que seria sucedido por uma ex-guerrilheira! Céus!

FZ - Você está radicado na França há bastante tempo e uma coisa que chama atenção no país é que se pode discutir com uma senhora de idade sobre o Incal (isso aconteceu comigo no Fnac!), algo que no Brasil é totalmente surrealista... Como você acha que se poderia mudar essa mentalidade sobre os quadrinhos na América do Sul?
Leo - Eu acho muito difícil mudar a mentalidade dos brasileiros em relação às Histórias em Quadrinhos. É uma questão de tradição cultural. Não se esqueça que na Europa existem vários países que também não têm essa cultura de quadrinhos dos franceses e belgas. A Alemanha e a Inglaterra leem muito pouco quadrinhos, por exemplo.

FZ - Você publicou em fevereiro de 2010 - Antarès -Episode 3 (Bételgeuse - Saga Aldébaran), Há algum projeto para 2011 que você possa nos contar?
Leo - Acaba de sair o meu novo álbum, “Survivants” tomo 1. É uma nova série, paralela à saga de Aldébaran/Betelgeuse/Antares. Ela conta a história de um grupo de sobreviventes do desastre da nave Tycho Brahe, que desapareceu quando se dirigia para Aldébaran com 2500 colonos a bordo. Esse acidente, citado no tomo 1 de Aldébaran, é a causa do isolamento da colônia de Aldébaran durante um século, que é a base da saga. Eu resolvi imaginar que um pequeno grupo de jovens sobreviveu e foram parar num planeta desconhecido. No momento, estou desenhando o tomo 4 de Antares.

FZ - E quais autores lhe inspiraram quando criança? E agora adulto, quais você gosta mais de ler?
Leo - Quando eu era criança, lia o Pato Donald, a Luluzinha, O Fantasma, o SuperHomem. Mais tarde me impressionei com a qualidade de certos desenhistas americanos que faziam tiras de jornal, como Nick Holmes (Alex Raymond), Príncipe Valente (Harold Foster). Mas o grande choque foi a descoberta de autores europeus: Jean Giraud, Bilal, Tardi, Hermann.

FZ - Obrigado pela participação na revista Leo, um forte abraço!
Leo - Voilà! Abraços.
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Re: TEXTOS REVISADOS # 22

Mensagem por rdelton em Qui Maio 19, 2011 1:45 am

RITEANDO
GAREN E A FADA
Por Rita Maria Felix da Silva

Dizem que um dia, bem no meio do chamado “Século XXI”, o Povo das Fadas conseguiu finalmente romper a barreira entre os mundos — erguida por deuses antigos e clementes para proteger a humanidade, mas que envelheceram demais e, ou morreram ou perderam seu poder — e elas destruíram a civilização dos humanos e os submeteram à escravidão.

Exatamente três séculos e meio depois desse lamentável evento, nasceu um humano chamado Garen Ordonax, em cujo coração persistia uma revolta imensurável contra as Fadas. Assim, ele cuidadosamente teceu um plano de vingança e liberdade para sua espécie. Da forma mais inteligente que pôde, aproximou-se de Ayane, a poderosa rainha daquele povo, ganhou-lhe a confiança, até se tornar o escravo pessoal dela, algo que, perante os olhos daquela soberana, não era mais que um brinquedo, ao qual ela podia machucar e ordenar à vontade. Garen a tudo suportava em silêncio, enquanto obedecia e refinava sua ideia.

Certa primavera, tudo estava pronto. Durante toda sua vida, ele havia estudado a Magia das Fadas e compreendera tanto quanto fora possível, embora jamais houvesse conseguido decifrar uma inscrição no tomo mais obscuro que encontrou, algo que, em linguagem humana poderia ser escrito como “Naran-Antu Igar-Ahmah”. Fosse o que fosse, não tinha mais importância. Dizia-se que Fadas tinham vidas inacreditavelmente longas, mas nada é imortal e Ayane não sobreviveria ao que ele planejara.

Em segredo, forjou uma espada encantada como nunca se vira antes e, enquanto Ayane dormia a seu lado na cama imperial, após uma longa noite de sexo e tortura, Garen, com marcas de chicote nas costas e cortes por todo o corpo, transpassou o coração da Rainha das Fadas e ela gritou e agonizou para depois tornar-se silenciosa e imóvel.

Garen levantou-se da cama, extasiado com o que conseguira. Havia grande descontentamento entre os humanos escravizados e um movimento de resistência, que ele contatara, usaria a notícia da morte da Rainha como a fagulha para iniciar uma grande revolução, uma guerra para libertar a humanidade. Ele seria um herói para os seres humanos, talvez até mesmo o futuro rei deles. Sorriu de forma ambiciosa.
Mas seu contentamento definhou no instante seguinte, quando um murmúrio não-humano atraiu-lhe a atenção. De pé, perto dele, com uma espada mágica enfiada no peito, e, no rosto, a mais selvagem e cruel expressão que Garen já vira, estava a Rainha Ayane.

Diante do semblante confuso de Garen Ordonax, Ayane retirou a espada do coração e com ela decepou a cabeça daquele humano traiçoeiro. Antes disso, porém, ela gritou as palavras daquele livro antigo (“Naran-Antu Igar-Ahmah”) e de algum modo, no instante de sua morte, Garen finalmente entendeu o significado:

“As Fadas nunca Morrem!”

FIM
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Re: TEXTOS REVISADOS # 22

Mensagem por Kio em Seg Maio 23, 2011 4:13 pm

Os Potiguaras Visitam os Tabajaras
(com direito a um Tupinambá)
No dia 14 de maio do corrente ano, realizou-se o evento Super Tarde de Autógrafos com 12 Artistas e 30 Obras, uma promoção da Comic House, em João Pessoa na Paraíba.
Participaram onze quadrinistas do Rio Grande do Norte, e um artista plástico do Pará, trazendo as suas publicações. Estiveram presentes nesta tarde os artistas Milena Azevedo, Luiz Elson Dantas, Joseniz Guimarães, Leonardo Feitoza, Eduardo Kowalewski, Dickson Tavares, Vinícius Dantas, que trouxeram para o evento as edições do Projeto 1ª Edição, uma parceria entre a Fundação José Augusto e a Gráfica Manimbú, coordenada pelo artista plástico e professor Luiz Elson Dantas.
Esteve presente também o paraense João Henrique Lopes (o tupinambá) com seu livro, Elementos do Mangá, uma publicação totalmente independente. Este livro tem por objetivo orientar aqueles que querem dominar o estilo da arte sequencial; o livro identifica e analisa os principais elementos deste estilo, classificando-os em princípios (os elementos mais abrangentes) e técnicas (os de aplicação mais restrita). Uma vez apreendidos os elementos, pode-se usá-los não apenas para fazer histórias em quadrinhos, mascotes, e todo tipo de ilustração em estilo mangá.
À disposição dos apreciadores do tema estava à venda exemplares da revista Maturi e o livro teórico Desenho na Sala de Aula, de Luiz Elson Dantas.
Particularmente, eu conhecia muito pouco da produção norte-riograndense e foi uma oportunidade muito feliz onde conheci pessoas que, como eu, vivem, gostam e produzem quadrinhos. Adquiri alguns trabalhos muito interessantes e criativos como a edição Carcará: Cabra Pió num Há de Beto Potyguara, cuja estética e narrativa remonta os cordéis xilogravados num conto de muita criatividade e senso de humor.
Dentre os potiguaras, conversei com Joseniz Guimarães de Moura, que trouxe sua publicação Luz nas Trevas: Autor em Crise. Formado em Educação Artística com habilitação em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e membro da Associação Brasileira de Arte Sequencial. Trabalho com Teatro, Quadrinhos e Educação, então foi uma agradável conversa e muito produtiva estabelecermos contato entre tribos.
Outro membro da tribo potiguara que tive a alegria de conhecer foi Milena Azevedo, ela é historiadora, escritora, roteirista e, como todos os índios presentes, apaixonada por histórias em quadrinhos. Milena Azevedo é responsável pelo site Portal GHQ – Garagem Hermética Quadrinhos - que é seu blog e por sua vez foi uma comic shop sediada em Natal, capital do Rio Grande do Norte, que atuou como loja física de 2005 a 2008 e atualmente é loja virtual. A proposta do seu blog também é de revista eletrônica para divulgar a cultura pop, em particular o universo dos quadrinhos nos mais variados veículos como filmes, animações, séries de TV e games.
Nesta tarde de sábado, as várias tribos dos quadrinhos nordestinos reuniram-se para trocar ideias, experiências e contatos. Da tribo dos tabajaras estiveram no evento marcando presença o Prof. Dr. Henrique Magalhães da editora independente Marca de Fantasia; o desenhista exclusivo da Marvel, Mike Deodato Jr; o desenhista exclusivo da Dynamite, Jack Herbert; o designer gráfico, ilustrador e cartunista, William Jeovah de Medeiros; G. G. Carsan, autor do livro Tex no Brasil – O Grande Herói do Faroeste, e amigos que produzem e escrevem sobre quadrinhos.
Foi um agradável encontro de tribos de aldeias diferentes, todos unidos pelos quadrinhos.

Agradecimentos:
Ao prestativo tabajara Manassés Filho, da “oca” Comic House, que cedeu todas as informações complementares para que eu não errasse o nome de ninguém.
Aos atenciosos potiguaras Milena Azevedo e Joseniz Guimarães de Moura, que cederam as fotografias para ilustrar esta matéria.

