[Conto] Buraco Negro - Parte 1

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[Conto] Buraco Negro - Parte 1

Mensagem por Apgrilo em Seg Ago 22, 2011 8:43 pm

Amigos,
posto aqui outro conto para vocês lerem. Me dêem retorno, ok? Grande abraços a todos.


Buraco Negro - Parte 1

- Quer dizer que o futuro é cíclico, então? - Disse aquele mais jovem.
- Não, cíclico não, ele é, a princípio, inevitável. - Falou o mais velho, de barba grisalha. - Quer mais café?
- É... Quero sim. Por favor.
- Açúcar ou adoçante?
- Açúcar.
E o mais velho foi para a cozinha. O mais jovem ficou admirando a sala de sua casa, achou muito aconchegante e confortável. A forma como ele havia decorado o lugar trazia paz ao ambiente. Quadros, móveis de madeira.
- Aqui, café para um dos meus melhores alunos. - E serviu café na xícara de ambos, apoiada na mesa perto do sofá onde estavam. - Café para o Jonas! - E sorriu bebendo um gole.
- Mas então... Sobre o futuro... Quer dizer que ele sempre vai acontecer, não importa o que se faça? - E Jonas bebeu um gole do café.
- É a velha idéia de que se você voltar no tempo e mudar uma pequena coisinha, vai ter aquele blá blá blá todo. Não. O futuro só se altera de verdade quando você tira alguma coisa de seu curso.
- Curso? - O mais velho anuiu. - Como assim, professor? - E bebeu outro gole.
- Olha, parece complicado, mas é bem simples na verdade... Já viu o filme De Volta Para O Futuro? - Jonas negou. - Nunca viu aquele do carro que volta no tempo? - Negou de novo. - Tá... Imagina várias linhas paralelas. Imaginou?
- Aham.
- Não, espera. Isso tem que desenhar.
- Porra, professor, tá me chamando de burro, cacete?
- Não. - E sorriu. - É que pra explicar melhor, realmente tem que desenhar. Deixo pegar aqui uma coisa. Um minuto.
Levantou-se e saiu de novo. Jonas voltou a olhar a sala daquele homem mais velho que o havia trazido para ali depois de uma discussão acalorada no bar da faculdade. Um grupo enorme discutia teorias sobre viagens no tempo e tudo o que poderia acarretar se acontecesse na realidade.
Para ilustrar seus pontos de vista, entre cervejas, refrigerantes e aperitivos, os diversos debatedores citavam filmes, quadrinhos, livros, revistas cientificas ou nerds, enfim, qualquer mídia que proporcionasse as viagens e tudo aquilo que as envolvia.
O professor voltou com uma cartolina e um lápis. O papel estava desenhado de um lado e meio sujo do outro. Jonas já havia tomado o café pela metade. O professor virou-a em cima da mesa com o lado sujo aparecendo o que não estava desenhado.
- Aqui, Jonas. Presta atenção.
Desenhou com um lápis quatro linhas paralelas enquanto Jonas bebia o resto do café.
- Em cada uma dessas linhas, existe uma possibilidade de futuro. - Jonas já ia abrir a boca. - Calma, deixo te explicar. Imagina a sua vida. Na sua vida, você, Jonas, provavelmente já pensou por diversas situações de escolha: “puxa, se eu tivesse feito isso”, “eu deveria ter feito aquilo” e assim por diante.
- É verdade.
- Então, cada escolha que fazemos gera uma linha dessas. E essas linhas começam inclusive antes de nascermos. Foram as escolhas, por exemplo, que os nossos pais fizeram por nós antes de virmos ao mundo e enquanto somos crianças.
- Ah, entendi, professor!
- Aqui, desenhando fica mais fácil.
- Me chamando de burro de novo, professor?
- Não, nada disso. É pra mostrar o ponto de vista. Olha só.
Ele foi riscando com o lápis por cima de uma linha, iniciando da esquerda para a direita, depois passando a outra linha, depois por outra, sempre fazendo força para que seu riscado fosse mais perceptível do que as linhas anteriormente feitas.
- Aqui, Jonas, essa é a nossa vida.
- Correto.
- A parte mais louca: cada escolha que fazemos também gera um “Jonas” diferente que agora está faz parte dessa realidade alternativa. Da realidade do “e se eu fizesse isso ou aquilo”. Imagina se você não tivesse vindo aqui em casa hoje e não estivéssemos tendo esta conversa agora? Em algum lugar, o seu outro “eu” voltou para a sua casa e o meu outro “eu” para a minha e nunca conversamos sobre isso. Quem sabe em outra realidade nós nunca chegamos a nos conhecer. - E sorriu.
- Caraca, professor, que coisa de maluco, hein? Ficar pensando nisso...
