TEXTOS PARA # 25

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TEXTOS PARA # 25

Mensagem por Hiro em Sex Nov 25, 2011 1:11 pm

Um conto meu.
Minha idéia é que a última linha fosse escrita com uma fonte diferenciada que representasse uma letra manuscrita.

A menina que fazia cookies

Rafael Machado Costa

Dedicado a Francine Kloeckner

Em uma cidade distante próxima à floresta, vivia uma menina conhecida por ser muito doce e prestativa. Certa vez, uma estranha bateu à sua porta e, ao ser recebida, lhe entregou uma folha de papel e disse — Soube que você é a mais doce das meninas, então lhe trago o segredo de como confeccionar o mais maravilhoso de todos os doces. Assim sendo, acredito que se tornará a responsável pela mais doce de todas as delícias. Até porque já estou velha demais para carregar toda essa responsabilidade. Entretanto a alerto para que tenha cuidado e pense muito bem no que fará com o poder de que agora dispõe. — Dito isto, a mulher se despediu e nunca mais foi vista naquela região.
Muitas semanas se passaram, e o aniversário da avó da menina se aproximava. Como era realmente tão doce, ou até mais, quanto contava sua reputação, a menina não deixava de se preocupar com como agradaria a sua avozinha. Foi então que se lembrou do pedaço de papel que lhe fora entregue vários dias antes. Procurou-o no lugar onde o guardara seguro como só uma menina atenciosa faria, desdobrou cuidadosamente o papel e leu em letras grandes impressas no topo “COOKIES”, seguida de uma lista de ingredientes e procedimentos.
Ela acendeu o forno até que ficasse tão caloroso quanto era seu coração. Apanhou sua tigela preferida e nela despejou uma xícara bem cheia de farinha, e depois mais uma e depois ainda mais metade da metade, misturando tudo enquanto cantava uma linda canção, para em seguida acrescentar uma colherada de bicarbonato de sódio e uma de sal.
Depois procurou uma tigela maior, mas longe de ser grande o suficiente para caber toda sua felicidade, nela misturando uma xícara de manteiga amolecida e uma xícara com uma quarta parte de açúcar mascavo e o restante completo de açúcar comum e ainda uma colher de extrato de baunilha. Bateu tudo com uma colher a valsar pensando em como sua avozinha ficaria alegre até ficar tudo tão cremoso quanto seu sorriso.
Então chegou a hora dos dois ovos serem adicionados, parecendo dois grandes olhos dourados antes de se desmancharem ao serem tirados pela colher para uma dança. A magia foi completada quando os conteúdos das duas tigelas se encontraram um com o outro e com os pedacinhos picados de nozes e chocolate meio-amargo. Quinze minutos quentinhos passados dentro do forno fizeram acontecer o que faltava acontecer, e lá de dentro saíram os mais doces de todos os doces.
Tão maravilhada ficou sua avozinha com aquelas fabulosas guloseimas ao recebê-las, que tratou de oferecê-las às suas amigas para impressioná-las. Só que uma dessas amigas, de tão encantada com um doce tão doce que fazia seu peito estufar de felicidade, pediu para levar um para seu sobrinho. Quando provou a iguaria, o sobrinho ficou tão extasiado que arco-íris se projetaram em suas retinas, e o aroma das flores pareceu-lhe encher o ar. Coincidentemente esse sobrinho era ninguém menos do que o prefeito da cidade distante que ficava próxima à floresta e ordenou que a menina fosse imediatamente trazida à sua presença.
Outras pessoas poderiam ficar preocupadas ao serem conduzidas com urgência até diante do prefeito, mas não a menina, pois se tratava ela de uma fonte infindável de pensamentos positivos, e sabia que se encarasse a tudo com felicidade, só atrairia ainda mais felicidade.
Pois o prefeito caiu de joelhos diante da menina e lhe confessou tudo o que já havia feito de errado durante sua vida. Também lhe contou que, graças àquele doce mais doce que todos os doces que já provara juntos, havia se arrependido e agora buscava o caminho da redenção. Queria compensar a todos, e já planejara como realizaria tal ambição. Levaria até a mais doce das meninas todos os ingredientes nas quantidades de que necessitasse para que fizesse uma incomensurável quantidade de doces, que distribuiria em um grandioso festival, trazendo felicidade a todos da cidade distante próxima à floresta. Diante da oportunidade de fazer tantas pessoas felizes, a doce menina se viu ainda mais feliz e não pôde declinar tal tarefa.