Links para maiores informações:
Comic House: http://www.comichouse.blog.br/
Joseniz Guimarães de Moura: http://cavaleirodastrevasedaluz.blogspot.com/
Milena Azevedo: Garagem Hermética Quadrinhos http://ghq.com.br/
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Re: TEXTOS REVISADOS # 22

Mensagem por Kio em Seg Maio 30, 2011 2:40 pm

Entrevista Fun Toones

Tivemos um bate-papo com Fábio Antunes, um dos sócio-fundadores da empresa Fun Toones, estúdio responsável pela arte de vários personagens utilizados em produtos que fazem parte do dia a dia do brasileiro. Falamos sobre inspirações, mercado, projetos paralelos e mais coisinhas logo a seguir.

FARRAZINE – Olá, Fábio. Obrigado pela participação no zine e pelo carinho com que está nos atendendo. Nos primeiros contatos que tivemos você comentou sobre seu começo como desenhista, com traços carregados de nanquim. Você pode mostrar alguma dessas artes e contar um pouco dessa experiência?
Eu é que agradeço a oportunidade, estou feliz por conversar com vocês e todos os leitores do FARRAZINE.
É interessante essa pergunta no momento em que acabo de receber o título de cidadão da cidade onde passei minha infância e adolescência. Isso porque não deixa de ser uma volta ao passado, e receber essa homenagem é reviver uma época da qual eu guardo com muito carinho, pois foi aos 15 anos de idade, na cidade de Tatuí onde eu comecei a desenhar no maior jornal da cidade. Época em que eu adorava o universo da caricatura e [das] charges políticas, participei de vários Salões de Humor sendo que em alguns deles meus desenhos foram expostos, mas também era vidrado no universo underground. Devorava “Chiclete com Banana”, “Piratas do Tietê”, “Circo Sampa” e, com um pouco de sorte, conseguia alguns exemplares do Robert Crumb. Quando vinha para São Paulo mostrar meus desenhos, era comum eu escutar “isso é muito Angeli!”, hoje eu entendo...
Quando fui para Tatuí receber o título de cidadão, aproveitei os dias na casa dos meus pais para fazer uma viagem ao passado. Vasculhei antigos desenhos, as primeiras publicações e encontrei muitas coisas bacanas e muitas coisas feias também, carregadas, nervosas, traço sujo, despretensioso, mas enfim, vi ali muita vontade de desenhar. Encontrei o jornal em formato de tablóide que fazíamos, chamado Stopim, e que, além das charges, eu ilustrava todas as páginas de uma só vez, já que todo mundo entregava os textos em cima da hora e a gente montava tudo no past up, um dia antes de mandar pra gráfica.
Aprendi muita coisa. E daquela época ainda uso muito o bom humor e, quando possível, uma boa dose de ironia que sempre procuro colocar nas minhas ilustrações.


FZ – Qual a influência que essa experiência tem em sua carreira atual?
Além das revistas que citei, nessa época eu também lia muito o Pasquim e adorava os ilustradores desse tablóide como o Ziraldo, o Jaguar, o Fortuna e o melhor de todos (para mim), o Henfil. Prestava atenção nas piadas e nas ideias subentendidas, e, claro, na forma como traçavam as expressões dos personagens. Embora não houvesse mais a ditadura no Brasil, ainda restava muita coisa a ser feita no país (e ainda resta), e esse pessoal manteve durante algum tempo esse compromisso com a mensagem.
E é esse o compromisso que procuro manter comigo, a de sempre passar uma mensagem, de preferência com humor, sempre tratando o observador como uma pessoa inteligente, mesmo que hoje eu desenhe para um universo muito mais comercial, mesmo que a informação muitas vezes seja um produto.

FZ – Essas artes geraram algum projeto que esteja guardado, esperando uma oportunidade para sair da gaveta?
Não existe propriamente um projeto, mas desejos de buscar outras formas de expressão, como fazer um livro infantil de minha autoria, pois até tenho algumas ideias, embora não tenha dado alguma forma a elas num papel para ao menos engavetar. Tenho diversos cadernos com mais anotações do que propriamente desenhos.

FZ - Antes da Fun Toones, você trabalhou como diretor de arte em outras três empresas da área. Como foi a experiência até chegar a sócio-fundador da Fun Toones? Algumas histórias marcantes?
Minha intenção sempre foi trabalhar como ilustrador, mas o começo em São Paulo foi muito difícil e acabei, muito por conta da faculdade, caindo em agências. Foi lá que aprendi a trabalhar com os programas de computação gráfica, aprendi a conceituar um trabalho e, sobretudo, aprendi muito sobre direção de arte, cargo que ocupei até meus 27 anos. Toda essa experiência eu uso para a marca Fun Toones e, sobretudo, para as ilustrações. Foi trabalhando nas agências que percebi o quanto era importante entender o pensamento de um Diretor de Arte ou Designer, porque depois, quando abrimos o estúdio, percebi que entender a expectativa e a linguagem do profissional da agência que está do outro lado, fazia toda a diferença.
Minha sócia, Deborah Almeida, também veio de agências e também colaborou da mesma forma com essa experiência, porém, mais no lado comercial, tão importante quanto para a formatação do estúdio.

Pra mim, a melhor história se passa em 98, na primeira agência “de verdade” que trabalhei. Ainda como assistente de arte, recebi de Ricardo Tucci, a missão de redesenhar o Toddynho, na época, um personagem totalmente caixinha, quadrado mesmo. Lembro-me que abracei a oportunidade com devoção, pois, pra mim, desenhar o Toddynho era tudo! E acabou que o personagem ganhou basicamente as formas arredondas que existe até hoje. Tenho muito orgulho dessa passagem.


FZ - A Fun Toones é responsável pelo design de vários personagens conhecidos, de famosas marcas no Brasil, tais como Trakinas, Toddynho, Fandangos, Natura Naturé, etc. Como é o processo de criação para marcas e personagens tão diferentes?
Na verdade, a Fun Toones não criou todos esses personagens. O personagem Trakinas, por exemplo, foi criado pelo estúdio Macacolândia, bem como o Spiguy de Fandangos. Toddynho, Bubballo, Chester Cheetah já existiam. Porém existem outros que nós criamos, mas o destaque são os personagens de Natura Naturé, que já totalizam mais de 50 personagens para essa linha e já é um grande sucesso. Um caso único no Brasil onde há vários personagens para uma mesma marca.
Com os personagens que já existem no mercado, nós procuramos respeitar todo o seu universo que vai desde o traço original, as cores e, principalmente, a sua personalidade. Entendemos que o personagem é um patrimônio valioso para a marca e não cabe a nós modificarmos por mero capricho algo como “o meu traço é assim”.
Para a criação de um personagem, buscamos o máximo de informação do cliente, depois desenvolvemos o conceito e a personalidade do personagem. Na fase seguinte vamos para a pesquisa e desenho, muito desenho! Quando encontrado o traço único para o tal personagem, que conversa com a marca ou o produto, montamos uma apresentação para que o cliente mergulhe no personagem e não apenas olhe se é bonito ou não.

FZ - O Brasil sempre se destacou por fazer da publicidade uma forma de entreter as pessoas, chegando a ganhar prêmios internacionais com várias agências. Como você vê o mercado de Marketing atual, com tantas opções e mídias? A concorrência é sadia?
Acho que a publicidade brasileira ainda é uma das melhores. As opções de mídias apenas oferecem mais oportunidades para os criativos e para clientes. Creio que hoje o universo de possibilidades é muito mais rico comparado à época em que comecei. Com isso, outras linguagens foram criadas e novos profissionais surgiram, bem como novos modelos de agências.
Quanto à concorrência, por um lado, ela é sadia na medida em que tira o máximo dos que dela participam podendo crescer nesses momentos, por outro lado, é desgastante pois sempre é colocado toda a energia da equipe, feito várias opções, diversas ideias, deixando de lado muitas vezes os trabalhos da casa e no final, perder e não ser remunerado, gerando prejuízo. Nesse caso não é sadio.

FZ - O acesso à internet entre a população brasileira cresce a cada dia (somos 70 milhões de usuários, aproximadamente). Isso tem alguma influência na hora de criar um personagem, com relação à estratégia com as outras mídias, tais como televisão, rádio, etc.?
Não sinto isso. Acho que o personagem tem que responder à marca e não à mídia. Com a internet, eu vejo como uma oportunidade ainda pouco utilizada para que o personagem realmente possa interagir com o internauta. Desconfio que, com o Ipad e tablets, muita coisa vai mudar.

FZ - O Tiago Luz, da DM-9, comentou em entrevista recente que as empresas no Brasil não investem tanto nas mídias virtuais, como ocorre na Europa e EUA, que poderiam gerar muito mais renda e seria um excelente complemento nas campanhas de marketing. Você também tem essa impressão?
Confesso que não tenho esse embasamento para responder essa pergunta, pois não tenho contato com esses valores, mas o que eu sinto de verdade é que na Europa e EUA existe muito mais movimento de ideias e arte rolando no mundo virtual que no Brasil.

FZ - Falando sobre gostos pessoais, o que você curte ler?
Houve uma fase em que eu li, senão todos, quase todos os livros do Amir Klink. Gosto de entender seus pensamentos em como realizar seus projetos e fazer as suas travessias pelo mundo, em lugares inóspitos. Mistura aventura e um certo empreendedorismo daquilo que ele (Klink) deseja, acredita e põe em prática.