- Sim. E é agora que vemos como alterar o futuro. O “Jonas” que continuou em alguma dessas linhas, ele viveu com a escolha que fez, certo? - Ele anuiu. - Mas os outros não, porque fizeram escolhas diferentes. Então eles tem outros futuros. Dai, como fazer para consertar aquele futuro do Jonas que provavelmente fez alguma besteira ou aconteceu alguma coisa trágica na sua vida?
- Como, professor?
- Consertar não dá. Simplesmente não dá.
- Ah, impossível. Eu já vi filmes, li livros... Sempre tem como mudar o futuro.
- Não, não tem. O futuro daquela realidade vai acontecer, Jonas, porque o seu outro “eu” simplesmente fez aquela escolha. Em todas as possibilidades, em todas as realidades alternativas, algum futuro irá acontecer para todos os “Jonas” que estão nelas. A sacanagem que esses filmes fazem é trocar o futuro de uma realidade alternativa por outra. Enquanto o Marty McFly daquele presente fica feliz por estar no futuro que ele quer, que ele deseja e conseguiu alterar, como para salvar o Doc Brown, os outros McFlys se ferram nas outras realidades. E isso é puro egoísmo, uma sacanagem das grandes. O Doc Brown era pra morrer, porra! Salvando ele, o McFly prejudicou outras realidades alternativas. Filho da puta egoísta do cacete esse cara.
- Entendi professor. - Falou Jonas sorrindo.
- Mas o lado positivo do que esses filmes, quadrinhos e livros contam em suas histórias, é, de fato, o que mais existe de possível hoje em dia.
- Do... Do... Possível?
- Sim. O que podemos fazer é escolher um desses futuros que serão escritos e irmos para lá.
- Mas como podemos fazer isso se não podemos viajar no tempo?
- Criando um buraco negro.
- Buraco negro? Mas... Como?
- Você viaja para os outros presentes e futuros e retira dele a mesma coisa... - E olhou para a cartolina apontando. - O tempo-espaço sempre irá se corrigir quando se retira algo, mas veja bem... Peguemos esta cartolina como exemplo. É difícil de eu conseguir retirar esta mesma cartolina de diversos presentes e futuros para conseguir criar esse vácuo, esse buraco negro, e conseguir voltar ao passado. Como saber se é a mesma cartolina? Mas com uma pessoa não. Além de ser mais fácil identificar a mesma pessoa em todas os presentes e futuros alternativos, o tempo-espaço demora muito mais para se corrigir quando se retira uma pessoa. - E sorriu como uma criança, fazendo seus olhos brilharem. Ele olhava para Jonas, que começou a ficar desconfiado.
- Eu... Eu... Acho que vou embora, professor. Obrigado pela aula. - Disse tentando se levantar, mas sentiu uma tontura, sentando-se novamente.
- Calma, para quê a pressa?
A respiração de Jonas começou a ficar mais forte, ele sentiu a tontura aumentar e seus lábios formigaram. O professor olhou seu relógio.
- Agora deve estar bom.
Jonas começou a piscar os olhos com força, e a partir daí não viu mais nada seqüencialmente. Ele via o que sua visão permitia e tentava forçar o olho para ver o quanto pudesse, mas não conseguia por muito tempo.
Viu na seguinte ordem: ele sendo retirado do sofá, sendo arrastado pela sala, passando por um corredor, ele tombando no chão, o professor abrindo uma porta, ele passando pela porta novamente arrastado, ele sendo jogado no chão de um local muito escuro, o professor fechando a porta, e, por último, o professor sorrindo com um olhar infantil pela abertura de vidro da porta. Depois disso apagou.
Acordou depois de um tempo, recobrando a consciência. Ainda estava no mesmo local escuro e sentiu que tinha mais gente com ele e começou a se apavorar.
- Calma, tenta ficar calmo. - Disse um ao se aproximar.
- Quem é você?
- Não fale alto. - Falou outro, este bem mais velho. - Dói meus ouvidos.
- Aonde eu estou?
- Você está preso, garoto. - Completou um terceiro. - Assim como todos nós.
- Quem são todos vocês?
E todos se aproximaram do pouco de luz que tinha. Seis pessoas se revelaram quando a luz tocou nos seus rostos. Não, aquilo não podia estar acontecendo, não podia ser verdade. Ele não conseguia acreditar no que via. Seis Jonas diferentes estavam ali: dois aproximadamente de sua idade, e os outros quatro mais velhos, até um com cabelos brancos e pele enrugada.
- Vo... Vo... Vocês! Não! Não! Sa... Sa... Saiam daqui!
- Não adianta gritar, garoto. Ninguém vai te ouvir. - Falou o mais velho. - E daqui a pouco o professor volta pra te pegar, se prepara.

Apgrilo
Apagatti um dois três testando

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