Por uma semana inteira a menina trabalhou sem descanso até o dia do grande festival. Na data marcada, lá estava ela com sono, com o corpo dolorido, exausta, mas com um grande sorriso ao ver a felicidade que seus doces traziam a todos. Tão feliz ficaram, que as pessoas cantavam de mãos dadas, e até o sol pareceu brilhar mais naquele dia. Tão felizes ficaram, que nos dias imediatamente seguintes todos só comentavam sobre os doces mais doces que já provaram e sobre a mais doce de todas as meninas que os assara. Nesses dias, não foi relatado ocorrência de crime algum, nenhuma briga aconteceu, rancores antigos foram perdoados, velhas rixas acabaram, as pessoas passaram a trabalharem juntas para fazer da cidade distante próxima à floresta um lugar melhor.
Mas a felicidade não durou mais do que uma semana. Então todos se tornaram desmotivados, passaram a desistirem de seus sonhos, abandonarem seus trabalhos, alguns se recusavam a comer. Todos estavam tristes, homens choravam nas ruas, famílias se desestruturaram. Não havia o quê valesse a pena, não havia motivo para se continuar a levar aquela vida miserável, não depois daqueles doces, não depois daquelas maravilhas que vieram apenas para lhes mostrar a verdadeira felicidade e jogar nas suas caras que não eram dignos dela.
A menina sentiu um aperto no peito que parecia não ser forte o suficiente para conter o coração que pulava lá dentro. O que ela havia feito? Só queria deixar a todos felizes. Como poderia consertar tudo agora? Então teve uma idéia. Pôs-se novamente a trabalhar esperançosa de que iria resolver tudo. Quando terminou, uma nova fornada de doces estava pronta, mas não dos mais doces dos doces. Estes eram amargos. Esperava que, ao provarem, todos percebessem como aqueles doces eram insignificantes, sem importância alguma, e voltassem às suas vidas.
Só que tudo deu errado outra vez. Ao provarem a nova fornada, as pessoas da cidade distante próxima à floresta foram tomadas por um impulso saudosista. Velhos passaram a contar às crianças como foram maravilhosos os doces antigos, e que agora a vida não tinha graça. Homens lotaram as igrejas e templos e lá se martirizavam responsabilizando a falta de sacrifícios de fé pela perda dos incomparáveis doces do passado. Filósofos depressivos se embebedavam ao relento esperando serem levados pelo mal da peste enquanto debatiam sobre a ruína dos novos tempos amargos. Jovens agrediam-se nas ruas culpando uns aos outros pelas perdas que sofreram. Havia ainda quem, desesperado, bradasse anunciando o fim do mundo.
E a menina já não sorria mais, mas ainda guardava sua esperança. Correu o mais que pôde até sua cozinha e voltou a misturar, picar, bater e assar. Após passar a noite em claro, trouxe mais dos mais doces dos doces e os distribuiu de boa vontade a todos que cruzaram seu caminho. E a cidade distante próxima à floresta se tornou um lugar feliz mais uma vez, e a mais doce das meninas voltou a ser feliz.
E assim a menina passava seus dias, fazendo doces muito doces e os distribuindo e sozinha sendo responsável pela felicidade de todos. E só isso ela fazia, pois não lhe sobrava tempo para mais nada. Apenas ficava trancada em sua cozinha e saía apenas para distribuir seus doces tendo de voltar apressada para assar mais. Lá fora só havia felicidade, mas a menina não podia ir até lá e, junto aos demais, ser feliz. A menina já não sorria mais, a menina já não era mais doce. Foi quando se lembrou das palavras da mulher desconhecida que, em um dia que agora lhe parecia muito distante, bateu à sua porta, e tomou uma decisão. Resolveu que faria o mais maravilhoso doce de todos os doces. Trabalhou nele com afinco e lhe depositou o pouco de doçura que ainda lhe restava em seu coraçãozinho. Quando ficou pronto, comeu-o sozinha sorrindo.
Como a próxima remeça de doces demorava a chegar, os cidadãos de cidade distante próxima à floresta se reuniram e foram bater à porta da menina esperando que ela os salvasse da infelicidade. Como não houve resposta aos seus chamados, adentraram na cozinha. Lá, encontraram a menina caída ao chão, e seu coraçãozinho já não mais parecia não poder ser contido pelo peito. Em uma de suas mãos estava uma folha de papel com marcas de dobra e uma receita impressa. Ao final da lista de ingredientes podia ser lido um manuscrito acrescentado a caneta:
veneno de rato.
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Re: TEXTOS PARA # 25

Mensagem por Rodrigo! em Ter Nov 29, 2011 10:23 am

Meu.

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