FZ - E quais desenhistas ou ilustradores inspiram você?
Definitivamente, os que mais me inspiram são Michel Ocelot (Príncipes e Princesas, Azur e Asmar, Kiriku) e Hayao Miyazaki (Castelo Animado, Meu vizinho Totoro, Ponyo, Viagem de Chihiro). Todas as vezes em que vejo o trabalho deles, sinto um desejo pulsante de fazer coisas belas com a ilustração.

FZ - Conta pra gente três coisinhas secretas sobre o Fun Toones.
Você acha que esse bambu debaixo da unha da mão que desenho vai me fazer contar nossos segredos para dominar o mundo? Vocês estão muito enganados hahahah!
Acho que já contei vários segredos no decorrer da conversa.

FZ - Muito obrigado novamente Fábio, as portas do FARRAZINE estarão sempre abertas para vocês!
Foi um prazer esse bate papo com vocês. Parabéns pela iniciativa e o trabalho. Vida longa ao FARRAZINE!
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Re: TEXTOS REVISADOS # 22

Mensagem por Kio em Seg Maio 30, 2011 2:41 pm

Aulas de Roteiro – Parte 2

Para não perdermos caracteres, vamos ao que interessa...

5 – O Complexo de Stan Lee...
Chegamos agora em um dos pontos mais complicados, os tais “complexos”. Chamo de Complexo de Stan Lee a todos os roteiristas que desenvolvem mais quantidade do que qualidade. Todos concordam que Stan Lee foi um gênio criativo e, se ainda duvida, basta ver a diversidade de suas criações que compõem hoje toda a base do universo Marvel. Dentre eles temos Hulk, Homem-Aranha, X-men, Dr. Estranho, Quarteto Fantástico, etc... Dei o nome deste complexo a Stan Lee justamente por causa disto. Em contrapartida ao gênio criativo, podemos enganar a nós mesmos, nos acharmos o “novo Stan Lee” porque nossa mente está fulminando ideias e queremos colocar todas em prática! Cuidado, muito cuidado. Você pode produzir muito, mas uma única obra produzida com alguém focado e dedicado pode valer muito mais do que o seu todo, que se resumirá a nada!

6 – O Complexo de Alan Moore...
Qual roteirista não teve a oportunidade de ver um roteiro do mestre Alan Moore? Se ainda não teve, sugiro que veja para compreender mais este complexo! O bruxo (vamos chamá-lo carinhosamente desta forma) descreve um pequeno quadro, muitas vezes em 3 ou mais páginas. Isso mesmo! A infinidade de detalhes é imensa e isso só enriquece mais ainda a obra. É claro que a vontade de todo roteirista é ter a possibilidade de fazer algo do tipo, uma obra completamente rica que entrará para o limbo das HQs no mundo! Porém, por mais que nossos sonhos sejam grandiosos é necessário manter os pés no chão e sua realidade é a seguinte: a grande maioria dos desenhistas prefere quadros mais limpos. O que viria a ser isso? Descrever ao desenhista somente o suficiente para a compreensão da narrativa. Talvez quando tiver um nome formado no mercado você possa usufruir deste complexo. Infelizmente, por agora isso é meio que improvável, pois só causaria problemas com seu parceiro desenhista que muitas vezes possui vários serviços a realizar, não podendo focar nesses detalhes “irritantes” (seria assim considerado por ele, hehehe).

7 – Compreenda sua arte!
Uma forma de desenvolver sua arte de forma eficaz, tornando-se uma referência e se destacando é compreendê-la. Descubra o que os quadrinhos podem e o que não podem ser. Quais os limites das HQs? Existem limites? Procure entender cada elemento presente nos quadrinhos e saiba usá-los a seu favor. Por exemplo, o apêndice é o responsável por indicar a personagem determinada fala, presente em um balão. Entendendo essa função básica, talvez você pudesse explorar os recursos do apêndice e ver que ele não se trata de um elemento insignificante. É possível fazer HQs sem balões, mas com a presença do discurso direto das personagens? Claro! Basta usar o apêndice! Trata-se neste caso de um recurso estético interessante utilizado por autores como Ziraldo e outros. Leia as obras e autores que se propõem a estudar os quadrinhos a fundo. Um bom começo é lendo as obras do entrevistado desta edição (o professor da USP Paulo Ramos).

Caros senhores, já é hora da partida. Espero estar ajudando e gostaria que compartilhassem suas experiências / dicas / sugestões pelo e-mail leiafarrazine@gmail.com. Até a próxima!

Por Rafael Camargo de Oliveira
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Re: TEXTOS REVISADOS # 22

Mensagem por Kio em Ter Maio 31, 2011 1:30 pm

Deus criou Adão e Adão criou Aline

Para o deleite de nós, mulheres, que lemos histórias em quadrinhos, ter na coleção uma edição de Aline é uma obrigação e uma questão de honra.
O álbum Aline: Fantasias Urbanas, num belo formato de 28x21 cm com 48 páginas, produzido pela Jacarandá Edição e Design e distribuído pela Devir Livraria Ltda., traz a arte de Adão Iturrusgarai e as histórias de sua Aline nas situações do cotidiano com seus dois namorados, Otto e Pedro. As histórias em quadrinhos de Aline mostram de forma bem clara (ou melhor, escancarada) tudo que uma mulher sente do ponto de vista da afetividade, pensa de suas relações amorosas, as crises sexuais na solidão, as neuroses estéticas, as dietas, brigas com a balança e a TPM.
As linhas poucas e simples do desenho de Adão são perfeitas para a proposta de muita expressividade que ele traz por meio desta personagem. As cores fortes e marcantes utilizadas dão características particulares aos personagens, que poderão ser facilmente identificados e sua personalidade captada pelos leitores.
Outra particularidade é a versatilidade dos tipos de narrativas adotadas por Adão Iturrusgarai. Neste álbum há charges, um quadro que narra um fato com começo e fim nesta única imagem; encontramos tiras cômicas que são sequências de quadrinhos com uma situação cômica e inesperada pelo leitor. Há tiras cômicas seriadas, sendo estas sequências de tiras cuja continuidade forma uma história em quadrinhos. E, para completar esta vasta aptidão de Adão Iturrusgarai, na história em quadrinhos Aline em Balada (assim poderemos classificar pela escolha da narrativa pelo autor), que começa de maneira inusitada com uma imagem de Aline e sua vizinha lésbica, Linda, entrando num labirinto onde há, em vários pontos, as ciladas da balada em que elas vão se meter ao virarmos a página.
Mulheres que leem, produzem e curtem quadrinhos: alegremo-nos, pois temos nos quadrinhos nacionais uma representante a nossa altura: Aline!
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Re: TEXTOS REVISADOS # 22

Mensagem por Kio em Ter Maio 31, 2011 2:20 pm

Fiz três alterações no texto "Riteando", para se adequar a nova lei ortográfica. Very Happy
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Re: TEXTOS REVISADOS # 22

Mensagem por Kio em Ter Maio 31, 2011 3:13 pm

Do Luto para o Rock

Se uma banda famosa perde seu vocalista por morte, na maioria das vezes o que acontece é o encerramento de suas atividades, mas esse certamente não foi o caso do AC/CD, que lançou Back in Black apenas seis meses após a morte de seu carismático e irreverente vocalista Bon Scott, que gostava de “tomar todas” e acabou vitima de intoxicação alcoólica em fevereiro de 1980.
A banda era formada pelos irmãos Angus e Malcolm Young (Guitarra Solo/Base), Cliff Williams (Baixo) e Phil Rudd (Bateria). Após a perda de Bon, a tristeza era imensa, não só pelo fato dele ser um ótimo vocalista, mas também porque era uma pessoa querida por todos, e a possibilidade do AC/DC acabar era iminente. Mas foi em uma conversa com o pai de Bon que as coisas começaram a mudar, pois ele disse a todos que com certeza seu filho não iria gostar se eles desistissem de tocar e, a partir daí, os integrantes chegaram ao consenso de seguir com a banda. Porém, para isso seria necessário encontrar um substituto à altura para o posto de vocalista, e após várias audições, Brian Johnson, que cantava em uma banda chamada Geordie, foi o escolhido para a posição.
Com novo vocal, a banda viajou para as Bahamas a fim de gravar seu novo álbum, e pairava certa ansiedade no ar, pois ninguém saberia ao certo se os fãs aprovariam Brian, e também porque o disco anterior era nada mais do que Highway to Hell (1979), que até hoje é considerado um dos melhores álbuns do AC/DC, ou seja, a qualidade teria que ser, no mínimo, igual ao disco anterior. Apesar de tudo, após dois meses de gravação e algumas semanas de mixagem, foi lançado em julho de 80 o álbum que mudaria a história da banda e, por que não, do Rock em si.
Back in Black é uma mistura explosiva de composições bem elaboradas e de muito bom gosto que, junto com riffs espetaculares, - cortesia dos irmãos Young - e também com o vocal poderoso de Brian, que mescla muito bem a potência de sua voz em todas as músicas, fazem com que esse álbum seja uma unanimidade entre os discos de Rock.
A introdução de Hells Bells (que abre o disco) começa ao som de sinos, que parecem anunciar que “o bicho vai pegar” e, a partir daí, é exatamente o que acontece, pois o álbum se transforma numa sucessão de clássicos, dentre os destaques, está a descontraída Shoot To Thrill que é sempre vinculada no programa de TV CQC, além das excelentes You Shoock Me All Night Long, Rock ‘N Roll A’int Noise Polution e também Back In Black, que são considerados verdadeiros hinos imortais não só do gênero Rock, mas da música de um modo geral. As letras são desencanadas e flertam com vários assuntos como álcool, drogas, sexo e também homenageiam Bon Scott, sendo que até a capa do disco é preta por inteiro em sinal de luto ao vocalista.
A grande virtude do AC/DC é que a banda soube enfrentar as adversidades de forma positiva e seguiu em frente, sempre nos proporcionando músicas geniais e sem firulas, deixando assim a simplicidade falar mais alto, mas sem perder qualidade e o que ajuda a comprovar isso são as performances ao vivo. Quem já teve o privilégio de assistir um show da banda, sabe o que estou falando, pois são apresentações memoráveis e cheias de energia do começo ao fim.
Apesar de todo o drama em volta do álbum, as musicas de Back In Black passam um clima de alegria e diversão, e seu sucesso pode ser atribuído a 42 milhões de cópias vendidas no mundo inteiro, número que nenhum outro disco de Rock atingiu na história da indústria fonográfica. Sendo assim, BIB é trilha sonora perfeita pra ouvir no carro, em churrascos, festas, enfim, praticamente em todos os lugares, de repente até em um funeral...

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Re: TEXTOS REVISADOS # 22

Mensagem por Kio em Qua Jun 01, 2011 10:17 am

Guia Oficial de Sobrevivência Zumbi
Por FiliPêra, do Nerds Somos Nozes


Se houvesse uma casa de apostas com nerds jogando dinheiro em hipóteses sobre o fim do mundo, tenho certeza que zumbis seriam a preferência. Motivos para isso não são difíceis de encontrar. Desde que George Romero misturou mortos-vivos com crítica social e lançou o seu já clássico A Noite dos Mortos-Vivos, os zumbis se tornaram parte integrante da cultura pop, e não demorou para que conseguissem alçar o status de subgênero mais cult do terror, ao superar a onda dos velhos e cansados slashers descerebrados saídos dos anos 80. Não só em quantidade, mas as obras de zumbi alcançaram certa qualidade que, não à toa, colocou-as no gosto do público. Os mortos-vivos foram ainda mais longe, e transcenderam os próprios limites do gênero deles, e figuraram em filmes dos mais diversos tipos, que vão de comédias doidas com cadáveres de nazistas (Snow), a filmes pós-apocalípticos com pretensões de seriedade (Eu sou a Lenda). Até em filmes-sátiras de zumbis eles surgem (Todo Mundo Quase Morto, que é muito melhor do que o nome dá a entender). Zumbis são como coringas da cultura e, vez ou outra, figuram em filmes épicos feitos com o único intuito de divertir, como Zombieland.
Nos quadrinhos eles têm sua obra-prima até o momento, com The Walking Dead, que recentemente foi adaptada para as TVs americanas por Frank Darabont. As revistas são o que obras de zumbis devem ser: sobre pessoas que experimentam a loucura e paranoia num mundo devastado.
E os zumbis chegaram num tal nível de importância que o governo americano - através do Centro de Controle de Doenças - fez um guia oficial de como sobreviver em uma epidemia de mortos-vivos. O texto integral está abaixo (traduzido por Lauro Adriano, do blog Desmorto) e fez muito nerd delirar e escrever várias teorias que afirmaram que o governo americano "sabe demais".

As mídias sociais: procedimentos de preparação 101: Apocalipse Zumbi

O texto abaixo foi originalmente publicado no Blog da CDC para Assuntos de Saúde Pública em 16 de maio de 2011, por Ali S. Khan.
Há todos os tipos de emergências a qual podemos nos preparar. Um apocalipse zumbi, por exemplo. Isso mesmo, eu disse apocalipse zumbi. Você pode rir agora, mas quando isso acontecer você ficara feliz por ter lido isto, e hey, talvez você realmente aprenda uma coisa ou duas sobre como se preparar para uma verdadeira emergência.
Uma Breve História sobre os Zumbis
Nós todos vimos, pelo menos um, filmes sobre zumbis comedores de carne (o meu favorito é Resident Evil), Mas de onde os zumbis vêm e porque eles adoram tanto comer cérebros? “Zumbi” é uma palavra que tem suas origens vinculadas ao vodu do Haiti e de Nova Orleans. Embora o seu significado tenha mudado um pouco ao longo dos anos, ele se refere a um cadáver humano misteriosamente reanimado, um morto-vivo. Vodu antigo e tradições do folclore, demonstravam como surgiam os zumbis.
Nos filmes, shows e literatura, os zumbis são frequentemente descritos como sendo criados por um vírus infeccioso, transmitido através de mordidas e contato com fluidos corporais. O psiquiatra de Harvard, Steven Schoolman, escreveu uma nota média (fictícia) sobre os zumbis que apareceram no filme A Noite dos Mortos Vivos, associando-os à Síndrome da Deficiência Atáxica Neurodegenerativa (Ataxic Neurodegenerative Satiety Deficiency Syndrom) causada por um agente infeccioso. O Zombie Survival Guide diz que a causa da epidemia zumbi é um vírus chamado Solanum. Outras origens para zumbis mostradas em filmes incluem a radiação de uma sonda da Nasa destruída (como na A Noite dos Mortos-Vivos), bem como as mutações de agentes de doenças já existentes, tais como prion, a doença da vaca louca, sarampo e raiva.
A ascensão dos zumbis na cultura pop deu credibilidade à ideia de que um apocalipse zumbi pode realmente acontecer. Em tal cenário, zumbis assumiriam países inteiros, vagando pelas ruas das cidades, comendo qualquer coisa viva que apareça em seus caminhos. A proliferação desta ideia levou muitas pessoas a se perguntar “Como posso me preparar para um apocalipse zumbi?”.
Bem, estamos aqui para responder a essa pergunta, e espero também compartilhar algumas dicas de como se preparar para emergências reais!
Melhor prevenir que remediar
Então o que você precisa fazer antes de zumbis… ou furacões ou epidemias, por exemplo, realmente acontecerem? Primeiro de tudo, você deve ter um kit de emergência em sua casa. Isso inclui coisas como água, comida e outros suprimentos para você sobreviver os primeiros dias antes de localizar um campo de refugiados (ou, no caso de uma catástrofe natural, o que você ficaria sem comprar por algum tempo, até que seja possível se encaminhar para um abrigo de evacuação, ou até que os serviços públicos sejam restaurados).
Abaixo estão alguns itens que você deve incluir em seu kit, para uma lista completa visite a página da CDC.
1. Água (1 galão por pessoa e dia)
2. Alimentação (estoque de itens não-perecíveis que você come regularmente)
3. Medicamentos (o que inclui os remédios com e sem receita médica)
4. Ferramentas e Suprimentos (faca, fita adesiva, rádio, pilhas, etc.)
5. Higiene e Saneamento (água sanitária, sabão, toalhas, etc.)
6. Roupas e camas (uma muda de roupa para cada membro da família e cobertores)
7. Documentos importantes (cópias de sua carteira de motorista, passaporte e certidão de nascimento, por exemplo)
8. Kit de primeiro socorros (mesmo você estando perdido caso um zumbi lhe morda, você pode usar esse kit para tratar de cortes e lacerações que você pode vir a obter durante um tornado ou um furacão)

Depois que você fizer seu kit de emergência, você deve sentar-se com sua família e montar um plano de emergência. Isso inclui aonde você iria e quem você chamaria se os zumbis começassem a aparecer do lado de fora da sua casa. Você também pode implementar este plano se houver uma inundação, terremoto, ou outra emergência.
Reencontro dos membros da família após uma emergência na caixa de correio da casa. Você deve escolher dois pontos de encontro, um perto de sua casa e outro mais distante.
• Identifique os tipos de emergências que podem acontecer nas proximidades. Além de um apocalipse zumbi, podem acontecer inundações, furacões ou terremotos. Se você não tiver certeza dos tipos de emergências que podem ocorrer, entre em contato com um representante local da Cruz Vermelha (Nota do Tradutor: Defesa Civil para o nosso caso) para mais informações.
• Escolha um local de encontro para a sua família se reagrupar caso zumbis invadam a sua casa… ou se sua cidade for evacuada por causa de um furacão. Escolha um local fora de sua casa para emergências repentinas e um lugar fora do seu bairro, caso você esteja impossibilitado de voltar para casa imediatamente.
• Identifique os contatos de emergência. Faça uma lista com os contatos locais, como polícia, bombeiros e sua equipe local de resposta a ataques zumbis. Além disso, passe esses telefones para parentes que moram longe, para que eles possam lhe chamar durante uma emergência, permitindo assim que o resto da sua família saiba que você está ok.
• Planeje sua rota de fuga. Quando zumbis estão com fome, eles não vão parar até conseguir alimento (ou seja, cérebros), o que significa que você precisa sair rapidamente da cidade! Planeje aonde você iria com várias rotas opcionais, todas que sejam rápidas para chegar ao destino, para que assim os comedores de carne não tenha nenhuma chance! Isso também é útil no caso de desastres naturais e você tenha que ir rapidamente para um abrigo.

Não tenha medo – a CDC está preparada.
Prepare um Kit, faça um plano, esteja preparado.
Se zumbis começarem a percorrer as ruas, o CDC irá conduzir uma investigação como qualquer outra manifestação de doença. O CDC irá prestar assistência técnica aos municípios, estados ou parceiros internacionais que lidassem com uma infestação de zumbis. Essa assistência pode incluir consultas, testes de laboratório e análise, gestão e tratamento de pacientes, rastreamentos de pessoas e controle de infecção (incluindo o isolamento e a quarentena). Em uma investigação neste cenário, pretende-se atingir vários objetivos: determinar a causa da doença, a fonte da infecção / vírus / toxina, aprender como ele é transmitido e como ele facilmente se propaga, como quebrar o ciclo de transmissão e, assim, evitar novos casos, e como os pacientes podem ser melhor tratados. Não só os cientistas irão trabalhar para identificar a causa e a cura da epidemia de zumbis, mas o CDC e outras agências federais enviarão equipes médicas e socorristas para ajudar as pessoas nas áreas afetadas (eu serei voluntário dos jovens detetives da doença inominável para o trabalho de campo).
Para saber mais sobre o CDC e como ele se prepara e responde às emergências de todos os tipos, visite:
http://emergency.cdc.gov/cdc/orgs_progs.asp

Para saber mais sobre como você pode se preparar e permanecer seguro durante uma emergência:
http://emergency.cdc.gov/

Para baixar um selo como o acima, que você pode adicionar ao seu perfil de rede social, blog, website, ou como assinatura de e-mail:
http://emergency.cdc.gov/socialmedia/zombies.asp

E boa sorte!

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Re: TEXTOS REVISADOS # 22

Mensagem por Kio em Qua Jun 01, 2011 2:53 pm

A Confeitaria de Wölfflin

Século XVII, em algum dos antigos territórios do Sacro Império Romano-Germânico
Um pequeno comerciante que caminhava pela rua do mercado entrou em uma oficina de confecção de pães e se dirigiu ao artesão-mestre — Olá! Eu quero um bolo.
O artesão-mestre o observou com uma expressão misteriosa — Certo…! — e, após voltar trazendo de um armário algumas massas retangulares e recipientes que aparentavam conter mel e caldas doces, perguntou — Trata-se de alguma ocasião festiva?
— Pois sim! — respondeu o comerciante muito entusiasmado — É aniversário do meu filho, e quero lhe fazer uma festa tendo como temática o platonismo!
O artesão se deteve por alguns instantes o encarando do outro lado do balcão — E teu filho admira Platão?
— Sim! Bem… Quero dizer, admirava quando mais jovem. Mas faz algum tempo que não conversamos sobre o assunto.
— E quantos anos tem teu filho?
— Fará quinze. — afirmou o comerciante.
— Não, não! — o artesão explicou — Platão, isso é coisa para crianças e homens da nossa geração. Os jovens destes dias têm gostos diferenciados.
O comerciante se aproximou mais do balcão e se curvou na direção do artesão — Tu pensas assim?
— E como não?! Eu tenho algo novo aqui. Um estilo que dizem ter feito muito sucesso no Norte. Chama-se Barroco.
— No Norte? Não sei, minha esposa é um pouco conservadora. Não sei se ela aprovaria.
— Isso é só preconceito tolo. Quando ela vir do que se trata, certamente lhe cairá no gosto. Sem contar que possui certa rebeldia que atrai aos jovens. Teu filho e os seus amigos muito apreciarão. Nem imaginas o quanto esta técnica é boa para afirmar a própria imagem diante dos pares e da sociedade!
— Bem… Então acho que levarei um desses.
— Sábia escolha. O custo são duas moedas de prata.
O comerciante levou a mão ao bolso — É um pouco caro, mas como quero que meu filho tenha uma festa especial… — e colocou o valor sobre o balcão.
Após embolsar o dinheiro, o artesão tratou de colocar um tabuleiro sobre o balcão e nele alocar camadas alternadas de massas e geléias. Quando a pilha alcançou tamanho e forma muito bonitos, explicou — Pois olha! Consegues ver aqui na lateral estas linhas? São as camadas diferentes. É claramente visível o traçado que distingue umas das outras. Há uma unidade aqui, mas ela só existe no todo que se forma da organização dos múltiplos.
Então o artesão empunhou um rolo de esticar massas e, com ele, passou a espancar sua obra espatifando-a completamente indiferente ao susto que causara no outro homem, só parando após obter uma massa amorfa e homogênea.
— Por… por que fizeste isso? — perguntou o comerciante.
Veio a explicação do artesão — Esta é a nova técnica de que falei. Aquela linearidade, aquela prisão de limitações de contornos, aquilo tudo é obsoleto. Aqui está a verdadeira unidade. A transição entre elementos é apenas pictórica. Não há mais planos. Se tentares observar a massa ou o recheio, perceberás que teus olhos são puxados ao fundo e lançados novamente à frente. Percebes como é magnífico?
O mercador fez um enorme esforço mental para se convencer de que compreendia aquilo — Claro… eu acho. Parece… Parece bom, não é?
O artesão separou uma pequena quantidade daquela gosma disforme e colocou sobre um minúsculo tabuleiro que estava um pouco mais afastado no balcão. Depois retomou sua obra ajeitando sua posição sobre o tabuleiro principal.
— Olha só! — apontou o comerciante — Caiu um pouco fora do tabuleiro! — para o um quarto do total da massa que se espalhava pelo balcão.
— Não te preocupes. — confortou o artesão — Faz parte da nova técnica. Isso de enquadrar o conteúdo dentro da moldura é bobagem. O mundo real não se enquadra perfeitamente no nosso campo de visão, então por que nossas criações deveriam?
— É, isso é uma verdade…
— Certamente concordará que emprego aqui uma técnica muito boa, e nada mais justo eu cobrar uma moeda por este efeito.
— Claro, muito justo. — concordou o comerciante ao depositar uma moeda sobre o balcão.
Após apanhar a moeda, o artesão se voltou ao pequeno tabuleiro, e nele repetiu o mesmo procedimento. Então, ao retomar os trabalhos no tabuleiro maior, relatou — Agora deve ir ao forno, como bem deves saber.
— Sim, sim. Deve ir ao forno.
O artesão apanhou o grande tabuleiro e o colocou junto ao fogo, e a mesma ação repetiu em relação ao pequeno tabuleiro. Passado alguns minutos, ambos os tabuleiros foram retirados e depositados no balcão.
— Mas o que é isso?! — reclamou o comerciante — Um dos lados do bolo está completamente queimado! E vê o outro se não está cru!
Mais uma vez o artesão lhe explicou — Pois te digo que tudo não passa de técnica. Percebe o jogo de desequilíbrio. Agora, colocando a vela na parte mais clara, cria-se a falsa sensação de luminosidade. Vê como a parte clara finge ser assim por estar iluminada pelo fogo da vela, e a parte mais distante queimada, aparenta estar nas sombras devido à distância dessa fonte de luz teatral. Pois tão maravilhoso efeito custa apenas mais uma moeda.
— Realmente, agora que falaste, percebo tal efeito. — o comerciante nem percebeu que depositara mais uma moeda sobre o balcão — Mas essa vela, ela não deveria ter um pavio?
O artesão, que acabava de colocar uma pequena vela sobre o pequeno bolo no tabuleiro menor, esclareceu — Não, não. A técnica não permite. Essa vela não está cumprindo o papel de vela, entendes? Ela está representando uma vela. Para engrandecer essa atmosfera de teatralidade, por apenas uma moeda, colocarei esta toalha vermelha sob o tabuleiro. Vês como ela parece uma cortina a se abrir para nos revelar o bolo como figura central?
— Eu… é. — o comerciante pegou mais uma moeda do seu bolso e entregou ao artesão, assim que este concluiu a colocação de um pequeno corte de pano vermelho abaixo do tabuleiro menor.
— Agora — explicou o artesão — tratamos de, com as mãos, achatar um lado do bolo assim.
— Mas ele ficou torto.
— Sim — disse o artesão ao apanhar a moeda que lhe era entregue quase como reflexo — mas esta técnica nos traz um caráter angular, um efeito de linhas diagonais muito interessante.
O comerciante examinava o bolo, enquanto o artesão achatava um dos lados do bolo menor — É que, como posso dizer? Ele não ficou muito bonito assim.
O artesão elucidou — Então me dize, tu és um homem bonito?
— Bem, confesso que não sou lá grande coisa.
— E eu? Por acaso sou eu um homem bonito?
— Com todo respeito, mas tu não estás tão melhor do que eu.
— Por certo que não, pois a maioria das coisas no mundo não são muito belas. Razoável seria se o bolo assim também fosse?
— Muito justo, claro. É que não era bem assim que eu o tinha imaginado.
O artesão balançou a cabeça em repreensão — Pobre de ti! Não vês o quão ultrapassado é querer que as coisas deste mundo sejam inspiradas em uma idéia perfeita? Estás tu a viver em uma ilusão!
O comerciante se sentiu envergonhado — Desculpa-me. Eu… Eu não sei o que dizer.
— Tu poderias dar-me uma moeda, e esqueçamos isso.
— Claro. — o comerciante teve de procurar em seu outro bolso para encontrar o disco de metal.
— Agora — retomou o artesão — peguemos esse pequeno bolo e o coloquemos sobre o grande.
— Coloquemo-lo?
— Sim. Vê que bela técnica realizo por apenas mais uma mísera moeda. Tu estarás a oferecer este bolo aos convidados. Só que, ao colocar este outro bolo sobre o bolo, alcançaremos o efeito de que o bolo que ofereces tem consciência de que é um bolo e está sendo oferecido, e assim, ele “olha” para os convidados e, por sua vez, lhes oferece um bolo. A imagem contida na própria imagem.
— É. — conclui o comerciante — Parece que ficou muito bom. Levar-lhe-ei sim, mas antes acho que provarei um pedacinho. — e dito isso, passou o dedo em um dos cantos do doce e o levou à boca — Ahg! Mas que droga é esta?! Que gosto é este?
— Ah, deves estar a tratar do fato de que coloquei sal no lugar do açúcar. — comentou o artesão com indiferença.
— E por que diabo fizeste algo assim?!
— É parte da técnica. Reflete a natureza rebuscada do homem, bem como a teatralidade. Em sua dicotomia, o bolo tende a ser um doce, mas na verdade é salgado. Ainda assim, não deixa de se passar por um doce. Ele deseja ser uma coisa quando na verdade é outra, tem consciência de ser outra, mas isso não o faz portar-se como sendo a primeira.
O comerciante ficou indignado — E como eu comerei um bolo que deveria ser doce, mas está cheio de sal?
— É justamente esse o auge da técnica. O bolo parece um doce, mas trata-se de um salgado. Tu sabes que ele é um doce que na verdade é um salgado aparentando ser um doce, e ainda assim lhe comes como se fosse um doce representando ser alguém que come um salgado que representa um doce enquanto olhas todos os teus convidados representando que ofereces a eles um doce que é salgado que é doce representando que lhe comes como um doce enquanto representas que eles comem um doce. Não é magnífica esta técnica?! E tudo isso pela bagatela de apenas mais uma moeda!
— Estás a me ridicularizar?! — vociferou o comerciante furioso.
— Pois é evidente! Esta técnica consiste em destruir os mitos. Percebes como o meu papel de artesão disposto a agradar minha clientela e o teu papel como aquele que encomenda o serviço e fica satisfeito foram completamente desconstruídos? E por apenas o valor de uma moeda.
Depois disso, o comerciante saiu da oficina sem dizer uma palavra e, só de raiva, fundou o Neoclassicismo.
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Re: TEXTOS REVISADOS # 22

Mensagem por Kio em Qui Jun 02, 2011 8:46 am

Rolando Imortal

Era uma vez Hruodland, ou Roland… talvez ainda, Orlando. Independente do nome como é conhecido, ele foi um homem que será lembrado, mesmo que não saibam que é dele que se lembram. Quando penso nele, fico imaginando se um dia passou pela sua cabeça de homem do século VIII que um dia seria um dos grandes heróis da civilização ocidental. Certo, ele não entrou para as lendas como o homem que exatamente foi, mas não é disso que se tratam os mitos, transformar homens em ideais que significam mais do que eles foram como pessoas e que inspiram as gerações que vierem depois?
Conforme relatam os historiadores, em 15 de agosto de 778, os exércitos de Carlos Magno, rei dos francos, liderados pelo Prefeito das Marcas da Bretanha chamado Hruodland, foram derrotados pelos bascos enquanto abandonavam a Península Ibérica no conflito que se tornou conhecido como A Batalha de Roncesvales. Foi exatamente nessa derrota que nosso cavaleiro medieval deixou este mundo e entrou para o panteão de heróis celebrados pelos bardos até hoje.

A Canção de Rolando
A Canção de Rolando (La Chanson de Roland) é uma canção de gesta escrita em um idioma românico em que é narrada tal batalha, bem como os eventos que a antecederam e suas consequências imediatas. Possui sua versão mais antiga, datada de entre 1130 e 1170, escrita pela figura do bardo misterioso conhecido apenas como Turold. Tornou-se uma das mais importantes narrativas medievais, influenciando a poesia/canção da época e valendo-se com uma das legitimações da unidade cultural francesa e europeia.
A narrativa se inicia com Carlos Magno e seu exército sitiando a cidade de Saragoça que estava sob comando de Marsílio, rei mulçumano sarraceno. Depois de sete anos de cerco, um dos generais de Marsílio de nome Blancandrino sugere uma nova estratégia ao seu rei. Blancandrino diz a Marsílio que envie tributos, reféns e uma promessa a Carlos em troca da paz: que ele iria em pessoa até a capital de Carlos Magno e lá se converteria ao cristianismo assim permanecendo com posse da metade das terras da Espanha, mas jurando vassalagem a Carlos Magno, sendo tal promessa apenas um engodo para fazer os cristãos recuarem e dar tempo a Marsílio, que não pretendia cumpri-la.
Ao receber a proposta, Carlos Magno reúne em conselho seus principais cavaleiros e aliados, incluindo aqueles a quem chama de os Doze Pares. Nesse concilio fica decidido aceitar a proposta de Marsílio, mas um dos homens de Carlos deve ir até Saragoça para confirmar o trato. O sobrinho de Carlos Magno, Rolando, bem como outros se oferecem para tal missão — que possivelmente era suicida, pois os cavaleiros que foram anteriormente enviados a ter uma audiência com Marsílio não voltaram —, mas o Imperador se nega a abrir mão dos serviços de seus estimados Doze Pares. Então Rolando sugere que seja enviado seu padrasto Ganelão, e tal sugestão é acatada. Ganelão já possuía ressentimentos em relação a Rolando e aceita a missão, mas não sem antes jurar vingança ao predileto do Imperador.
Durante a viagem até Saragoça, Blancandrino percebe o ódio de Ganelão por Rolando e, ao chegarem ao Rei Marsílio, os três armam um acordo. Enquanto Carlos Magno conduzisse suas tropas de volta à França, Marsílio enviaria um poderoso exército para obliterar as tropas de retaguarda. O papel de Ganelão seria se certificar de que Rolando estaria nesta retaguarda. Com a morte de Rolando, Ganelão teria satisfeita sua vingança, e Marsílio acreditava que destruiria a confiança do exército francês e de Carlos, pois a dor de perder seu herói faria com que perdessem a vontade de lutar.
O plano de Marsílio e seus aliados é executado com sucesso, mas na retaguarda ficam Rolando, seu amigo Olivier, o Bispo Turpin e todos os Doze Pares da França. Marsílio envia um gigantesco exército liderado por doze notáveis cavaleiros, incluindo seu próprio filho. Então se segue uma detalhada cena de combate, em que cada um dos notáveis sarracenos é descrito como com grande poder, mas mesmo assim são brutalmente derrotados por um único golpe dos Doze Pares, mostrando a superioridade destes em poder. Tamanho é o ataque, que os franceses acabam perecendo, mas não sem antes derrubar uma quantidade infindável de inimigos. Ao final, quando resta apenas Rolando, ele resiste exageradamente antes de morrer, caindo desfalecido e se pondo em pé novamente por muitas vezes.
Quando descobre a traição ao ouvir o tocar de corneta da Rolando a pedir auxílio, Carlos volta com seu exército apenas para encontrar seus amados cavaleiros mortos. Então o Imperador Cristão vai até Saragoça, onde combate o Rei Marsílio — destroçado após perder o filho e sua mão diante do poder do falecido Rolando — e um gigantesco exército liderado por Beligante, o Emir da Babilônia que veio em auxílio de Marsílio trazendo todos os seus notáveis cavaleiros. Após o confronto final em que os cristãos saem vencedores e destroem totalmente as forças inimigas, Ganelão é levado prisioneiro à França e julgado.
A narrativa tem como ato final a batalha entre Pinabel — que defende Ganelão alegando que ele apenas se vingara de Rolando por justo motivo, e não traíra ao Imperador — e Thierry — um minguado cavaleiro francês que é único a ter coragem de desafiar Pinabel. Com a vitória de Thierry, Ganelão e seus parentes, que ofereceram suas vidas em garantia, são executados.
Alguns pontos da narrativa valem ser destacados. Primeiro é a distorção do contexto histórico. A Batalha de Roncesvales histórica teve como centro o confronto dos exércitos francos contra tribos europeias não cristãs que se negaram a se submeter ao Rei Carlos Magno. Após mais de trezentos anos de tradição oral da narrativa, quando ela finalmente foi escrita, a Europa estava combatendo os muçulmanos nas Cruzadas e também na Península Ibérica. Assim os inimigos de Carlos — que representava o Cristianismo e a Unidade Europeia — foram substituídos por muçulmanos que se opunham a tal unidade cristã, pois eram eles que naquele tempo eram vistos como uma ameaça alienígena à cultura da Europa.
Também fica clara a idealização de Carlos Magno e de seus Doze Pares, bem, como de toda a Cristandade em oposição aos pagãos. Por mais que os inimigos sejam descritos como poderosos ou valorosos, sempre existe um “porém” que os limita, às vezes explicitamente, por não serem cristãos. Dessa forma, todo o poder de um guerreiro de elite valoroso muçulmano se mostra inútil contra um cavaleiro cristão, e ele é facilmente derrotado por um único golpe que literalmente o parte ao meio junto com seu cavalo.
Carlos Magno também é idealizado, sendo mostrado como um homem sábio de mais de duzentos anos que é conduzido diretamente por Deus por intermédio de anjos que lhe falam em sonhos ou pela entrega de armas mágicas invencíveis, assim tendo como justificativa para todos os seus atos o cumprimento de uma vontade divina. Carlos — que na época dos acontecimentos ainda era rei, mas aqui já tratado como Imperador — é um soberano justo, como mostrado ao permitir que Bramimunda, rainha de Saragoça, fosse até a França e se convertesse ao cristianismo por livre vontade, e também ao dar a Ganelão, apesar de todos os seus atos de traição, a oportunidade de se defender em um julgamento justo. No final da história, Gabriel surge e dá a Carlos uma nova missão, demonstrando mais uma vez a posição do Imperador como um servo a serviço de Deus, que mesmo cansado não deixa de cumprir a tarefa dada por seu suserano divino. Talvez aí uma forma de reforçar os valores de obediência presente nos pactos de suserania e vassalagem que sustentavam as estruturas sociais da época.
Os inimigos são representados claramente por alguém que não possuía — ou não desejava possuir — conhecimento sobre sua cultura “estranha”. Apesar de serem muçulmanos, aparecem orando a divindades politeístas como um Maomé divino por si próprio, um Apolino helenístico e a figura de Tervagant. Também existem feiticeiros e bruxos entre as tropas de Marsílio. Além disso, tais sarracenos são chamados quase que em todas as citações de “pagãos”, não só pelos cristãos, como se invocam a si próprios e a seus aliados com frases como “Sigam-me pagãos!”.
Durante toda a narração, a terra de Carlos é tratada por “Doce França”, mostrando-a como um lugar único e especial, sendo até mesmo os “pagãos” a lhe chamar por tal expressão com reverência, e nunca com desprezo. Também fica clara a manifestação na crença no Direito Divino, pois Carlos Magno insiste em alegar que vencerá os conflitos militares nos qual toma parte porque “está Certo”. E como prega a crença no Direito Divino, tudo o que acontece no mundo é vontade de um Deus onipotente da qual a vontade não se pode opor, e este Deus é bom e justo e sempre apoia os justos. Assim, aquele que for justo terá o favor de Deus e sempre vencerá o injusto. Isso fica evidente ao final do texto quando Thierry, um cavaleiro pequeno e mirrado, se opõe ao poderoso Pinebal e, ao ser atingido na cabeça, sofre apenas um leve ferimento superficial e derrota seu oponente. Como Thierry estava a defender o justo, foi favorecido militarmente por Deus, sua vitória era imperativa e não possível de oposição.

INFLUÊNCIAS EM OUTRAS OBRAS DE A CANÇÃO DE ROLANDO:

Orlando Enamorado
A história de Roland é retomada por Matteo Maria Boiardo (1441-1494). Com a queda do Império Bizantino, boa parte de seus habitantes procurou refúgio na Europa Ocidental, levando consigo algo que os cristãos do ocidente haviam perdido durante a Idade Média: os textos originais dos povos da Grécia clássica. A redescoberta da cultura e filosofia grega — tendo como seu principal ideal a filosofia platônica — pelos povos do oeste europeu a partir do final do século XIII e o culto a esta cultura como uma forma de recuperar a sabedoria perdida dos antigos resultou no movimento conhecido como Renascentismo. Boiardo, convivendo e sendo influenciado pelo ideal neoclássico, decidiu-se a reescrever a história de Roland, mas não como se faria dentro da cultura medieval, que era vista como feia e selvagem à época, e sim dentro dos cânones formais e ideais elaborados pelos seguidores do movimento renascentista.
Pelas mãos de Boiardo, Roland reviveu como Orlando no poema intitulado Orlando Enamorado (Orlando Innamorato) em 1476 (publicado em 1495). Nessa versão, além de Orlando ser um dos paladinos a serviço de Carlos Magno, o foco da narrativa dá-se em torno de seu amor por Angélica, filha do rei oriental de Cataio cuja mão seria oferecida como prêmio ao vencedor de um torneio de lutas que derrotasse seu irmão, Argalia, em combate. Cristãos e pagãos participam das batalhas pela mão de Angélica. Após seu irmão ser morto pelo pagão Ferrabrás, a princesa foge rumo à Floresta de Ardenne, e é perseguida pelos cavaleiros que a disputavam, incluindo Orlando e seu primo Reinaldo. Angélica acaba bebendo de uma fonte mágica do amor e se apaixona por Reinaldo, mas ele bebe da fonte do ódio e se torna agressivo. Após Reinaldo ser aprisionado em uma ilha pelo mago Malagigi, a pedido de Angélica, ela é capturada pelo rei oriental Agripane. Orlando vai até o oriente, derrota Agripane e confronta seu primo insano. Então surge o rei sarraceno Agramante que, com seu exército, sitia Paris como vingança pela morte de seu pai nas mãos Orlando. Reinaldo, Angélica e Orlando retornam à França e, no caminho, Angélica e Reinaldo novamente bebem das fontes mágicas, mas dessa vez da forma inversa à anterior. Orlando e Reinaldo decidem por duelar pelo amor de Angélica, mas o rei Carlos Magno prefere entregar a mão da donzela àquele que derrotasse Agramante. Paralelamente, Bradamante, irmã de Reinaldo que permaneceu na França, se apaixona pelo cavaleiro Rogério.
Infelizmente o poema jamais fora concluído por Boiardo, pois a Península Itálica foi invadida pelos exércitos do rei francês Carlos VIII, e Boiardo veio a falecer.

Orlando Furioso
Em 1502, Ludovico Ariosto (1474-1533) decide-se a continuar a história de Orlando em seu Orlando Furioso (publicado pela primeira vez em 1516 e tendo sua versão definitiva de 1532) valendo-se de métodos tragicômicos e da cultura da contradição e focando-se no conflito entre cristãos e mouros. Ariosto tinha como mecenas os nobres Hipólito e Afonso d’Este, descendentes de Ruggero e Bradamante. Em sua história, Orlando vaga pela Europa em busca de Angélica passando por uma série de aventuras, combates e eventos fantásticos. Quando finalmente encontra sua amada, percebe que seu sentimento não é retribuído e enlouquece tornando-se uma figura violenta e devastadora. O herói só volta ao seu estado normal após Astolfo, um cavaleiro inglês, viajar até a lua montado em seu hipogrifo para, de lá, trazer o juízo perdido de Orlando. Além da trama principal envolvendo Orlando, Angélica e o cavaleiro de origem muçulmana convertido ao cristianismo Ruggero, a versão final do poema inclui centenas de personagens coadjuvantes, nos quais Ariosto explora vários aspectos das emoções humanas e cria complexas redes de profundidade psicológica até então não vistas nas narrativas de Roland, mesmo sem tratar de assuntos políticos ou religiosos. Na verdade, a obra de Ariosto está impregnada de um pessimismo que reconhece seu tempo como o fim de algo bom que se extingue e ruma à decadência.
Orlando Furioso ainda inspirou adaptações para as óperas Orlando Paladino — realizada por Joseph Haydn (1732-1809) —, Orlando Furioso — de Antonio Vivaldi (1678-1741) — e Alcina, Ariodante e Orlando — de Georg Friedrich Händel (1685-1759).

Childe Roland à Torre Negra chegou
O escritor inglês Robert Browning (1812-1889) escreveu em 1855 o poema Childe Roland à Torre Negra chegou (Childe Roland to The Dark Tower Came). Esse poema trata da jornada de um cavaleiro de nome Roland em busca de uma Torre Negra. Durante os versos da narrativa, Roland caminha sozinho rumo à sua missão, adentrando um território cada vez mais doente e estéril onde a caminhada se torna a cada passo mais difícil e sofrível. Durante a jornada, Roland relembra todos os outros cavaleiros, seus amigos, com quem ele faltou ao perdê-los pelo caminho. O cavaleiro revela ter possuído esperança de atingir seu objetivo no início, mas depois entende que não há esperança, pois não busca de fato um objetivo, e sim trava a busca por uma busca, sendo que o único final possível para quem trilha tal caminho é ser destruído pela própria jornada. Ao final, a única “Torre Negra”, a única tarefa que executa, como os demais cavaleiros a se empenharem em tal demanda, é morrer por ela.
O poema de Browning reflete a ânsia de glória do Rolando da canção original. Como o cavaleiro carolíngio, este Rolando inicia uma jornada em busca de vitória e sucesso militar que só pode alcançar ao cumprir sua missão — o que na Idade Média corresponderia a ser fiel e defender os interesses de seu suserano —, mas esta é uma missão vazia, que só leva a mais uma missão e a mais outra. À busca segue-se sempre outra busca que, ao passar do tempo, acaba destruindo as ilusões românticas que o próprio cavaleiro tem da busca, e atinge seu auge de desilusão quando o cavaleiro morre, como todos os outros cavaleiros, sem ter alcançado nenhuma realização além de buscar pela realização.

O Senhor dos Anéis
J. R. R. Tolkien (1892-1973), ao criar sua mitologia própria em O Senhor dos Anéis (The Lord of The Rings), inspira um de seus personagens, Boromir, em Rolando. Boromir é o mais importante cavaleiro de sua terra, Gondor, e quem comanda seus exércitos para a vitória, mas que age de maneira temerária e sempre disposto ao combate. Ao seu final, Boromir fica cuidando da retaguarda de sua comitiva, quando ela é atacada, e morre depois de muito lutar sendo alvo de muitos golpes e flechas. Antes de cair, Boromir toca sua corneta convocando Aragorn — a figura do grande e justo rei — e seus aliados, e quando estes o encontram, está morto com a espada em uma das mãos e a corneta quebrada na outra, cercado de vários cadáveres de seus inimigos em uma cena muito parecida e com a mesma simbologia daquela em que Carlos Magno encontra o corpo de Rolando. Boromir também é o cavaleiro virtuoso obcecado pela glória e por satisfazer os interesses de seu povo e de seu suserano — representação aqui dividida nas figuras de Aragorn, seu rei legítimo, e Denethor, seu pai e regente — e se destrói por isso.

A Torre Negra
Em A Torre Negra (The Dark Tower), Stephen King (1948- ) conta a história de Roland, um cavaleiro obcecado em cumprir seu objetivo ao ponto de sacrificar tudo para isso, até mesmo a si próprio, como o Rolando carolíngio. Em um mundo corrompido e em degradação, Roland é o último de uma linhagem perdida de cavaleiros românticos que servia a um grande imperador que no passado unificara e civilizara o mundo. Esse imperador, chamado Arthur Eld — alto, sábio e com uma longa barba branca, trajando uma armadura reluzente, com uma espada mágica em uma das mãos e um revólver na outra —, que inspira Roland é claramente uma representação de Carlos Magno. A inovação aqui é a referência às armas de fogo como se estas fossem símbolos do Romantismo, pois esses cavaleiros idealizados são os últimos homens a seguirem os antigos ideais heróicos de cavalaria e a dominarem a tecnologia da pólvora.

Referências
ARIOSTO, Ludovico. Orlando Furioso.
BOIARDO, Matteo Maria. Orlando Enamorado.
BROWNING, Robert. Childe Roland à Torre Negra chegou. Tradução de MORAIS, Fabiano. Rio de Janeiro: Objetiva.
Clássicos da Literatura Disney Vol. 10: Cruzadas. São Paulo: Editora Abril, 2010.
KING, Stephen. A Torre Negra Vol. I: O Pistoleiro. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.
KING, Stephen. A Torre Negra Vol. II: A Escolha dos Três. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.
KING, Stephen. A Torre Negra Vol. III: As Terras Devastadas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.
KING, Stephen. A Torre Negra Vol. IV: Mago e Vidro. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.
KING, Stephen. A Torre Negra Vol. V: Lobos de Calla. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.
KING, Stephen. A Torre Negra Vol. VI: Canção de Susannah. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006.
KING, Stephen. A Torre Negra Vol. VII: A Torre Negra. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.
TOLKIEN, John Ronald Reuel. O Senhor dos Anéis Vol. I: A Sociedade do Anel. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
TOLKIEN, John Ronald Reuel. O Senhor dos Anéis Vol. II: As Duas Torres. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
TOLKIEN, John Ronald Reuel. O Senhor dos Anéis Vol. III: O Retorno do Rei. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
TUROLD. A Canção de Rolando. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

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Re: TEXTOS REVISADOS # 22

Mensagem por Kio em Seg Jun 13, 2011 9:21 am

Red Baron Blues Bar

Daniel Norgren
Prestem atenção neste sueco que canta com uma pegada bem carregada de Blues, o cara canta e toca guitarra e, ao mesmo tempo, comanda a bateria com os pés.
Ouçam o sentimento transmitido, nota a nota, nessa mistura de experimental com um som ligado às raízes do estilo de sua musicalidade.

Junior Kimbrough
Junior Kimbrough passou quase toda a sua vida em Hudsonville, sua irmã mais velha é quem cuidava dele enquanto os pais trabalhavam na fazenda, o pai e irmão possuíam violões, mas os deixava fora do alcance das crianças, Junior já estava fascinado pelo som do instrumento, descobriu onde ficavam guardados e, com seu dom natural, aprendeu a tocar de ouvido, tanto que ao pensar em uma canção, precisava tocá-la de imediato para gravá-la na memória ou a perderia para sempre.
Mas, não foi só a música que Kimbrough encontrou quando ainda era criança, aos oito anos de idade, foi encontrado por sua mãe em coma alcoólico induzido.
Assim, para não ficar em casa correndo o risco de se embebedar, era levado pelos pais à lavoura, para aprender a trabalhar desde muito jovem, e por toda sua vida desenvolveu muitas atividades, chegando a ser mecânico.
Por volta de 1958, enquanto morava em Memphis, gravou no estúdio da Sun Records, com Sam Phillips, mas acabou não dando em nada, e por fim retornou ao Mississipi. Sua próxima sessão de gravação ocorreu dez anos depois para o selo Philwood, mas essa gravação também não obteve sucesso.
Até que, em 1979, o historiador David Evans, um professor de música na Universidade de Memphis, apostou em Junior Kimbrough. Decidiu-se que a única forma que ele poderia ser captado seria ao vivo no Chewalla Rib Shack e assim um estúdio improvisado foi erguido. Isto provou ser um sucesso, o som, até então inexplorado, recebeu ótimas críticas, acabou sendo nomeado o “mais importante Blues Álbum da Década” pela revista Rolling Stone.
Kimbrough comprou o Chewalla Rib Cabana, que veio a ser conhecido simplesmente como "Junior's Place" logo, recebia visitantes ilustres, como U2 e Rolling Stones, bem como outros turistas e músicos de todo o mundo.
Junior passou a acompanhar turnês de outros artistas por todo os Estados Unidos e Europa. Neste mesmo período, começou a sofrer de vários problemas de saúde, entre eles uma série de derrames. Ainda esteve envolvido em um acidente automobilístico que revelou mais problemas médicos, incluindo a diabetes, pressão alta e pedras na vesícula. Em 1998, enquanto assistia TV na casa de sua esposa, morreu de um súbito ataque cardíaco, aos 67 anos.
A Junior's Place, continuou a prosperar como um ponto de encontro da música local e atração turística até 6 de abril de 2000, quando foi destruído por um incêndio criminoso, destruindo todo o acervo: instrumentos, equipamento de palco e obras de arte originais de artistas regionais. Mas, o som que foi criado lá dentro permanecerá para sempre.
Junior Kimbrough pode não ter tido a grandeza do sucesso que outros bluesman alcançaram em anos seguintes, mas ele é o criador de um estilo que deu origem a toda uma nova geração de músicos de Blues.

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Re: TEXTOS REVISADOS # 22

Mensagem por Kio em Ter Jun 14, 2011 4:48 pm

EDITORIAL

Vem comigo, porque a luta continua


Na edição passada, inspirado por um questionamento a respeito do mercado editorial de quadrinhos no Brasil, comentei sobre a “nuvem negra” que estaria pairando sobre a cabeça de nossos artistas tupiniquins. Citei, entre outras coisas, exemplos de profissionais de sucesso como o Márcio Baraldi, entrevistado naquela edição.
Pois bem, uma semana após seu lançamento, o mesmo Baraldão comunicou a paralisação do site especializado em HQs Bigorna (www.bigorna.net) que estava sob sua batuta. E não foi um comunicado qualquer. Digamos que a “nuvem negra”, que citei acima, tornou-se um furacão nas palavras do Márcio, no artigo “O Quadrinho Nacional está despencando!”.
A notícia repercutiu entre os profissionais da área - o que, por si só, é uma consequência boa – que, concordando ou não, correram discutir o assunto e defender suas opiniões. Nomes de destaque no mercado nacional de HQs se pronunciaram, entre eles Bira Dantas (caricasdobira.blogspot.com) e, por intermédio de artigos de JR Dib no site www.ambrosia.com.br temos as opiniões de Sidney Gusman, Laerte, Delfin, Estevão Ribeiro, Pryscila Vieira, Ale Nagado e outros.
As opiniões são conflitantes e não cabe aqui, dada minha confessa falta de know-how, discutir o certo e o errado nessa questão. Acessem os links disponíveis no texto e formem suas próprias opiniões.
O que posso fazer, em nome da revista, é agradecer aos leitores que continuam nos procurando, tornando-se parte de nossa trupe efetivamente ou através das redes sociais.
Posso ainda – e devo – enaltecer os profissionais que estreiam nesta edição, como os jovens Guilherme de Sousa e Thaís Leal, com a belíssima HQ Furry; o exemplo de profissional bem sucedido, Fábio Antunes da agência Fun Toones; os entrevistados Bianca Tupinambá e Adam Rabello, do Vejo em Cores; além dos nossos colaboradores e membros habituais, sempre trazendo material de primeira linha.
E, para não ficar só nos agradecimentos, reitero o convite para que nossos leitores venham participar conosco dessa jornada. Continuamente recebemos novas adições nas redes sociais e, via de regra, todas são analisadas. São muitos profissionais e amadores talentosos que merecem – e precisam – de um lugar para expor esse talento e, com isso, engrossar as fileiras dos que batalham por um cenário mais aprazível do que o atual.
Nas palavras do grande Goulart de Andrade: “Vem comigo!”.
Mas só na próxima edição.
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Re: TEXTOS REVISADOS # 22

Mensagem por Rodrigo! em Ter Jun 14, 2011 7:16 pm

Gosteeeeeeeeeeeeeeeeei, poderoso Editor... Tah ficando sério o negócio Smile

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Re: TEXTOS REVISADOS # 22

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